Comida grega

Há locais nos quais nos sentimos bem, há sitios onde gostamos de ir, há pequenos hábitos que nos sabem bem ganhar.
No centro comercial Atrium, no Saldanha (Lisboa), há um daqueles restaurantes "utilitários", do tipo prato-no-tabuleiro-e-agora-procura-uma-mesa-livre, que se encaixa, precisamente, na frase inicial deste texto. Chama-se o dito "Aries" e serve comida grega (ou tida como tal). À nossa disposição temos várias coisas que, para quem conheça a cozinha da zona oriental do Mediterrâneo, se confundem com as tradições culinárias de Turcos, Palestinianos, Israelitas... Gregos. Há as carnes no espeto vertical, cortadas para o prato em farrapinhos, há a "mussaka", há o molho de iogurte, há as azeitonas... e há várias outras coisas como a bifeteka (um hamburger com um sabor próprio), o frango à grega, os folhados com espinafre, o queijo fetta, as espetadas...

Tudo saboroso e servido de modo a deixar-nos sem ponta de fome.

Aliás, lembro-me de uma vez em que, confrontado com as insistentes perguntas de "quer disto, quer daquilo?", interrompi a simpática dona do estabelecimento dizendo qualquer coisa do tipo: "Estou esfomeado. Haja segundo a sua consciência...". O resultado foi uma pratalhada de comida a cujo fim cheguei mais por respeito pela senhora do que por apetite. :)

O Aries, dadas as suas características, não é um local para um encontro romântico, não serve para cerimónias, não é sofisticado. É uma casa que serve para comer. Comer bem e barato. Sim, porque o menu, que inclui quatro tipos de "salada/legumes", queijo ralado, azeitonas, molho, batatas, arroz, feijão preto, molho picante, e um "prato" principal (frango, hamburger, espetada, mussaka, etc.), uma bebida e - ainda -, um café, custa apenas €4,95. Sim, leu bem: quatro euros e noventa e cinco cêntimos.

O que é bom deve ser divulgado. No meio de tanta mediocridade, sabe bem encontrar um local onde somos bem atendidos (os donos têm sempre um sorriso delicado para nós), onde somos bem servidos e onde, ainda por cima, pagamos pouco!


Atenção! - a foto que acompanha este texto NÃO serve de exemplo aos pratos servidos no restaurante

Ai os ácaros!

Há notícias que nos esmagam, informação que nos deixa de rastos perante a monumentalidade dos problemas de que fala... Um bom exemplo é a manchete de hoje no jornal Destak, mais uma dessas publicações gratuitas pseudojornalísticas (ou não...) que infestam as manhãs das populações urbanas. Para que todos possam aperceber-se da gravidade do caso relatado, vou recorrer a um artifício visual e por o texto a negrito (bold, para os anglófilos) e em maiúsculas:


NOVE EM CADA DEZ SALAS PORTUGUESAS ESTÁ INFESTADA COM ÁCAROS


E então? Tremeram-lhe as pernas? Você não sabia disso, pois não? Você não sonhava sequer que em sua casa se abrigasse este titânico inimigo da espécie humana mas, sobretudo, da tuga. Você levou um soco no estômago quando o "ardina" lhe enfiou o jornal pelos olhos adentro e o obrigou a confrontar-se com esta imagem do juizo final doméstico. Ácaros! Muitos ácaros! ÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁCAROOOOOOOOOOOOOOOOOOS, na sua sala, deitados no tapete, refastelados no sofá, pendurados nos cortinados, agarrados às bainhas das suas calças, a tomar banhos de sol junto à TV... ÁCAROS!!! Milhões deles por todo o lado!

E ninguém faz nada? Ninguém impede que 9 em cada 10 salas portuguesas esteja dominada por este caos higiénico? O Governo? O Governo não faz nada! Como é a situação nos outros países? Aposto que em Espanha os impostos dos produtos anti-ácaros já foram baixados. Na Escandinávia, há subsídios para a limpeza das salas. Na Alemanha proibiu-se a existência de ácaros e, nos bons EUA, há seguros contra as doenças provocadas pelas irritantes criaturinhas.

