Há obras que - sejam elas filmes, livros ou, até, músicas -, têm o condão mágico de nos abrir os olhos e de nos fazer ver cenários que desconhecíamos ou perante os quais gostávamos de virar a cabeça.O documentário cuja capa aqui se mostra é, precisamente, um trabalho que se enquadra na categoria de coisas que deveriam ser de estudo obrigatório por todos os cidadãos. Tal como as vacinas que tomamos a contragosto, também determinadas obras nos deviam ser impostas como forma de nos vacinar contra muitas ideias feitas que por aí andam e cujos defensores e promotores alegremente se passeiam por entre nós, quantas vezes com estatuto de vedetas fashion. De que falo eu? Falo de "The Soviet Story", um documentário da autoria do lituano Edvīns Šnore e patrocinado pelo Parlamento Europeu, que versa sobre a União Soviética e a sua colaboração activa com a Alemanha Nazi.
"The Soviet Story" é mais do que um murro no estômago, é um grito desesperado de apelo à verdade histórica e ao rasgar desse véu romântico com que a nossa sociedade gosta de cobrir os "feitos" do Comunismo. A história que Šnore nos conta, constantemente assente em imagens reais das décadas de 30 e 40 é a da cooperação entre nazis e comunistas para a invasão da Polónia, da forma como as antenas russas guiaram os bombardeiros alemães; do empréstimo de uma base naval no Báltico para que os nazis lançassem a invasão da Noruega; da entrega de judeus às SS por parte do NKVD; dos encontros prazenteiros e jantares de gala entre oficiais alemães e soviéticos; da ocupação e reutilização dos campos de concentração nazis por parte da máquina repressiva comunista; das bárbaras experiências médicas feitas em prisioneiros políticos; das semelhanças ideológicas entre nazis (nacional-socialistas) e comunistas (socialistas); dos paralelismos gráficos, artísticos e políticos entre as duas ditaduras; da formação que os assassinos nazis tiveram junto de assassinos soviéticos; dos massacres perpretrados pelo NKVD; do genocídio da população ucraniana a mando de Estaline e de tantos outros factos monstruosos que continuam a serem ignorados ou apelidados de merros "erros".
"The Soviet Story" não é uma coisa fácil de ver: exige vontade de nos confrontarmos com a realidade cruel e de nos prepararmos para mudar a nossa maneira de estar relativamente a muita coisa, nomeadamente à constante política de dois pesos e duas medidas no tratamento dos dois extremos do espectro político. É o conhecimento da História enquanto acto de libertação e de derrube de preconceitos, é o ganhar da sabedoria que nos distancia e permite ser frios na análise do mundo em que vivemos.
Repito: um trabalho como este devia ser transmitido nas televisões públicas de todos os países democráticos; devia ser mostrado a toda a população estudantil e, finalmente, devia servir de base a uma definitiva discussão sobre o lachismo com que a Democracia encara a existência de formações políticas baseadas em teorias que produziram as alucinantes espirais de violência e desumanidade que foram (e são) os regimes comunistas um pouco por todo o mundo. Voltarei a este assunto mais tarde mas é absolutamente notável como é que se gasta tanto tempo com pequenos furúnculos incompetentes como o PNR e se passa completamente ao lado do facto de 8% dos eleitores portugueses votarem num partido (PCP) cujos dirigentes apelidavam a União Soviética de "Sol na Terra", o mesmo sol que queimou cerca de vinte milhões de vidas (só na URSS)...
Vejam o documentário e assumam as suas consequências.
P.S. - dizem que o filme está aqui





