...E eu com isso?!

Quando olho para trás e tento recordar-me dos muitos dias da minha pobre existência ocorre-me pensar que não deve ter havido um só deles em que os problemas entre israelitas e palestinianos ou israelitas e jordanos ou israelitas e sírios ou israelitas e egípcios ou israelitas e libaneses (uf...) ou israelitas e iranianos ou israelitas e a que os pariu não tenham constituído um dos pratos servidos nos noticiários de todas as estações de televisão. Pura e simplesmente, não passa um dia sem que os conflitos na "Terra Santa" e arredores não apareçam nas notícias... como se isso fosse muito importante para nós.

Se não são os israelitas a bombardear um campo de refugiados palestinianos, são os palestinianos a rebentar com um autocarro israelita, se não são os soldados israelitas a atingir uma criancinha libanesa é o Hamas a mandar para o Senhor um qualquer transeunte judeu... Irra!

Problemas há em todo o mundo, conflitos insanáveis há muitos mas, por qualquer razão, os jornalistas deste planeta resolveram que os problemas entre israelitas e toda a macacada que os cerca têm de ser engolidos diariamente pela população terráquea como se isso a afectasse em muito!

E pergunto eu: que relações políticas de monta temos nós com os países daquela zona? Que produtos de primeira necessidade importamos nós de lá? Que influência cultural têm eles em nós (esqueçam lá a religião que isso é coisa de há dois mil anos)? Que personalidades marcantes têm eles? Em que é que eles regem o nosso dia-a-dia? Em nada. Em absolutamente nada! Se Israel e os seus vizinhos desaparecessem da face da Terra, nós continuaríamos exactamente na mesma! Portanto, porque cargas de água temos nós de levar com os problemas deles diariamente, como se isso fosse uma coisa importantíssima para nós? É um continente diferente, são culturas diferentes, é gente diferente... Chiça!!! O que é que me interessa que o soldado "A" tenha dado um tiro no rabo de um árabe ou que um "ciganão" a dar palmadas na cabeça tenha jurado matar todos os judeus em troca de não sei quantas virgens no céu?


Cada vez que alguém dá um peido naquela área, é logo notícia à escala global!

Chega!!! Estou farto! que se danem os judeus e os muçulmanos e os israelitas e os palestinianos e o camandro!!!

Informem-nos

No cinema, há o hábito de mostrar uns écrans, antes de começar a sessão, onde é pedido às pessoas que desliguem os telemóveis. Devíamos ser mais ambiciosos e dizer também para os espectadores se absterem de falar durante a fita e pararem de dar pancadas na cadeira do desgraçado que está à frente. Bom, mas do mal, o menos. No teatro, também há direito a avisos respeitantes aos telefones. Só não percebo é porque razão, nos concertos de música clássica não se faz o mesmo (eu não tenho assistido). Estar a ver um espectáculo e ver quadradinhos azuis a aparecerem por todo o lado quando os artistas dão o seu melhor é irritante. Se esta gente quer andar a ver e enviar SMS, para que é que está na sala? E, claro, ocasionalmente, há o distraído que põe som no telelé e recebe uma chamada...

Adiante...

Ontem, no Coliseu dos Recreios, assisti à minha segunda dose de Carmina Burana em pouco tempo. A obra é tão bela que até podia ir vê-la todas as semanas.
Desta feita, a noite foi dupla, i.e., uma primeira parte com Beethoven (ah, o Hino à Alegria...) e a outra com a obra-prima de Carl Orff.

O espectáculo foi bom e, embora o Coliseu estivesse longe de estar cheio, a casa mostrava-se composta. No fim, houve repetição do "O fortuna", esse tema "telúrico" cuja monumentalidade nos arrasa.

O público parece ter gostado, sobretudo se formos a analisar pela quantidade de vezes que quis bater palmas. Certamente ignorantes de como funciona esta coisa da música "erudita" e habituado à "Pop", em cada pausa, lá começa a gentinha a bater palminhas, para frustração de quem sabe quando o deve fazer e provável irritação do maestro que, amiúde, tem de mandar o público parar para poder continuar o seu trabalho. Aparentemente, o público em geral ainda não percebeu que, quando é para bater palmas, o maestro faz sinal...

Enfim...

Alguém quer uma fatia?

O prestigiado (e prestigiante) Parque das Nações está bem diferente dos gloriosos dias da Expo 98. Há menos espaço, a construção civil avança, os carros já andam por todo o lado, há equipamentos vandalizados, a marina assoreou (ou seja, não serve para nada), etc. Talvez por isto, a Parque Expo resolveu dar a possibilidade aos visitantes de levarem para casa uma recordaçãozinha daquilo que ainda hoje é conhecido por "a Expo" (há sinalização de trânsito ainda dessa altura - já lá vão 10 anos...). À semelhança do que sucedeu em Berlim por ocasião da queda do muro, também os lisboetas podem levar consigo um pedaço de muro da Expo. O tijolo e estuque nacionais podem ter menos carga simbólica do que o cimento comunista mas não deixam de ficar bem num jardim.

