nacionalistas, q.b.

No dia 21 de Abril, haverá um encontro de "nacionalistas" no espaço onde funcionava a antiga Feira Popular. Ao contrário de muita gente exaltada que se atira às paredes cada vez que se fala em extrema-direita, eu
reconheço-lhe o direito de associação e de participação política. É certo que quando a ED esteve no poder, esse mesmo direito foi gravemente perturbado (para todas as outras tendências políticas) mas isso não é pretexto para que, em democracia, os actuais defensores da ED se vejam transformados numa espécie de cidadãos de segunda até porque, à esquerda/extrema-esquerda é permitido usar e abusar do sistema político vigente sem que se lhe peça contas por todas as asneiras que fez ou pelas tentativas de imposição de uma ditadura de esquerda em Portugal. Mas, formalmente, a constituição ainda coloca um entrave à liberdade de expressão/associação ao proibir organizações de cariz fascista (palavra que é usada para demasiada coisa). Curiosamente (ou não), a defesa de todo e qualquer radicalismo de esquerda que, posto em prática, levaria à derrocada da nossa sociedade, não só é permitida como também é apadrinhada por alguma comunicação social. E é aqui que se dá a maior distorção do conceito de democracia porque, de uma forma absolutamente frontal, para os
media, as ideias da EE têm direito a ser passadas para o público sem que qualquer consideração lhe seja feita enquanto que as da ED são sempre envolvidas pela polémica de forma a serem apresentadas como algo de condenável. A comunicação social é o quinto poder e se, no dia-a-dia, a sua fidelidade tem vários cambiantes, a verdade é que, quando toca a questões associadas à ED, a CS praticamente fala a uma só voz para condenar e ridicularizar quem se atreve a ser diferente.
Mas, ser diferente não significa, necessariamente, ser bom. No caso da ED, raras vezes isso acontece mas tal não é razão para proibir a sua defesa ou ostracizar quem o faz. Na política, é a discutir ideias que se chega a conclusões e se todos estamos sujeitos ao populismo demagógico de esquerda, porque razão não deixar que se lhe contraponha o de direita?
Dizia Benjamin Franklin, um americano dos antigos (político, intelectual e inventor), qualquer coisa como isto: "posso não concordar com o que os outros dizem mas seria capaz de morrer pelo seu direito a fazê-lo". É a liberdade de expressão. Muitos não a querem.
Dito tudo isto, passemos a umas pequeníssimas notas sobre algumas contradições dos chamados "nacionalistas", todas bem evidentes no cartaz do evento a que aludi na primeira linha.
Comecemos pela lista de países com organizações aderentes. Entre outros, surgem-nos Alemanha, Espanha, Inglaterra (!) e Itália. Ora bem, aqui, a definição de nacionalismo está sujeita a forte fogo. O que é o nacionalismo? Ou, melhor, quem tem direito a proclamar-se nacionalista? No caso espanhol, a extrema-direita nacional apoia os franquistas ou os nacionalistas galegos, bascos e catalães? E em "Inglaterra" (apresentada com a bandeira do Reino Unido)? Galeses e Escoceses não interessam? Em Itália, onde a Liga Nord é considerada um partido de extrema-direita, ser nacionalista é querer a independência do norte de Itália ou defender a supremacia romana sobre a península?
A resposta é, em todos os casos, que os "nacionalistas" são aqueles que defendem a aglutinação/supressão das nacionalidades históricas em favor de entidades políticas mais ou menos forçadas. E aqui entram em conflito com a extrema-esquerda cuja tendência é, precisamente, para apoior os nacionalismos independentistas (vejam a ligação do Bloco de Esquerda aos nacionalistas Galegos e Bascos). Temos, portanto, que o termo nacionalista, empregue da forma como os "nacionalistas" o fazem, é enganador e reflexo de falta de pensamento. Porquê? perguntarão. Vejamos exemplos:
A Alemanha está para a extrema-direita, como a antiga União Soviética estava para o comunismo. A Alemanha provocou duas guerras mundiais onde teve como principais adversários a França e o Reino Unido. À Alemanha convinha que estes dois países fossem entidades supra-nacionais sólidas ou que, pelo contrário, se desintegrassem em unidades menores, quase fatalmente em conflito umas com as outras por necessidade de afirmação? A resposta é, obviamente, a segunda. E, no entanto, os nacionalistas alemães sentam-se à mesa com os que defendem os Estados Inglês e Francês...