Como é que um país pode sobreviver com as suas salas cheias de ácaros? Há que denunciar a situação: o Destak faz bem em fazê-lo. Alguém tem de tomar providências. A culpa é do Sócrates!

Com isto tudo, fiquei de rastos e cheio de medo de voltar a casa. Sei lá se a minha casa é das 1 em 10 salas portuguesas que não tem ácaros?! Pelo sim, pelo não, vou passar o fim-de-semana fora. Eles que se divirtam sozinhos!


PS - é verdade: o Destak também informa que a Rita Ferro Rodrigues mudou de namorado. Haverá ácaros em casa dela?

O preço da cerveja

Está a pensar ir de férias e apanhar uns bons pifos? Então, interessa-lhe prever a despesa que vai ter com o sumo de cevada. Qual o custo médio de uma bezana por esse mundo fora? Quais os melhores e mais baratos sítios para uma loura? Esqueça a Suécia: Andorra parece ser uma boa solução.

Uns ingleses deram-se ao trabalho de criar um site para ir registando os preços da medida britânica "pint" (lê-se "páint" e leva cerca de meio litro) e há que dar valor a trabalho tão meritório.

Dê um pulo a www.pintprice.com e informe-se!

À velocidade da palermice

A comunicação social, a maioria dela, é um cancro. Se quisermos entregar-nos ao exercício de medir os disparates mais óbvios (apenas estes) publicados na imprensa diariamente, arriscamo-nos a arranjar uma úlcera das más (há das boas? não).

Desta feita, numa das minhas corriqueiras visitas ao Portugal Diário, encontrei uma verdadeira pérola que, confesso, ainda não consegui bem perceber se se formou na concha da ignorância mais obtusa ou na do sensacionalismo mais rasca.

A propósito de um exercício militar que levou uns aviões F16 a fazerem uns vôos incomodativos para a população, o PD informa-nos de que um dos aviões terá atingido a velocidade da luz. Exactamente: da luz. Ora, consultando a internet, sou informado de que a luz atinge a interessante velocidade de 1.079.252.848,8 Km/h. Por extenso será mil e setenta e nove milhões e duzentos e cinquenta e dois mil e oitocentos e quarenta e oito vírgula oito quilómetros por hora - uff...). Ora digam lá se sabiam que a FAP tinha máquinas destas? Ah pois... quais americanos, quais russos! Os rapazes das OGMA entregaram os F16 a uns moços do tunning da zona Oeste e aumentaram a velocidade das avionetas em cerca de 1.079.251.623,8 por hora! Upa, upa, que são mesmo bons!

Bom, mas a dúvida instala-se quando lemos o resumo da notícia do PD. É que, aí, somos informados de que o F16, na zona transónica "procurou" o "ruido" (SIC) intenso. Como se não bastasse andarem metidos no tunning, os nossos pilotos ainda querem andar a fazer barulho com os motores. Só para se divertirem.

Como dizem os ingleses: "boys will be boys". Vejam a imagem :)

Espreme isso, pá!

Lembro-me de ser pequeno e contemplar a minha irmã espremendo as borbulhas de adolescente, os pontos negros... Na altura pensei que isso era uma coisa só dela mas, alguns anos depois, a rapariga iniciou-me na arte da remoção do sebo: primeiro os pontos negros, depois o nariz, finalmente as borbulhas. Fiquei então pensando que era uma coisa de família. Mas agora, mais de vinte anos depois, venho a descobrir que o fenómeno do fascínio por ver borbulhas rebentarem e jactos de pus sairem do nosso corpo é, afinal, universal. Tão arreigado na nossa psique que até houve quem dedicasse tempo a fazer um site única e exclusivamente virado para o assunto. Para quem quiser ver abcessos a serem esvaziados, quistos, borbulhas rebentando, pontos negros sendo espremidos, vermes a sair de feridas, etc., então, que dê um pulo até Pop that zit, que é como quem diz "espreme essa borbulha".