Como se vê na foto anexa, um dos lados da "escadaria" que liga a zona do Pavilhão de Portugal (o tal edifício para o qual ninguém arranja utilização) à praça junto ao edifício Lisboa (o suposto centro de design...) está a ruir. Não há outra palavra. Quem quiser descer por ali para o parque de estacionamento, sujeita-se a levar com uma bela fatia de parede em cima. Igualmente basta que algum curioso resolva testar a resistência da obra fazendo força com o bico do pé e veremos aquilo tudo cair.

Para a Parque Expo, sempre às voltas com a especulação imobiliária na zona, o caso até pode ter pouca importância mas, no dia em que a comunicação social tiver um manjar com o ferimento de alguém (uma criancinha é mais pungente), aí, os administradores e os responsáveis pela manutenção dos equipamentos já se lembrarão de que não é suposto que as paredes estejam no estado daquela que aqui se mostra...

O tesouro no baú

Tenho um álbum em vinil que sempre considerei um pequeno tesouro. Pela sua raridade (quantos terão sido feitos?) e qualidade, lá o tenho ainda, guardado no meio dos já poucos LP's que me restam. É um álbum instrumental da autoria de Francis, um dos guitarristas da formação original dos Xutos & Pontapés e que, depois de sair desta banda, ainda andou pelos Ravel.

"Stiletto" (assim se chama o disco) é daquelas obras que todos conhecemos sem a saber apontar. Vários dos seus temas serviam de fundo àqueles programas de fim-de-dia, quando os sons da rádio guiavam uns no seu caminho para casa ou embalavam já outros no descanso merecido. É um trabalho de temas suaves, contemplativos, que nos traz à ideia paisagens serenas de montanha (a cada um a sua fantasia - esta é a minha) e horizontes limpos, ambientes confortáveis onde nos apetece enroscar nas notas da guitarra e numa manta felpuda.

Durante anos vivi no conflito entre preservar o disco que tenho e usá-lo. Quando me preparava para embarcar na experiência de passá-lo para mp3, eis que descubro que alguém já o tinha feito e colocado na internet. Aqui não há pirataria mas sim protecção de um património que tem de ser de todos. Quando o mercado ignora uma obra e a deixa cair num poço, é da responsabilidade dos apreciadores resgatarem-na do esquecimento e colocarem-na à disposição de quem a queira conhecer.

Para quando uma base de dados onde seja possível o acesso ao património discográfico nacional já descontinuado? Com que direito se nega ao público o conhecimento de trabalhos antigos que já ninguém quer editar? O que é feito dos discos da primeira vaga do rock português? Onde se compram? Em lado algum...

"Stiletto" é o primeiro de dois discos de Francis. É o melhor e apresenta uma qualidade que facilmente o içaria ao patamar onde vivem nomes como, por exemplo, Mark Knopfler (álbuns "Cal" e "Local Hero"). Ouvi-lo e deixar as suas melodias entranharem-se-nos nos sentidos é, mais do que um prazer, um verdadeiro favor que fazemos a nós mesmos.

Um bom exemplo

Há pouco tempo, apanharam no Reino da Dinamarca (o tal onde qualquer coisa está podre), um grupo de indivíduos que se preparava para matar o autor do boneco que podem ver aqui ao lado. É a famosa caricatura de Maomé (a ter uma ideia explosiva) que tanta polémica gerou entre os muçulmanos.

Junto dos seguidores de Mafoma (era assim que se dizia no tempo dos Descobrimentos), a coisa gerou a habitual histeria tipo "aldeia dos macacos" e o honrado caricaturista dinamarquês lá viu a sua cabeça ser posta a prémio. Este, o tão almejado prémio, são as famosas 75 virgens a que cada seguidor do Islão tem direito caso mate alguém em nome de Alá. Fica-nos, pois, uma forte dúvida sobre se os crimes em nome do Islão não são, afinal de contas, motivados pela luxúria. Convenhamos que um harenzito com 75 meninas é coisa que dá que pensar... (e que se lixe a religião!)

Bom, depois da captura dos criminosos, houve 17 jornais dinamarqueses (entre os quais, os três maiores do país) que republicaram a caricatura, como forma de mostrar a sua solidariedade para com o humorista ameaçado. Foi muito bem feito. E, acima de tudo, foi uma lição de liberdade vinda de um pequeno país.

Um exemplo a seguir, sem dúvida!


P.S. - Acabo de saber que a transportadora aérea da Arábia Saudita proibiu a existência de hospedeiras a bordo dos seus aviões. A razão? A impossibilidade da separação de sexos "lá em cima". :)

P.S. 2 - Na Guiné-Bissau, dois dirigentes da comunidade muçulmana , os distintos El Haj Abdou Bayo, presidente do Conselho Nacional Islâmico (CNI), e Mustafa Rachid Djaló, presidente do Conselho Superior dos Assuntos Islâmicos (CSAI) vieram a público protestar contrar um projecto parlamentar para abolir a excisão (cortar o clítoris às mulheres/meninas) pois, no entendimento das sumidades, isso é "uma afronta ao Islão".