A história da França na Europa é, em parte, a história dos seus conflitos com os vizinhos e, particularmente, com os espanhóis. A pergunta que se faz é: para um nacionalista francês, o melhor para o estado de Napoleão teria sido uma Espanha unida ou a existência de quatro países onde hoje está um? Mais uma vez, temos como certa a segunda hipótese.
E já que falámos de espanhóis, atendamos ao caso mais óbvio. Para Portugal, seria mais fácil a afirmação no contexto peninsular tendo de lidar/competir com três países pequenos e um médio ou com um grande? Como é possível que um nacionalista português possa sentar-se à mesa com indivíduos que defendem um regime (o de Franco) onde as nacionalidades históricas eram reprimidas com o consequente fortalecimento espanhol face ao nosso país? Como é que um nacionalista lusitano pode preferir o centralismo castelhano ao independentismo galego? Não faz sentido e isso explica-se porque a palavra "nacionalista" não passa de uma mera fachada, um eufemismo usado para tentar levar as pessoas a crerem que a ED tem como grande preocupação o bem estar nacional quando, como acontece com todos os extremismos, a única coisa que se pretende é a defesa de radicalismos e totalitarismos conducentes à manutenção de determinadas classes no poder. Como sempre, os peões, ignorantes, prestam-se à manipulação política e intelectual por incapacidade de verem o que está por detrás de discursos políticos de fraca qualidade. Quando, na rua, se entrevistam "nacionalistas", as suas respostas são confrangedoramente más e atabalhoadas, quase ao nível (ou abaixo dele) das cassetes comunistas.
O nacionalismo é-nos apresentado muitas vezes como um radicalismo, uma degeneração do patrotismo que urge evitar. Este "nacionalismo", que faz um português apertar a mão a um espanhol defensor de um regime cujo dirigente máximo teve como tese de fim de curso na Escola de Guerra, um plano para a invasão de Portugal, não me serve e não serve os interesses de qualquer pessoa com dois dedos de testa.
O próprio Salazar, quantas vezes apresentado como exemplo pelos "nacionalistas", desprezaria concerteza esta gente, da mesma maneira que desprezou os radicais de Rolão Preto. A Salazar agradavam os totalitarismos de direita por se oporem aos de esquerda e porque a sua existência fornecia uma espécie de "ambiente" natural onde a sua própria ditadura poderia sobreviver. Foi por isso que Salazar apoiou Franco. Porque a derrota deste último e a consequente existência de uma Espanha democrática seriam uma ameaça para o regime. Apenas por isso.
Mas, o disparate "nacionalista" não pára por aqui, i.e., pela salganhada ideológica. No cartaz do evento que esteve na origem deste texto, podemos ainda ver que existirá um concerto "Luso-Ibérico" !!! Arregalarão os olhos os minimamente atentos. Já se tinha ouvido muita coisa mas "luso-ibérico"... É certo que, do lado de lá da fronteira, o apropriamento do termo é constante (veja-se os nomes das empresas) mas isso já não nos surprende (chamar Espanha a um país já foi um óbvio abuso). O que me deixa boqueaberto é ver semelhante estupidez patrocinada pelos "nacionalistas" portugueses... Será que Portugal já só existe nas ilhas?
Denunciada aqui a aberração, passemos à análise das bandas. Por Portugal, temos os "Bullet 38" e pela "Ibéria", apresentam-se os Asedio e os Totenkopf. Ou seja, destas três bandas nacionalistas, duas têm nomes em línguas que não são as suas. Isto é ser nacionalista?
É mau demais... ou caso para concordar com os Gato Fedorento quando dizem que "com os Portugueses não vamos lá"? Com estes nacionalistas, de certeza que não.