Sabe sempre bem saber que há mais como nós. Pfff...

Favas à Sarkozy

Estava tranquilamente a almoçar num posto da Galp quando a minha concentração nas favas é interrompida por uma notícia veiculada pela instalação sonora: "Imprensa francesa acredita que Sarkozy já terá casado com a modelo Carla Bruni".

Ah bom! Eis uma coisa digna de transmissão. Só lamento que quem estivesse do lado de lá da porta (ou seja, na rua) não fosse mandada parar para poder ser informada do importante evento, ou antes, da importante suposição.

A "modelo Carla Bruni" (já não é modelo há anos... agora é cantora) arrisca-se a ser mais famosa por andar enrolada com aquele quiriquiqui (é assim que se escreve?) do que pela suas boas canções ou mesmo pelas suas boas formas. Mick Jagger deve estar verde de raiva por ver a sua antiga namorada nas mãos do baixote franciú! Esperemos que saia uma canção, e das boas!

Quanto a mim, ali fiquei, sem saber se devia ter uma paragem digestiva ou rir-me com o ridículo da "notícia". A primeira hipótese era defendida por essa incredulidade que sempre nasce em nós (homens) quando vemos uma bela moçoila acompanhando uma triste criaturinha; a segunda tinha como sua campeã a ironia matizada pelo calo de conhecer de gingeira a nossa "comunicação social".
Optei pela segunda hipótese com largo proveito da minha saúde. Afinal de contas, o Manuel Maria Carrilho casou com a Bárbara Guimarães, o Mick Jagger (lá está) namorou com a Carla Bruni, e todos nós temos antigas namoradas que, agora ou antes, se deitaram com tipos que nos provocam "aquela" sensação esquisita do tipo "não pode ser, vou vomitar". Já não é, portanto, caso para espantar a falta de gosto feminina ou a sua necessidade de protagonismo (a fealdade é sempre menor quando acompanhada de exposição pública ou dinheiro) e mais vale deixar a coisa passar.

Temos então que o actual presidente francês, após divorciar-se de uma mulher que até nem era nada de deitar fora, agora anda a passear-se com uma ex-modelo. Assaltam-me as cândidas imagens da Bruni a dobrar-se para dar um beijinho na testa do Sarkozy ou dele a por-se em bicos de pés para dar um repenicado ósculo na bochecha da "piquena". Ah, "l' amour"...

As favas não estavam más mas a estúpida da empregada cobrou-me mais do que devia. E ainda me serviu uma fatia de bolo-rei quase congelada.

O marketing de Saramago

Saramago está doente. Há dois anos, na feira do livro, já lhe tinha notado um ar pouco saudável. No ano passado estava melhor. Recentemente, foi numa cadeira de rodas que o levaram a visitar uma exposição relacionada com a sua obra... A idade, já superior a oitenta anos, começa a pesar na saúde do escritor e é de temer que o autor de obras tão belas quanto "Todos os nomes" ou "Ensaio sobre a cegueira" entre naquela espiral de enfermidades que, a dada altura das nossas vidas, parece tomar conta de nós. Esperemos que não seja assim, esperemos que o grande escritor possa seguir o exemplo do realizador Manuel de Oliveira que, aos 99 anos (exactamente!) continua a mostrar uma forma física verdadeiramente invejável até para gente dezenas de anos mais nova. As comparações entre os dois acabam aqui. Se a Oliveira é de enaltecer a pujança física, a obra, essa, enterra-se cada vez mais num ridículo para o qual não encontro explicação. Mas, sobre isso escreverei mais tarde: o assunto deste texto é José Saramago e convém não me desviar do caminho.