As trincheiras da cidade universitária

Dá-se o caso de eu andar a ler um livro sobre a famigerada participação portuguesa na 1ª Guerra Mundial (chamada, na altura, "a Grande Guerra") e de parte do texto ser, obviamente, ocupada com a descrição das desumanas condições de vida nas trincheiras, bem como do estado da paisagem por força dos bombardeamentos feitos por ambas as partes do conflito. Deu-se, também, a coincidência de eu ter ido ao ISCTE esta semana e de ter deixado o popó no imenso espaço que existe no interior do quarteirão das faculdades. Ora, dei por mim a olhar para o estado em que tudo aquilo está e a pensar que, dentro das possibilidades do cidadão urbano, deve ser o que de mais parecido se encontra com os campos de França à altura do conflito de 1914-18. Há lama por todo o lado, há montes e montículos, árvorezinhas e arbustos, onde havia estrada, há, sobretudo, pequenos lagos e enormes buracos (alguns a concorrer à classificação de crateras), e há, como não podia deixar de ser, automóveis pendurados nas árvores. Usei um bocadinho de imaginação e troquei as latas com rodas por soldados e, debaixo da chuva que caia, vi uma imagem do Marne.

Para ilustrar este pobre texto, fica uma foto de duas "armadilhas" em pleno caminho. Se a sua função é capturar um inimigo distraído ou servir de abrigo aos nossos, não sei, mas lá que é fácil alguém (ou algo) ser engolido pelos buracos, ah isso é! Não são os únicos. Por qualquer motivo, naquela zona, tudo quanto fosse para ter tampa, viu-a ser-lhe retirada e, entre caixas de electricidade, esgotos e coisas quejandas, aquele "estacionamento" da cidade universitária tem mais buracos do que um queijo suíço, o que, sendo uma expressão comparativa das mais curriqueiras, não deixa de ser verdade.

Leis para loucos

Tive dúvidas acerca do local mais certo para por esta notícia: se aqui ou no Risada Geral. E isto porque o assunto sobre o qual irei escrever insere-se naquela categoria de eventos que nos deixa sem saber se havemos de rir ou chorar. Não sendo este um blog para choros, acabei por achar que o caso era grave de mais para permitir que a piada (por via da estupidez) se sobrepusesse à "denúncia" e, portanto, aqui vai:

Segundo o Portugal Diário, dois repórteres da RTP foram abordados, na via pública, por um fiscal (identificado) da Câmara Muncipal de Lisboa, devido a estarem a captar imagens, na rua, e terem as câmaras assentes num tripé...

Segundo o zeloso fiscal, o "Regulamento Geral de Mobiliário Urbano e Ocupação de Via Pública" (edital 101/91) obriga à posse de licença de ocupação da via pública todos aqueles que pousarem um tripé no solo. Não que o regulamento seja feito a pensar nos tripés mas como o dito "(...) aplica-se a toda a ocupação da via pública, qualquer que seja o meio de instalação utilizado, no solo ou no espaço aéreo (...)", alguém, ao abrir um tripé e usá-lo como previsto, está a ocupar a via pública e, consequentemene, ao não ter licença para tal, arrisca-se a uma coima (que palavra tão feia!) entre um e 4,5 salários mínimos!!!

O fiscal, momentos antes de atacar os jornalistas, já tinha abordado um formador de uma escola de comunicação que acabou por ser autuado (decidamente, a palavra "multa" está condenada) por um polícia municipal, tendo o equipamento sido fotografado para instauração de um processo.

Ora bem... o que dizer disto? Antes de mais, que o Governo não tem nada a ver com o caso. Isto é um assunto meramente municipal. E acho importante frisá-lo porque, como é costume, apareceram logo vozes a gritar "ditadura!" e a culpar o executivo pelo caso. Não, isto é mesmo uma daquelas situações de teor estritamente autárquico.

Feita esta ressalva, passe-se à "análise" do evento.
As leis (use-se este termo para facilitar) são passíveis de interpretação. É por isso que casos semelhantes têm sentenças diferentes, é por isso que muito advogado faz fortuna com pareceres jurídicos, é por isso que a confusão grassa em muitas actividades. Mas, independentemente da interpretação da lei, há uma regra que nunca pode ser posta de parte: o bom senso. Sem bom senso, a nossa sociedade torna-se numa selva, quer pelo zelo excessivo no cumprimento de regras, quer pelo desprezo pelas mesmas.


