[ Abaixo o Domingo! ]

Domingo, o dia mais estúpido da semana. Que se lixe a paranóia anti-Segundas-Feiras de que falava Bob Geldof (I don't like mondays - The Boomtown Rats). Depois de um Domingo comum, a Segunda é uma libertação! Ao Domingo, tudo fecha, as ruas ficam desertas (os centros comerciais, não) e a cidade reveste-se de um tédio que é difícil de sacudir. Dá-se as voltas à imaginação para inventar formas de matar o tempo mas a verdade é que, ao Domingo, também a originalidade está de baixa. O Domingo não é um dia, é uma fatalidade. Fala-se constantemente em reduzir a semana de trabalho mas, na realidade, é o fim-de-semana que devia ser reduzido. Para compensar, trabalhava-se menos nos outros dias. Era bem pensado...
[ O coleccionador de olhos ]

Tarde de Sábado (no caso, 16h30 de 23/09), cinemas Alvaláxia...

Preparo-me para queimar mais hora e meia do meu tempo livre a ver um qualquer filme que me promete a chacina de um bando de jovens deliquentes. Como, no dia em questão, a minha tolerância para com adolescentes chungas já está abaixo de zero, alinho sem pestanejar...

Ainda gasto os últimos minutos antes da sessão, tentando ler um chatérrimo conto de fantasmas (em Inglês) quando vejo entrar na sala um indivíduo com duas crianças e um adolescente. Fico a pensar se teria sido uma ilusão induzida pela minha leitura e guardo a confirmação para mais tarde...

O filme em questão chamava-se "O coleccionador de olhos" e, durante cerca de 90 minutos, brindou-nos com: fanatismo religioso, gente morta (à machadada, à pancada, aos tiros, empalada, atirada da janela, perfurada com barras de ferro pelos olhos adentro, comida viva por cães), fracturas expostas, linguagem obscena (*), mutilações, corpos em decomposição, consumo de droga, masturbação, etc., etc.

Já agora, diga-se que o tema principal da obra era a obsessão de um maníaco por arrancar olhos às pessoas (enquanto vivas, claro). Os olhinhos, com nervo à mistura, eram, depois, guardados em boiões e ficavam para colecção numa mesa de uma sala do hotel onde a acção se desenrolava. O hotel estava abandonado e as suas paredes cobertas de imundície, sangue e, claro, baratas...

Em todo o filme a violência é assumida e explícita. Temos até direito a uma pequena viagem ao interior do corpo humano para observar os efeitos de uma queda de muitos metros de altura, com perfurações de diversos tipos. Uma verdadeira iguaria!

Bom, mas, ironias à parte, eu não contesto a existência destes filmes. Eu fui vê-lo! O que me deixou revoltado foi que, ao sair da sala, e fazendo eu um compasso de espera propositado, pude confirmar a minha desconfiança. Efectivamente, um energúmeno tinha levado duas crianças (8-12 anos) e um adolescente (14/15?) a ver o filme em questão. Ora, não é possível, pelo car taz, pelas descrições disponíveis em grande quantidade, etc., que aquele indivíduo desconhecesse o conteúdo da película e, mesmo que tal sucedesse, ele era sempre livre de, a qualquer momento, se levantar e sair. Não o fez. A razão para tal comportamento só pode ser uma total irresponsabilidade, um "deixa-andar" entranhado, uma falta de sentido crítico que tudo permite. E, pensa-se: quando crianças (repito, crianças) são levadas, de propósito, ao cinema, para ver coisas destas (havia filmes infantis e juvenis no mesmo espaço), o que se pode esperar que seja o seu crescimento? Qual será o desenvolvimento do seu carácter? As esperanças serão poucas. Mas, o mais assustador é que o patife do pai (?) não está sozinho. Está acompanhado de quem lhe vendeu os quatro bilhetes, de quem lhos recebeu à entrada, de quem se sentou junto dele e o viu, na sala, com as crianças. Ninguém se mexe e esta é a imagem do nosso povo, um povo de bandalheira onde tudo vale, onde ninguém faz nada, onde nada interessa.

E, com esta, já é a segunda vez que vejo menores (crianças) numa sala de cinema, vendo um filme de terror. Da outra vez, foi nas salas VIP das Amoreiras e o menu era consideravelmente menos nocivo: lobisomens comendo mulheres (em vários sentidos...).


Está tudo bem, portanto. E, se não estiver, a culpa é do Governo, obviamente!...



(*) - aqui, há que dar os parabéns à tradutora que teve o cuidado de não ferir susceptibilidades, trocando a palavra "puta" por "meretriz", o que faz todo o sentido no contexto do filme e ainda mais se pensarmos que as personagens eram adolescentes condenados por tráfico de droga, agressões, roubos, etc. Pensou nas criancinhas que estavam a ver a fita, concerteza...
Vá-se lá fugir das memórias. Vá-se lá pedir-lhes que não nos batam à porta nas alturas menos próprias. Vá-se lá fingir que o que nos passa agora à frente é novo e não a continuação de qualquer coisa que nunca se foi embora...
[ Pragas ]

Há pragas que são passageiras, há outras que vêm para ficar. Entre as primeiras contam-se coisas tão nocivas quanto efémeras como sejam as Spice Girls ou um número da Caras; entre as segundas, ocorre-me, assim de repente, as empresas de segurança.
Já não me lembro de quando foi mas recordo-me de quando os lugares de porteiro e recepcionista eram ocupados por pessoas de meia-idade que não usavam uniformes de mau-gosto. Também me lembro de ir aos incipientes centros comerciais da altura (ah pois, já os havia!) e não ver vigilantes. Não eram necessários ou, como diriam os iluminados da Economia, havia um nicho de mercado à espera de ser preenchido? Provavelmente, os chatarrões de fato teriam razão, a julgar pela explosão de empresas de segurança que, em todo o lado e para todo o lado, espalharam hordas de homens - e mulheres... (fica a concessão ao igualitarismo de Esquerda) -, para nos atenderem ao balcão, prestarem informações, tomarem conta dos nossos valores, entregar senhas nos serviços públicos ou, como me parece que é o caso em demasiadas ocasiões, se passearem simplesmente com os seus intercomunicadores.
Recentemente, tive três oportunidades para constatar que a inutilidade das empresas de segurança é um facto em muitas situações e não apenas embirrância minha...