A razão de estar a escrever sobre o autor ribatejano (e não alentejano, como muitos pensam), é um comentário deixado por alguém no site Portugal Diário, referindo-se à falta de qualidade da obra de Saramago. O texto foi uma "resposta" a um comentário meu à notícia sobre a doença do escritor e no qual eu me referia ao lado "miserável" das suas opiniões políticas. Escreveu o comentador que Saramago - para além das opiniões políticas que se lamentam -, é apenas um produto de marketing. Ora, é aqui que eu discordo profundamente. Repito que, no que diz respeito à política, sinto um profundo desprezo pelas opiniões de Saramago: o comunismo é um atentado à liberdade, um horrendo sistema que só tem dado provas de falhar em todo o lado; os ícones comunistas não passam de personagens loucas que mereciam não ter nascido; e, quando chegamos à mal-fadada história do "iberismo", aí, Saramago desce ao nível intelectual de uma boa parte da nossa população, sempre às voltas com fantasmas e complexos de inferioridade mal digeridos. É miserável este lado do autor mas isso não deve fazer-me esquecer as qualidades literárias do homem.

Saramago é um comunista assumido, num tempo em que o capitalismo selvagem se vai tornando a religião oficial de todos os estados. Está contra a corrente, portanto. E, no entanto, ele vende.

Saramago não é um homem simpático. Tem um ar altivo, por vezes irritantemente sério, não é bonito, não sorri para as fotos. E, no entanto, ele vende.

Os livros de Saramago, da editora Caminho, têm capas feias, tristes, que não ficam bem na prateleira, que não apelam ao comprador. E, no entanto, ele vende.

Saramago escreve obras que não se enquadram nos romances mundanos que dominam as tabelas de vendas. E, no entanto, ele vende.

Saramago tem aquele jeito de escrever tudo de seguida, falho propositadamente de pontuação, escrevendo como se pensa, com pouca respiração. É inestético, para alguns complicado e difícil de perceber. E, no entanto, ele vende.

Saramago é um iberista. Quer isto dizer que apoia a estúpida e absurda ideia de que Portugal e Espanha deveriam ser um só estado. É um pensamento traidor, repelente. E, no entanto, ele vende.

Saramago vive fora de Portugal, numa ilha semi-desértica, longe da "gente bonita" da capital, dos meios de influência cultural e económica. E, no entanto, ele vende.

Saramago foi envolvido numa polémica durante o cavaquismo, pela mão do "funcionário" Sousa Lara, a propósito de um (interessante) livro que entrava em conflito com os dogmas da Igreja Católica. Isto devia indispor a maioria da população nacional contra ele. E, no entanto, ele vende.


Marketing? Que marketing faz o êxito de José Saramago? Se algum o rodeia são as incessantes tentativas de o diabolizar pelas suas opiniões políticas em detrimento da análise puramente literária da sua obra. De autores cujas ideias políticas, comportamentos públicos, vícios privados nos poderiam gerar afastamento está o mundo cheio. Comunistas, homossexuais, drogados, anarquistas, fascistas, irresponsáveis, vigaristas, mulherengos, violadores, brigões... O mundo da literatura está repleto dos piores exemplos para todos os pontos de vista. Mas não é isso que nos impede de abrir um livro e apreciá-lo pelo que contém independentemente do percurso de vida do autor. Por mim, que já li vários livros de Saramago (ao contrário da maioria dos que o criticam) em momento algum me senti forçado a adaptar aos seus ideais políticos para melhor poder degustar os textos. É pena que muitos não o queiram perceber...

Para finalizar, em jeito de conselho, fica a proposta para entrada na obra de Saramago: "Todos os nomes".

O dia dos meus anos

Hoje faço anos.

"Eh pá, parabéns, pá! Que contes muitos, pá! Pagas alguma coisa, pá?"