Se os operadores de câmara "assaltados" pelo fiscal pousassem os pés dos tripés nos seus próprios pés (ena, parece uma rima!), deixariam de ocupar a via pública e nada se teria passado. Isto dá bem a noção da estupidez da actuação do fiscal. Toda a lei obedece a um espírito e é este que deve ser observado na ausência de dados concretos sobre as situações em que aquela deve ser aplicada. O espírito da lei em apreciação é prevenir a ocupação abusiva do espaço público com bancas, publicidade, esplanadas, etc. Basicamente, coisas que possam dificultar a circulação de pessoas e bens. O legislador não é um demónio furibundo em cujo espírito sulfuroso dancem imagens de pacatos cidadãos a serem multados por usarem um tripé para tirarem fotos, ou por colocarem um assador no relvado defronte de casa para fazerem umas febras ao fim-de-semana ou seja pelo que for. O legislador é alguém que faz leis, estabelece regras de crácter geral, baseadas (quase sempre) no bom senso e, como tal, esperando que o mesmo seja usado na aplicação daquelas.

Quando quem aplica as regras é incapaz de estabelecer a diferença entre o importante e o supérfluo, entre o grave e o ridículo, cai-se no roubo legal, no autoritarismo asqueroso. Não é isso que o legislador pretende. Ordem e disciplina não rimam com prepotência numa sociedade civilizada. O fiscal camarário agiu não como alguém que faz cumprir a lei mas sim como um pitbull que ataca a garganta do primeiro inocente que apanha. Desconheço se ele teve ordens expressas para agir como agiu ou se apenas acordou mal-disposto e com vontade de vingar uma qualquer frustação sobre as costas de alguém. No caso, foram operadores de câmara presentes num mesmo local.

Em qualquer dos casos (ordens superiores ou comportamento aleatório), a situação é grave. No primeiro, a CML assume-se como um monstro faminto de dinheiro e que recorre às mais estúpidas formas para sacar valores aos cidadãos. No segundo, temos alguém transtornado e que, versado nas mais recônditas e ridículas regras, resolve projectar uma frustração sobre terceiros.

Se casos semelhantes se repetirem, então, estamos perante um ataque ordenado pela CML. Caso contrário, teremos assistido a mais uma daquelas arbitrariedades a que, infelizmente, nunca nos desabituámos.

Em Lisboa existem, pelo menos, duas escolas de imagem e comunicação, com cursos de operador de câmara, cujos alunos vêm para a rua executar trabalhos práticos utilizando tripés. Irão ser todos estes adolescentes multados pelos fiscais da Câmara?

É grave, é muito grave, quando os poderes públicos sacam da mesquinhez para, descaradamente angariarem fundos à custa dos cidadãos. E, aqui, mais do que um conceito, há uma forma que é perturbante. Abordar pessoas que, sem incomodarem ninguém, fazem o seu trabalho ou estudo, e manietá-las na sua actividade com pérolas como "se pusesse a câmara ao ombro, já não havia problema" é atroz! Mais vale roubar nas taxas que aparecem nas facturas e às quais pouca gente liga...

O mundo está cheio de leis loucas. Há sites que abordam o tema e quase todos os países acabam por serem vítimas da desadequação das regras aos tempos. O nosso não é diferente mas isso não deve servir de consolo.

O fiscal da câmara deve ser punido exemplarmente caso se verifique que agiu por sua conta. O executivo camarário deve ser deposto nas próximas eleições se viermos a saber que o fiscal agiu sob suas ordens. Há princípios, e quando estes são espezinhados, então, estamos perante a selvajaria.

É que tudo, absolutamente tudo, é possível de ser abrangido pela regra que esteve na origem deste insólito caso: uma criança que lance um papagaio de papel está a ocupar o espaço público aéreo; um casal que faça um piquenique num relvado está a ocupar o espaço público ao nível do solo...
É o fartar-vilanagem, a caixa de pandora que se abre, possibilitando os maiores disparates e atentados à liberdade individual. Curiosamente, continuamos a assistir à ocupação dos passeios (logo, espaço público) pelo estacionamento de automóveis, continuamos a ter as paredes, postes e caixas eléctricas forradas com publicidade e cartazes políticos, etc.

Para um ganho quase nulo, consegue-se enterrar ainda mais a imagem dos poderes públicos e fazer crescer juntos dos cidadãos um desprezo pela autoridade, um negar da lei, uma sensação de vitimização que é sempre cumulativa. Até onde, até quando?

Notícia original aqui


P.S. - escreve-se "cÂmAra" e não "cAmEra", como anda, agora, na moda!...

Birrinhas de jarreteira

Quando era pequeno andei nos Lobitos. Para quem não saiba, é a primeira categoria de escuteiro. Saí dos Lobitos porque tinha ultrapassado a idade limite e não continuei porque já estava um bocado farto daquilo e de algumas personagens minhas colegas na "alcateia" da Igreja de São Sebastião, em Lisboa. Mas, enquanto lá andei, gostei. Afinal de contas, passávamos o tempo a jogar à apanhada no pátio, esperando pelo começo das reuniões e, nestas, tudo acabava por, à sua maneira, ser também uma brincadeira. Também nos fardávamos e usávamos uma boina o que, pelo seu ar marcial, compensava as ridículas meias com jarreteiras que enfeitavam as nossas perninhas, sempre ao léu, fizesse chuva ou sol, frio ou calor.
Ao Domingo, quando nos fardávamos, tinhamos de ir enfeitar o altar da Igreja com a nossa cândida presença e gramar a missa de uma ponta à outra.
Poucas vezes tive actividades ao ar livre mas, ainda assim, diverti-me q.b.