Situação nº1 - Alvaláxia, Lisboa

Na zona de comidas, um grupo de três casais na casa dos vinte, aparentando pertencer à classe média, parecia festejar um aniversário na zona comum de restauração. Passemos à frente do pormenor de mau-gosto que é celebrar os anos de alguém numas mesas de centro comercial e concentremo-nos no "depois da festa". Este ocorreu quando eu me preparava para morder um suculento hamburguer (numa das minhas raras incursões ao sofisticado universo gastronómico da comida de plástico) e se começou a ouvir vozes exaltadas de mulheres. Tento perceber o que se passa, dou descanso aos dentes e afino os ouvidos para tentar escutar melhor. Não era preciso: em poucos segundos passa por mim uma rapariga com sangue a escorrer pela cara, seguida de mais duas ou três que a tentam acalmar. Pelo caminho por entre as mesas, em direcção à casa-de-banho, a revoltada moça vai soltando ameaças. Aparentemente, alguma coisa tinha corrido mal no salão de jogos... Passam longos minutos. A jovem volta a cruzar a zona de restauração, voltam-se a ouvir gritos e vão aparecendo seguranças. Mais gritos, mais discussão e mais alguns seguranças. E assim se foi mantendo a coisa durante, pelo menos meia-hora. Acabo de comer, vou dar uma volta pelo centro e sempre ouvindo gritos e discussão. E o molho de seguranças, lá. Sento-me a ler e a fazer tempo para ir ao cinema e a discussão continua. Acabo a leitura, vou para o cinema e... a discussão continua... (adivinharam: os seguranças lá estavam). Aqui, já se tinha passado mais de uma hora desde o começo das "hostilidades"!
Desta vez, a PSP já estava no local. Ora, como sabem, a PSP tem uma reputação a manter e, por tal, apresentou-se, falou e... não resolveu nada.
Bom, sentei-me na sala, vi o filme e, ao sair da sala, preocupado por ter perdido 90 minutos a ver uma péssima fita, sou brindado pelo doce som de restos de discussão. Aqui, já se tinham passado duas horas e meia! Duas horas e meia durante as quais os seguranças do Alvaláxia deixaram que os utilizadores do espaço fossem incomodados por gente aos gritos, a soltar imprecações e ameaças, a passear-se com sangue na cara e, como parece óbvio, a agredir-se.
E pergunta o tolinho: para que raio é que servem os seguranças?!


Situação nº 2 - CC do Campo Pequeno, Lisboa

Ah, o prestígio da renovação dos espaços, a centralidade, a sofisticação... Passemos à frente do facto de, do ponto de vista estritamente comercial, o CC do Campo Pequeno ser absolutamente desinteressante ("trapos" são coisa que me interessa pouco) e concentremo-nos no que interessa: o CCQP tem uma zona de restauração! (não estavam à espera desta, pois não?)
E como o que interessa é matar a fome, aquele é um sítio como qualquer outro para o fazer. Para além disso, confesso, o prestígio é uma coisa que sabe bem e não me parece que a tasca da esquina o tenha. Ainda assim, hei-de falar com o dono para saber se ele o vai adquirir nos próximos tempos. Isso e Sumol porque eu não bebo Fanta.
Bom, estava eu e dois colegas a comer a nossa comidinha de franchising quando, por entre as notas de piano ao vivo, somos contemplados com o assédio mendicante de duas mulheres romenas. Ah pois, nada como ouvir o "My way" com uma letra do tipo "senhor, senhor, para o menino, senhor...". As mulheres, vestindo-se como ciganas, uma com o habitual bebé ao colo (já repararam como os bebés romenos são uns santos?, sempre a dormir, não dão trabalho nenhum) e a outra com um rebento já autónomo que apresentava a vantagem de poder ir de mesa em mesa pedindo qualquer coisa. Ora, como se a situação não fosse já irritante, ainda por cima, estas criaturas dedicavam-se a importunar os clientes do centro comercial à vista de diversos seguranças a quem elas passavam literalmente debaixo da cara (eram pequenas, as mulheres), sem que eles fizessem o que quer que fosse.
E pergunta o tolinho: para que raio é que servem os seguranças?!


Situação nº 3 - CC do Campo Pequeno, Lisboa

Exactamente, outra vez o CCQP. Desta vez eram só duas mulheres, tentando disfarçar a sua origem com um aspectozinho melhor mas entregues ao mesmo trabalho: andar a pedir esmola a quem almoçava. E, para variar, os seguranças nada faziam. Como isto já me estava a causar azia, dirigi-me à recepção do centro para apresentar reclamação. Santo milagre! Ainda a reclamação não estava assinada (livro de reclamações, nunca esquecer a sua existência!) e já as mulheres eram postas na rua. Reclamar compensa SEMPRE!
Mas o tolinho pergunta: e se eu não tivesse reclamado?