A mamã, lá do seu longínquo exílio, mandou-me uma encomenda com três pares de meias e trinta eurinhos. Que bom! Convenhamos que, como indemnização por ter-me posto no mundo, é pouco mas... as meias ajudam a equilibrar a coisa. Também me deu dois talões de desconto para a gasolina. Não me servem de nada porque o depósito está cheio. Ofereci-os.

A titi convidou-me para uma picanha lá em casa mas tenho tão pouca paciência para este dia que nem me dou ao trabalho de dar um salto aos subúrbios para aproveitar a generosidade da família.

A mulher do meu chefe trouxe os restos do bolo de aniversário dele (foi ontem a data) e comemos umas fatias.

Um colega meu ofereceu-me três pacotinhos de gomas. Um rapaz porreiraço.

A Galp enviou-me um SMS avisando que me oferecia 100 pontinhos se eu fizesse despesa num posto. Estou a pensar comprar uma garrafa de água, das pequenas.

Fico mais velho um ano. Cada vez estou mais longe dos descontos para jovens e mais perto dos da terceira-idade. Basicamente, estou na idade em que ninguém me dá desconto.

Já não sou jovem, não me vejo como adulto, a velhice ainda é uma coisa distante (e o fim do empréstimo da casa ainda mais), e ando por aqui, contente por estar quase em forma mas pensando que devia estar de outra forma.

Há um tédio que se instalou e que ameaça ficar e nem sei bem se me apetece mandá-lo embora.

Ocorre-me sempre nesta data o poema do bom velho Luís Vaz:

O dia em que eu nasci, morra e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar,
Não torne mais ao mundo e, se tornar,
Eclipse nesse passo o sol padeça.

A luz lhe falte, o sol se lhe escureça,
Mostre o mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!



Estava deprimido o Camões neste dia mas escreveu uma maravilha que, com a atenuação que cada um lhe quiser dar consoante a sua própria experiência, se aplica a tantos de nós.

Hoje faço anos: foda-se...


PS - acabei de me lembrar de um aniversário que merece ser comemorado (e que se celebra hoje): o do Carlos Manuel, o jogador do Benfica (e depois do Sporting). Sem ele, nunca teria havido aquele golaço contra a Alemanha! :)

É possível sorrir?

O site Portugal Diário publicava em 2008/01/03 (pelas 16:31) um artigo de título "Portugueses sorriem menos", ilustrado com uma foto do campioníssimo Mourinho. O texto versava sobre um estudo realizado por um professor da Universidade Fernando Pessoa, de nome Freitas-Magalhães, director do Laboratório de Expressão Facial da Emoção daquela universidade e que, durante o ano de 2007, analisou as fotografias publicadas nos jornais diários nacionais (daí a imagem do "sério" Mourinho), tendo chgado à conclusão de que "(...)a face neutra e o sorriso fechado são os tipos de expressão facial mais exibidos nos jornais diários portugueses(...)".

Até aqui, tudo bem, i.e., o estudo até tem alguma graça e conhecê-lo não faz mal a ninguém. O pior é o resto, ou seja, perceber o porquê de cada vez haver menos pessoas a serem fotografadas a sorrir. A resposta imediatista é que isso é culpa do contexto social e económico desfavorável (não será o caso do ex-treinador do Chelsea...) mas... o verdadeiro desafio é tentar ir além da superfície e procurar além das aparências. O que quero dizer com isto? Bom, até que ponto o clima pessimista que se vive é fruto de dificuldades reais ou é induzido quer por características culturais velhas de séculos (o português é desconfiado, pessimista e sempre queixoso), quer pela comunicação social e as linhas editoriais seguidas pela esmagadora maioria dos órgãos de comunicação? Como em quase tudo na vida, no meio estará a virtude mas vale bem a pena pegarmos, ao calhas, numa primeira página de um órgão de notícias e repararmos bem naquilo que é servido constantemente à população. E este constantemente adquire especial força se pensarmos na divulgação de notícias através da internet, onde a actualização de dados é permanente. Assim sendo, resolvi capturar a primeira página do Portugal Diário e fazer uma espécie de estatística da qualidade "positiva/negativa" das notícias mostradas. O resultado foi o seguinte (que podem comprovar carregando sobre as imagens)...