Dito isto, ou seja, que andei nos escuteiros e que gostei da coisa, acrescento que, caso o destino fizesse de mim pai, igualmente poria um filho na mesma organização, com a ressalva de que o encaminharia para uns escuteiros "não-religiosos". E isto não por julgar que a Igreja influencia os escutas (está bem, está...) mas para poupar a criança às enormes secas dominicais que apanhei.

Foi, portanto, com espanto que soube da "campanha" movida pelos escuteiros contra a loja de electrodomésticos MediaMarkt por causa de uma bem divertida campanha publicitária onde um grupo de representantes de um imaginário país (de Leste) passeia a sua parvoíce por um estabelecimento da marca. A ideia é que, por serem parvos, não conhecem os bons preços do MediaMarkt. Do grupo de "cidadões" (é uma piada, não é um erro ortográfico...) faz parte um militar, um escuteiro, uma "miss" de beleza e, nalguns casos, um quarto elemento que representa um político :)
Bom, todos eles são parvos e fazem figuras tristes. Todos eles são, de uma qualquer forma, cómicos.

A campanha, que abrange os diversos meios de comunicação social, tem, para mim, a sua parte mais engraçada no anúncio radiofónico onde o hino da Parvónia é cantado e "traduzido" em voz off, numa perfeita imitação das coberturas de actos oficiais. Mas não foi isto que deu brado.

O que deu "raia" foi que os escuteiros (ou quem neles manda) resolveu sentir-se ofendido pela representação do seu colega "parvo" e pela caracterização que é feita da espécie escutista. E eis que, num gesto de indignação, as "organizações" se levantaram e chegaram inclusivamente a ameaçar o MediaMarkt com o recurso aos tribunais caso a campanha prosseguisse. Porque isto e porque aquilo...
O MediaMarkt acabou por anunciar a retirada do escuteiro da campanha (que ainda está no ar, diga-se...).

Eu acho mal que o escuteiro tenha sido expulso da comitiva da Parvónia. Se calhar, acharam que, até para Parvo, era um mau exemplo. (ah, ah, ah)

Bom, que dizer de tudo isto? Desde logo, que é um bocado assustador que uma organização (seja ela qual for) demonstre tamanha falta de calo para o humor (arrojado, é certo) e, que com ameaças, consiga vergar uma empresa que, mal ou bem, não está a fazer pior do que muitas outras.
Depois, isto faz-me lembrar o célebre caso das caricaturas de Maomé. Ainda há poucos dias as autoridades dinamarquesas anunciaram a prisão de um grupo de indivíduos que se preparava para assassinar o autor dos desenhos. Se pensarmos bem, o islamismo é qualquer coisa de imensamente mais importante do que o CNE. Ora, se os escuteiros têm o direito de usar de ameaças para dar largas à sua indignação, por uma questão de proporção, os muçulmanos terão a sua razão no que fazem, não é? Não, não é. Mas até parece que sim.

Se olharmos para a publicidade do MediaMarkt, poderemos ver que ela é "ofensiva" para: cidadãos de leste, militares, escuteiros, e mulheres concorrentes a concursos de beleza. No entanto, só os escuteiros se incomodaram... Só os escuteiros sentiram dentro de si o apelo da virgem ofendida. É mau, muito mau mesmo, que estes vendedores de calendários optem por uma forma de estar tão rígida, tão bafienta.

Os escuteiros, independentemente das qualidades que possam possuir, tiveram na sua origem princípios que serão desconhecidos até da maior parte deles. Também eu fui doutrinado pensando que Badden-Powel havia criado a organização por amor à juventude e a um mundo melhor. A verdade é que o militar britânico fê-lo como resposta a organizações semelhantes (i.e., para-militares) que se formavam na Alemanha e que ameaçavam conferir uma preparação ao inimigo que colocaria a juventude inglesa (e, consequentemente, o país) em desvantagem. Como se vê, algo de bem diferente do que se pensa...

O MediaMarkt portou-se mal porque abriu um precedente ao ceder à chantagem dos escuteiros. Doravante, o que impede outros grupos de fazerem o mesmo? Seria muito bom ver o caso ir a tribunal e assistir a uma sentença a desfavor dos "ofendidos". É certo que, por cá, nunca se sabe o que o juiz de serviço poderá fazer mas, ainda assim, haveria que confiar na hipótese de ser alguém de bom-senso.

Vem-me à lembrança, quando era adolescente, o caso ocorrido com o actor João Grosso que (julgo), ainda foi parar a tribunal por cantar, num programa televisivo juvenil, o hino nacional com a letra alterada. Ainda há duas semanas, no S. Luiz, na peça "Evil machines" (de Terry Jones, dos Monty Python), uma parte do hino britânico era cantada (com letra alterada, claro), por um aspirador. Nada que choque os ingleses (que até nem respeitam NADA as instituições). É a diferença entre saber estar e fazer birrinhas de quem anda de meias com jarreteira...

