Por ocasião da leitura de uma obra de José Hermano Saraiva sobre a vida de Camões ("Vida ignorada de Camões"), ocorre-me publicar aqui essa maravilha (uma de várias) que o nosso Imortal nos deixou. Publicada - e lida -, até à exaustão, conserva, séculos depois, a beleza das coisas verdadeiramente eternas. Como o Amor, dirão alguns, como o Génio humano, apontarão outros. A verdade é que o bom velho Luís Vaz, rufia que fosse, sabia, como poucos, trocar o estoque pela pena.Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Quem de nós não se revê em algo disto?
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