- A primeira página do Portugal Diário, no dia 2008/01/03, algures depois das 16:30, apresentava 47 (quarenta e sete) referências noticiosas, entre links, e resumos de notícias.

- Das 47 referências, 29 (vinte e nove) - 61,7% - podiam ser consideradas "negativas", i.e., referentes a crime, catástrofes, problemas, crises, conflitos, polémicas, etc.

- As restantes 18 referências (38,3%) repartiam-se entre assuntos "neutrais" (maioria) e "positivos", sendo que não era certo que, no caso dos neutrais, o desenvolvimento da notícia não conduzisse a uma apreciação de "negativa".

- Nas 47 referências negativas, a repartição era a seguinte:

Crime / Guerra: 2,5,6,7,10,11,12,18,19,21,26 (11) - 37,93 %
Catástrofes naturais / Acidentes: 1,9,14,16,17 (5) - 17,24%
Polémicas políticas: 3,25,27,28,29 (5) - 17,24%
Polémicas sociais / Administração: 4,8,23,24 (4) - 13,79%
Economia: 13,20,22 (3) - 10,34%
Desporto: 15 (1) - 3,45%


Esta página do Portugal Diário foi escolhida inteiramente ao acaso mas, pelo que me é dado ver geralmente, os valores recolhidos não seriam muito diferentes em qualquer outra altura do dia. E cabe aqui dizer que este espectáculo de negativismo, de escolha (selectiva?) de notícias pela negativa, de ocultação/diminuição de assuntos "positivos" não é único do PD. Bem pelo contrário, seguindo a velha máxima "as boas notícias não são notícia", das TV's aos jornais, passando pelas rádios e pelos sites, há uma tendência (planeada ou não...) para mostrar à população somente o que de mal corre no mundo e, quando é absolutamente impossível negar a evidência do pendor positivo de determinados acontecimentos, opta-se por olhar de lado e tentar enfatizar qualquer coisinha que tenha corrido menos bem. Exemplo? O jornal gratuito Metro: quando Portugal venceu Angola no primeiro jogo do último mundial de futebol, o destaque não ia para a vitória da selecção mas sim para a sua (má?) exibição. E a notícia nem sequer era o maior destaque da capa do periódico! (desta nunca me esqueci...)

Voltando então à questão dos sorrisos e do pessimismo reinante, como é possível a uma população encontrar um caminho de optimismo, de vontade de lutar, quando é diariamente obrigada a engolir dezenas, centenas de notícias sistematicamente apresentadas pela negativa? Quando os jornais gratuitos (esse cancro) são-nos enfiados pela janela do carro adentro ou atirados à cara nas estações de transportes públicos, todos seguindo a mesma linha editorial (negativa! negativa!), o que resta ao cidadão? Ser obrigado a engolir polémicas, catástrofes, crimes às 09:00, que vontade dá de sorrir e enfrentar os problemas pela positiva? Pouca ou nenhuma, convenhamos.
acordar com o gato



Quem tem (ou teve) um gato conhece bem esta cena matinal... :)

As notícias que interessam

Hoje, a TSF abria os seus noticiários com a fantástica notícia do assassinato de um adolescente na cidade inglesa de Leicester, onde já teriam sido presos dois rapazes e uma mulher. A TSF acrescentava ainda que a área onde o crime se tinha dado estava selada e sujeita a testes forenses.

Para os responsáveis pela rádio de notícias este era um facto importantíssimo (recorde-se que abria o noticiário) cujo conhecimento era premente por parte da população nacional. Não é todos os dias que há gente assassinada e muito menos em Inglaterra. Há, portanto, que por a Guilhermina de Sousa a debitar o exótico acontecimento e alertar a população para o facto.