Uma foto da "província"

Estava a ler um texto no Portugal Diário acerca das declarações de um responsável governamental sobre o "provincianismo" dos meios de comunicação social portuenses (ideia com a qual concordo) e lembrei-me da minha última passagem pela "província". Fica aqui uma foto (uma de entre muitas) da Invicta, tirada a partir da esplanada do Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia.
Coisa "mai" linda!...

As outras estão aqui


P.S. - antes que os exaltados do costume comecem a enviar comentários insultuosos, vejam lá se reparam que "província" está entre aspas... estão a ver, estão? E o "provincianismo" que daqui se fala tem a ver com a insistência em temas regionais por oposição aos assuntos de carácter nacional, percebem? Não quer dizer que vocês sejam tolinhos ou menos do que os outros, está bem? Pronto...

Alugue um amigo

Assim, à primeira vista, o título poderá parecer esquisito. Um amigo não se aluga. Um amigo é algo que contamos ter de graça. E isto é verdade. Mas, há amigos que só podem vir ter connosco se alguém cuidar deles primeiro. É o caso dos animais pertença da empresa americana Flexpetz que parece ter descoberto (ou não) mais um ovo de Colombo: o aluguer de animais. Se você gosta de cães mas não tem vida para ter um em casa, então, pode ser dono de um "quatro patas" em regime de "time sharing". Exactamente!

A Flexpetz recolheu da rua um conjunto de cães, tratou-os, treinou-os e, agora, disponibiliza-os para que quem queira possa ser co-dono dos bichos. Paga-se uma mensalidade e, com isso, ganha-se o direito de passar um certo tempo com um cão. É prático, convenhamos. É apenas preciso "marcar consulta" com o animal e, à hora marcada, lá estará ele à nossa espera.

E, imagine que vai em viagem para um sítio onde existe uma filial da Flexpetz? Bom, os seus direitos são igualmente válidos no local. Apetece-lhe brincar com um cão? Vá buscar um às instalações da empresa no sítio onde está. :)

A praga

A imagem à esquerda é o "gráfico" de acessos a este blog, provenientes da santa terrinha. Como se pode ver, o país parece atacado de uma espécie de sarampo, com especial incidência na zona litoral. A boca e os olhos estão particularmente afectados pelo problema, ao passo que as costas e a nuca se encontram relativamente incólumes. Não sei o que é que os transmontanos têm contra mim mas bem podiam passar por aqui mais vezes. Já na zona dos pés, nota-se uma pequena micose, ali para o Algarve central. Nada que assuste, portanto. Um dia destes deixo aqui a minha opinião sobre férias lá em baixo e nem o melhor fungicida me safa...

A Madeira e os Açores não aparecem porque o Google faz o duvidoso favor de não contabilizar os acessos de lá. Ou, pelo menos, se o faz, esconde-os muito bem...

Uma óptima dor de dentes

Nunca tinha ido ao Chapitô e devo dizer que o nome do local sempre me fez pensar naquele pessoal dos malabares, artistas de rua aos quais nunca achei grande piada e que, vá-se lá saber porquê, parecem andar sempre atrelados às iniciativas do Bloco de Esquerda. Preconceito? Talvez.

Há coisa de uma semana li estar em cena no teatro do Chapitô uma comédia cuja ideia central andava à volta de problemas dentários sofridos pelo nosso bem conhecido Conde Drácula. Achei graça e resolvi ir ver a coisa. Não me arrependi. Para começar, fiquei a conhecer um belíssimo espaço, partilhado por vários restaurantes e bares, bem decorado, com um clima cosmopolita e, ao mesmo tempo, intimista, uma soberba vista para o rio (mesmo à noite) e um clima geral de descontracção q.b. Fiquei rendido mal cheguei. Constantemente, a cidade de Lisboa desvenda pequenos recantos que ignoramos na monótona azáfama do dia-a-dia.

Enquanto esperava a entrada para o teatro, um casal de "mortos-vivos" dedicava-se a performances que entretinham o público.

Relativamente à peça, só posso dizer que é um prodígio de sincronização entre os actores, um belo trio pleno de expressão corporal, numa peça que vive de um cenário quase inexistente, apenas composto por meia dúzia de objectos que se transformam em tudo o que seja necessário para ilustrar as cenas. Um malão tanto serve de casa de banho num comboio como de caixão para Drácula e as transformações de personagens e cenário são assumidamente "descaradas" dando ainda mais graça a tudo.

Decididamente, parece-me que quem queira rir tem uma boa oferta de teatro em Lisboa.

