O marketing de Saramago

Saramago está doente. Há dois anos, na feira do livro, já lhe tinha notado um ar pouco saudável. No ano passado estava melhor. Recentemente, foi numa cadeira de rodas que o levaram a visitar uma exposição relacionada com a sua obra... A idade, já superior a oitenta anos, começa a pesar na saúde do escritor e é de temer que o autor de obras tão belas quanto "Todos os nomes" ou "Ensaio sobre a cegueira" entre naquela espiral de enfermidades que, a dada altura das nossas vidas, parece tomar conta de nós. Esperemos que não seja assim, esperemos que o grande escritor possa seguir o exemplo do realizador Manuel de Oliveira que, aos 99 anos (exactamente!) continua a mostrar uma forma física verdadeiramente invejável até para gente dezenas de anos mais nova. As comparações entre os dois acabam aqui. Se a Oliveira é de enaltecer a pujança física, a obra, essa, enterra-se cada vez mais num ridículo para o qual não encontro explicação. Mas, sobre isso escreverei mais tarde: o assunto deste texto é José Saramago e convém não me desviar do caminho.

A razão de estar a escrever sobre o autor ribatejano (e não alentejano, como muitos pensam), é um comentário deixado por alguém no site Portugal Diário, referindo-se à falta de qualidade da obra de Saramago. O texto foi uma "resposta" a um comentário meu à notícia sobre a doença do escritor e no qual eu me referia ao lado "miserável" das suas opiniões políticas. Escreveu o comentador que Saramago - para além das opiniões políticas que se lamentam -, é apenas um produto de marketing. Ora, é aqui que eu discordo profundamente. Repito que, no que diz respeito à política, sinto um profundo desprezo pelas opiniões de Saramago: o comunismo é um atentado à liberdade, um horrendo sistema que só tem dado provas de falhar em todo o lado; os ícones comunistas não passam de personagens loucas que mereciam não ter nascido; e, quando chegamos à mal-fadada história do "iberismo", aí, Saramago desce ao nível intelectual de uma boa parte da nossa população, sempre às voltas com fantasmas e complexos de inferioridade mal digeridos. É miserável este lado do autor mas isso não deve fazer-me esquecer as qualidades literárias do homem.

Saramago é um comunista assumido, num tempo em que o capitalismo selvagem se vai tornando a religião oficial de todos os estados. Está contra a corrente, portanto. E, no entanto, ele vende.

Saramago não é um homem simpático. Tem um ar altivo, por vezes irritantemente sério, não é bonito, não sorri para as fotos. E, no entanto, ele vende.

Os livros de Saramago, da editora Caminho, têm capas feias, tristes, que não ficam bem na prateleira, que não apelam ao comprador. E, no entanto, ele vende.

Saramago escreve obras que não se enquadram nos romances mundanos que dominam as tabelas de vendas. E, no entanto, ele vende.

Saramago tem aquele jeito de escrever tudo de seguida, falho propositadamente de pontuação, escrevendo como se pensa, com pouca respiração. É inestético, para alguns complicado e difícil de perceber. E, no entanto, ele vende.

Saramago é um iberista. Quer isto dizer que apoia a estúpida e absurda ideia de que Portugal e Espanha deveriam ser um só estado. É um pensamento traidor, repelente. E, no entanto, ele vende.

Saramago vive fora de Portugal, numa ilha semi-desértica, longe da "gente bonita" da capital, dos meios de influência cultural e económica. E, no entanto, ele vende.

Saramago foi envolvido numa polémica durante o cavaquismo, pela mão do "funcionário" Sousa Lara, a propósito de um (interessante) livro que entrava em conflito com os dogmas da Igreja Católica. Isto devia indispor a maioria da população nacional contra ele. E, no entanto, ele vende.


Marketing? Que marketing faz o êxito de José Saramago? Se algum o rodeia são as incessantes tentativas de o diabolizar pelas suas opiniões políticas em detrimento da análise puramente literária da sua obra. De autores cujas ideias políticas, comportamentos públicos, vícios privados nos poderiam gerar afastamento está o mundo cheio. Comunistas, homossexuais, drogados, anarquistas, fascistas, irresponsáveis, vigaristas, mulherengos, violadores, brigões... O mundo da literatura está repleto dos piores exemplos para todos os pontos de vista. Mas não é isso que nos impede de abrir um livro e apreciá-lo pelo que contém independentemente do percurso de vida do autor. Por mim, que já li vários livros de Saramago (ao contrário da maioria dos que o criticam) em momento algum me senti forçado a adaptar aos seus ideais políticos para melhor poder degustar os textos. É pena que muitos não o queiram perceber...

Para finalizar, em jeito de conselho, fica a proposta para entrada na obra de Saramago: "Todos os nomes".

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