[ o transe de coelho ]Eu gostava de ser como o Eduardo Prado Coelho. OK, piadas sobre o físico à parte, o homem é um intelectual, deve, concerteza, viver melhor do que eu e até já viveu durante anos na capital francesa. E mais! Foi pago (e bem) para viver em Paris enquanto que eu tive de pagar (e bem) para lá estar durantes uns poucos dias...
Saltando as invejas mesquinhas, o EPC deve ser um homem feliz (até parece que é professor universitário na área de letras - o que deve ser óptimo para as hormonas) e porque consegue ver mais do mundo do que o comum dos mortais, pelo menos, é a impressão com que fico após ter ido ver o filme "português" "Transe", da realizadora Maria Teresa Villaverde. Fi-lo a conselho indirecto do EPC, depois de ter lido um recorte do jornal Público, com uma crónica em tons superlativos acerca do dito filme. Nesse momento, as dúvidas que eu tinha fruto de muitos barretes que o cinema nacional já me enfiou, desvaneceram-se e passei a ter como objectivo primordial do dia seguinte (além de respirar), ver a nova película. E cumpri o objectivo...
Quatro euros depois, estava sentado num dos cinemas do Saldanha, a postos para ser esmagado pelas momumentais qualidades que EPC atribuía ao filme e a, de uma vez por todas, me deixar tentar pela ideia de que o cinema Português ("moderno") até podia ser interessante.
A história começa e imediatamente se instala algum desconforto: o som é um pouco baço e temos uma espécie de sequência de sonho com uma criancinha dizendo qualquer coisa em Russo (a língua do filme, já agora). Mmm... calma, pode não ser nada.
O tempo vai passando e o tom do filme não sai do desinteressante (para não dizer chato): as imagens são sem graça, a história é relativamente fluida mas sem criar ansiedade pela cena seguinte, a música é ausente. E este último pormenor até é importante porque EPC conseguiu ver (ouvir, i.e.) uma perturbadora música onde eu só ouvi silêncio. Deve ser a tal história do "som do silêncio"...
Sonia (sem acento porque a rapariga é russa) farta-se da miséria de Sãopetersburgo (ainda não cheguei a uma conclusão quanto à forma correcta de escrever o nome da cidade...) e muda-se de armas e bagagens (não que tenha qualquer das duas) para a Alemanha onde, para variar, trabalha como mulher da limpeza. Aí, ao fim de algum tempo é "raptada" (sem violência - que os mafiosos também podem ser bons rapazes) e posta ao cuidado de um mafioso iniciante que lhe dá a hipótese de se ir embora. Como a rapariga não aguenta o caminho a pé, ele retoma-a, dá-lhe banho e comida e até aproveita para lhe fazer companhia na cama, naquela que é, provavelmente, a mais serena cena de violação alguma vez vista.

Sonia é o primeiro trabalho do mafioso que, ou a entrega no destino, ou está feito, claro. E o destino é Itália, onde Sonia é colocada a trabalhar num bordel. Como primeiro trabalho, tem de satisfazer um preto - brasileiro? africano? (não se percebe bem) -, mas fica sem se conseguir mexer e nós ficamos também sem perceber o que lhe terá causado mais repúdio: a raça ou a situação. Sonia leva umas lambadas e, de cliente em cliente, lá vão tentando que a moça faça alguma coisa. Passado algum tempo, a nossa infeliz russa é levada para um palacete onde deverá servir de brinquedo a um jovem adulto demente que, após um fascínio inicial, fica bastante desiludido ao constatar que a "flor dela é murcha"... Este problema de origem botânica não demoveu, no entanto, o assistente pessoal do louco a mostrar-lhe como é que as coisas se fazem...
Sonia consegue fugir mas é apanhada daí a pouco, maltradada (mas não muito, aparentemente), colocada num contentor e despejada em Portugal, numa sala onde um homem tem com ela um diálogo absolutamente hilariante (no mau sentido). Aqui, podemos tirar quaisquer dúvidas quanto aos dons poliglotas de Sonia que já falava Russo, aprendeu Alemão, Italiano e, pasme-se!, se expressa em fluente Português de Lisboa nesta última parte do filme.
Teresa Villaverde podia ter-nos dado um filme-choque acerca do tráfico de mulheres, podia ter-nos dado um soco no estômago (ao EPC, deu - o que é difícil, convenhamos) mas não resistiu à tentação de intelectualizar o que podia ser uma boa história. Ou, se calhar, não sabe contar uma história de forma interessante para o espectador. A obsessão dos tiques de "autor", de remeter tudo para segundos sentidos, dos planos longos e fixos, da ausência de acompanhamento musical, tudo isso é-nos posto à frente pela enésima vez, como prova da imutabilidade dos nossos "autores".
O cinema português revela-se absolutamente incapaz de se "industrializar" e descolar da doença intelectualóide que nos impede de ter o prazer de ver bom cinema na nossa língua. Quando o tenta fazer, cria abortos como "O crime do Padre Amaro" mas, será de pensar se isso não será um mal menor.
Num momento em que a Palestina tem uma óptima fita a rodar em Lisboa, que a Espanha enche salas com Almodovar, que outras cinematografias não anglo-saxónicas nos brindam com bom cinema, Portugal mantém-se fiel à ideia de que é o último refúgio da inteligência aplicada ao cinema e persiste num caminho suicida que nos nega a todos um direito tão básico quanto o de termos um audiovisual próprio (ainda que não original)
Assim, não vamos lá...