Uma andorinha no chão

O outrora prometedor Manuel Monteiro anunciou que o seu actual partido tinha atingido o mínimo de 5000 militantes exigidos por lei para não ser obrigado a fechar portas. Ainda bem. O que já não está tão bem é a preocupação do Manel com a polemicazinha respeitante à suposta existência de militantes do PND com ideias de extrema-direita. Anunciou Monteiro que já tinham corrido com os elementos indesejáveis, se bem que ele não pudesse garantir a extinção da espécie. A "solução final" poderá não ser assim tão final mas, pelo menos, permitiu alguma limpeza. É uma atitude corajosa por parte do PND. Não nos esqueçamos de que o partido estava em vias de desaparecer por falta de militantes. Das duas uma: ou os "extremistas" não eram assim tantos (lá se vai a ideia do perigo para a democracia) ou então o PND tem o dom de fazer brotar das pedras novos militantes capazes de repor o imenso sangue perdido. Seja como for, o PND é, agora, um partido limpo de racismo e xenofobia (a constante ligação dos dois termos é por demais irritante), e Manuel Monteiro até deu como exemplo da sua pureza de princípios o facto do PND ser apoiado pela "comunidade cigana". Assim de repente, parece-me que o desesperado ex-líder do CDS trocou o diabo pelo demónio...

Desconheço quais são as vantagens da ligação à "comunidade cigana" mas espíritos mais indelicados poderiam sempre especular que o PND passaria a ter acesso preferencial aos melhores produtos falsificados que se vendem nas boas feiras deste país. Do DVD pirata à coca feita com gesso, da roupa de prestígio fabricada na Buraca ao ouro falso, da mula doente à pistola, há um sem fim de coisas de fina qualidade que os novos apoiantes de Manuel Monteiro lhe podem dar. Podem, por exemplo, para grande vantagem da contabilidade do partido, ensinar o PND a viver com muito pouco dinheiro. Como se sabe, os ciganos são mestres em fazer render os parcos trocos que a sua difícil vida lhes proporciona, conseguindo transformá-los em colecções de fios de ouro, carros de alta cilindrada e casamentos sumptuosos. Não são todos, é certo. A maioria prefere ignorar as artes mágicas e apostar no conhecimento das leis, nomeadamente das que dizem respeito a todo e qualquer tipo de subsídio, seja ele o guterrista rendimento mínimo garantido ("rendimento de inserção social", na versão "liberal") ou o apoio à criação de burros (de preferência em bairros sociais). Num país de subsídio-dependentes, a "comunidade" apresenta-se como mestre na matéria.
O Nelinho também poderá contar com o peculiar sentido de honra existente entre os ciganos, para quem um amigo é até à morte. O problema são as mil e uma razões que podem antecipá-la... Mas poderá concerteza o PND contar com o apoio das caçadeiras "da raça nobre", caso as soqueiras e as matracas dos perigosíssimos direitistas expurgados algum dia queiram vingar a afronta de os obrigarem a pertencerem todos ao infeliz PNR.

Às tantas, Monteiro até fez uma grande jogada: substituiu o "não gosto de pretos", pelo "não gosto de ninguém que não seja da minha família", jogou fora o "se andares com um indiano já não és minha filha" e puxou o "se te vejo com um gadjó mato-te a ele e a ti". A diferença poderá parecer subtil a muitos mas, na realidade, não é.

O PND ganha um espírito mais aguerrido nesta sua nova vocação multi-étnica (é uma ironia). A direita monteirista quer-se moderna, aberta às realidades do mundo, mesmo quando elas implicam a troca de cobardias cuja única diferença está na cor da pele. Entre ser-se espancado por um grupo de brancos pró-nazis ou esfaqueado por um bando de ciganos raivosos vai a distância de perceber a diferença entre pontuais anomalias sociais ao nível do indivíduo (o primeiro caso) e uma aberração cultural velha de séculos (o segundo). Apesar de tudo, os radicais de direita respeitam a sociedade em que vivem e é por a quererem que julgam vê-la doente. Ao outros, àqueles cujos espartilhos culturais obrigam a viver numa espécie de sociedade tribal onde a honra ainda se lava com sangue, a endogamia é uma obrigação feminina, os casamentos são combinados, a rivalidade territorial é recorrente e o "racismo e a xenofobia" correm nas veias, a esses, resta continuarem a confiar nos complexos de culpa de personagens como Manuel Monteiro para irem perpetuando a farsa da vitimização.

Manuel Monteiro parece ter o hábito de escolher más companhias: depois de Portas (lembram-se das rivalidades entre os dois grandes amigos, nos tempos do CDS-PP?), surge a suspeita das ligações à extrema-direita, exorcizada com um vade-retro abençoado por alguma da pior gente que por esta terra (e muitas outras) anda.

Já se vê que este texto irá suscitar as reacções que se esperam: insultos e acusações de racismo, ofensas pessoais e a habitual panóplia de muletas ideológicas (ou nem isso) tão próprias das boas almas. Mas esse é o preço de se ter uma opinião.

