É possível sorrir?

O site Portugal Diário publicava em 2008/01/03 (pelas 16:31) um artigo de título "Portugueses sorriem menos", ilustrado com uma foto do campioníssimo Mourinho. O texto versava sobre um estudo realizado por um professor da Universidade Fernando Pessoa, de nome Freitas-Magalhães, director do Laboratório de Expressão Facial da Emoção daquela universidade e que, durante o ano de 2007, analisou as fotografias publicadas nos jornais diários nacionais (daí a imagem do "sério" Mourinho), tendo chgado à conclusão de que "(...)a face neutra e o sorriso fechado são os tipos de expressão facial mais exibidos nos jornais diários portugueses(...)".

Até aqui, tudo bem, i.e., o estudo até tem alguma graça e conhecê-lo não faz mal a ninguém. O pior é o resto, ou seja, perceber o porquê de cada vez haver menos pessoas a serem fotografadas a sorrir. A resposta imediatista é que isso é culpa do contexto social e económico desfavorável (não será o caso do ex-treinador do Chelsea...) mas... o verdadeiro desafio é tentar ir além da superfície e procurar além das aparências. O que quero dizer com isto? Bom, até que ponto o clima pessimista que se vive é fruto de dificuldades reais ou é induzido quer por características culturais velhas de séculos (o português é desconfiado, pessimista e sempre queixoso), quer pela comunicação social e as linhas editoriais seguidas pela esmagadora maioria dos órgãos de comunicação? Como em quase tudo na vida, no meio estará a virtude mas vale bem a pena pegarmos, ao calhas, numa primeira página de um órgão de notícias e repararmos bem naquilo que é servido constantemente à população. E este constantemente adquire especial força se pensarmos na divulgação de notícias através da internet, onde a actualização de dados é permanente. Assim sendo, resolvi capturar a primeira página do Portugal Diário e fazer uma espécie de estatística da qualidade "positiva/negativa" das notícias mostradas. O resultado foi o seguinte (que podem comprovar carregando sobre as imagens)...

- A primeira página do Portugal Diário, no dia 2008/01/03, algures depois das 16:30, apresentava 47 (quarenta e sete) referências noticiosas, entre links, e resumos de notícias.

- Das 47 referências, 29 (vinte e nove) - 61,7% - podiam ser consideradas "negativas", i.e., referentes a crime, catástrofes, problemas, crises, conflitos, polémicas, etc.

- As restantes 18 referências (38,3%) repartiam-se entre assuntos "neutrais" (maioria) e "positivos", sendo que não era certo que, no caso dos neutrais, o desenvolvimento da notícia não conduzisse a uma apreciação de "negativa".

- Nas 47 referências negativas, a repartição era a seguinte:

Crime / Guerra: 2,5,6,7,10,11,12,18,19,21,26 (11) - 37,93 %
Catástrofes naturais / Acidentes: 1,9,14,16,17 (5) - 17,24%
Polémicas políticas: 3,25,27,28,29 (5) - 17,24%
Polémicas sociais / Administração: 4,8,23,24 (4) - 13,79%
Economia: 13,20,22 (3) - 10,34%
Desporto: 15 (1) - 3,45%


Esta página do Portugal Diário foi escolhida inteiramente ao acaso mas, pelo que me é dado ver geralmente, os valores recolhidos não seriam muito diferentes em qualquer outra altura do dia. E cabe aqui dizer que este espectáculo de negativismo, de escolha (selectiva?) de notícias pela negativa, de ocultação/diminuição de assuntos "positivos" não é único do PD. Bem pelo contrário, seguindo a velha máxima "as boas notícias não são notícia", das TV's aos jornais, passando pelas rádios e pelos sites, há uma tendência (planeada ou não...) para mostrar à população somente o que de mal corre no mundo e, quando é absolutamente impossível negar a evidência do pendor positivo de determinados acontecimentos, opta-se por olhar de lado e tentar enfatizar qualquer coisinha que tenha corrido menos bem. Exemplo? O jornal gratuito Metro: quando Portugal venceu Angola no primeiro jogo do último mundial de futebol, o destaque não ia para a vitória da selecção mas sim para a sua (má?) exibição. E a notícia nem sequer era o maior destaque da capa do periódico! (desta nunca me esqueci...)

Voltando então à questão dos sorrisos e do pessimismo reinante, como é possível a uma população encontrar um caminho de optimismo, de vontade de lutar, quando é diariamente obrigada a engolir dezenas, centenas de notícias sistematicamente apresentadas pela negativa? Quando os jornais gratuitos (esse cancro) são-nos enfiados pela janela do carro adentro ou atirados à cara nas estações de transportes públicos, todos seguindo a mesma linha editorial (negativa! negativa!), o que resta ao cidadão? Ser obrigado a engolir polémicas, catástrofes, crimes às 09:00, que vontade dá de sorrir e enfrentar os problemas pela positiva? Pouca ou nenhuma, convenhamos.

1 comentário:

Assunção disse...

O que aqui é dito, já eu o pensei e comentei várias vezes em família: com tantas notícias boas, que as há, por esse país fora, no mundo inteiro, e só se dá destaque ao que de mau acontece!
É pena...