Sou só eu que se apercebe da estupidez disto? Sou só eu que repara no lixo informativo com que somos brindados, fruto de falta de critérios e de uma miserável subserviência cultural? Uma pessoa fica assim, a modos que, sem palavras...

Pode ter mas não pode usar

Em Gaia (antiga Vila Nova de Gaia), um indivíduo foi morto (acidentalmente?) por um tiro de espingarda disparado durante as comemorações da passagem de ano. O facto deu-se num bairro social (onde, nas imagens televisivas, se vêm bons BMW's) e parece que já é corriqueiro nos festejos. Numa atitude que, para além do selvagem, faz-nos lembrar cenários africanos (por exemplo), alguns patifes (qualquer coisa me diz que são ciganos...) acham piada a disparar tiros para o ar substituindo desta forma muito mais machona os tradicionais (mas mais caros) foguetes.

Até ao momento, nunca ninguém se tinha queixado. Para quê? Desde que não acertassem em ninguém, não havia problema, dizem-nos escondendo a cara alguns moradores. Ainda segundo estes moradores, a espingarda ter-se-á disparado acidentalmente ao ser pousada num banco. Sim... ao ser pousada num banco. Não ao ser encostada a uma parede, não ao ser manejada mas pousada, deitada, sobre algo. A negligência já por si adquire contornos criminosos. Mas tudo estaria bem se ninguém tivesse morrido. É assim que aquelas gentes pensam...

Bom, mas o que me leva a escrever este texto é algo ainda mais preocupante: a reacção do organismo camarário responsável pela gestão do bairro onde o crime se deu. Para a criatura que apareceu a prestar declarações, a autarquia irá tomar medidas exemplares que poderão (poderão...) terminar em expulsão da casa. E isto porque, para a autarquia, é inaceitável que alguém vivendo numa casa da câmara utilize armas de fogo. O problema, entenda-se, não está em que um merdas qualquer, que chula o erário público através de rendas da treta (ficando com os bolsos cheios para gastar em, por exemplo, tunning do popó), possua armas de fogo (pode ser para ir aos pardais...) mas sim que as use. Para a autarquia, portanto, se um chunga tiver um arsenal em casa isso não é problema desde que não faça uso dele.

Uma verdadeira preciosidade!

PS 1 - E faz-me isto lembrar de um prédio em Benfica onde uma família vive há quinze anos numa casa camarária, causando todo o tipo de problemas aos vizinhos e nunca sendo posta na rua pela câmara. No momento, nesta casa de renda baixíssima, existe um monovolume e um descapotável de tunning. Quanto à titular do arrendamento, já nem lá vive há mais de dois anos. Mas não há problema nenhum.


PS 2 - Calcule o digníssimo leitor que um animal de nome Miguel Luís me enviou um comentário a insultar-me por causa de dizer que VNG agora se chama Gaia! É um facto que VNG caiu em completo desuso mas, mesmo que assim não fosse, que importância teria o caso no contexto deste meu "post"? Nenhum, já se vê.
A paciência que é necessária ter para aturar estes cavalares espíritos...


PS 3 - Este texto ameaça tornar-se uma macacada pegada. Para além dos insultos por causa da questão Gaia/VNG e dos fundamentalistas pró-tabaco terem descoberto que é giro mandarem (mais) insultos para este texto (porquê especificamente este?), agora também tenho um monte de merda (que outro termo?) a enviar - adivinhem... - insultos cuja razão ainda não percebi bem qual é... mas parece que tem qualquer coisa a ver com "criminosos". O trambolho mental (cujo nick vai mudando) instiga-me a que me assuma! Esta coisa do "assumir" é esquisita... mas posso garantir ao rapazola que sou tolerante e que não tenho nada contra a espécie dele, seja ela os homossexuais machistas, os bairristas labregos, os criminosos chulentos ou os viciados em nicotina. Há espaço para todos no meu coração. Já nos comentários do blog...