Justiça se faça aos radicais de direita: apesar de tudo, quando a violência nasce no seu seio, bem ou mal, há um fundo ideológico na qual assenta e aquela pode ser combatida de forma muito mais fácil e limpa do que a violência que se baseia em tradições canalhas para as quais já não pode haver espaço na nossa sociedade. Aparentemente, Manuel Monteiro não percebe isso e, feito tolo passarinho, anda por aí a anunciar as suas novas ligações a uma gente que pura e simplesmente se está borrifando para tudo quanto Manuel Monteiro possa defender.

Como se isto não fosse já de si mau, ainda há que reparar no ridículo de invocar o apoio de uma "comunidade" inteira, como se existisse qualquer tipo de organização entre os ciganos que não fosse a ditada pela tradição ao nível familiar. Tem esta comunidade qualquer tipo de representação eleita? Acreditará Monteiro na figura do "rei dos ciganos"? Quem lhe prometeu o apoio? Falava em nome dos outros? Com que direito? Mau demais.

A andorinha de Monteiro parece ter, decididamente, pousado no chão...

Dali em Évora

Está patente em Évora, na Fundação Eugénio de Almeida (até 4 de Maio de 2008), uma exposição intitulada "Dali, o Divino Ilustrador". Por um ridículo euro (€ 1) podemos apreciar dezenas de trabalhos do grande pintor catalão, todos feitos para ilustrar o clássico "A divina comédia", do florentino Dante Alighieri.

E se a exposição que esteve no Porto foi um bom pretexto para muita gente se ir deleitar com a beleza da Invicta, porque não aproveitar mais esta amostra do talento do já ido Salvador para dar um pulo até à cidade alentejana, Património da Humanidade? Foi o que eu fiz, com um propositado desvio da rota para Lisboa. E se pouco abonatória é a pressa de uma visita-relâmpago, também não é menos verdade que o curto tempo na cidade do Alto-Alentejo me deixou uma enormíssima vontade de lá voltar, com toda a calma que o celeiro de Portugal pede...

Até breve, Évora! Com ou sem Dali...
que pena!

Nos dias 1 e 2 deste mês, a Nova Orquestra Sinfónica de Lisboa e o Coro da Nova Orquestra Sinfónica de Lisboa, sob a direcção do maestro Albertino Monteiro, interpretaram na Aula Magna da Universidade Clássica de Lisboa, essa maravilha da música que é a cantata Carmina Burana, do alemão Carl Orff.

Desconheço como foi a afluência de público na noite de Sexta-Feira mas, no Sábado, a situação foi bastante triste com os músicos a perfazerem um terço das pessoas presentes no espaço. A zona dos bilhetes mais baratos estava razoavelmente preenchida mas, no resto do recinto, eram as cadeiras vazias que marcavam o tom.

Uma orquestra e largas dezenas de coristas a darem o seu melhor para tão pouca gente (ainda por cima, o espaço junto aos intérpretes era, precisamente, aquele onde havia menos público) é um exercício de disciplina a realçar.

Porque havia tão pouca gente? Era o facto de a orquestra ser nacional? Seria porque já tinha havido um concerto no dia anterior? Seria porque, ainda este mês, irá haver uma outra apresentação da obra (desta feita, no Coliseu, e pela mão de estrangeiros)?
Desconheço as razões mas sei que me senti triste pelo que via. Felizmente, o que ouvia fazia esquecer qualquer coisa. Tirando o exagero do som dos pratos no "O fortuna" e a falta de voz de Carlos Guilherme para o único tema que lhe cabeu, todo o concerto se pautou por uma grande qualidade (é certo que sou um leigo mas...).

Carmina Burana é daquelas peças que me acompanha desde a adolescência. Chega-se a ela através do "O fortuna", ouvido no velho anúncio da Old Spice ou nas aberturas dos concertos de Ozzy Osbourne e, depois, descobre-se o resto da obra. Maravilhas como "In trutina" e "Ave formosissima" fazem-nos querer voltar sempre mais uma vez à música de Carl Orff.

Dia 27, no Coliseu, lá estarei, para a repetição de um concerto anterior (ano passado?), com a primeira parte preenchida pela 9ª de Beethoven. A não perder.

Saldos

Chamem-lhe vaidade ou aprumo mas todos gostamos de nos ver (ou imaginar) com uns trapinhos que nos façam parecer melhor. E há peças de roupa que saltam à vista de quem passa na rua e nos fazem parar para, pelo menos, matar a curiosidade acerca do preço da coisa. Foi o que me aconteceu com uma gabardina à venda nas lojas Purificacion Garcia, em Lisboa. Ia na rua e, de repente, o meu olhar foi agarrado por um tecido fora do normal, um corte diferente, uma elegância que imediatamente quis que fosse minha. Cheguei-me à montra e vi que a dita gabardina estava com um desconto de 50%. O preço, mesmo com redução, era puxadote, mas há roupa e roupa e aquela era decididamente diferente. Arrepiei caminho e fui magicando na coisa, lutando a consciência entre a poupança e o consumismo. Venceu o segundo. No dia seguinte (segundo dia em exposição da peça de roupa) dirigi-me à loja da Av. da Liberdade, decidido a experimentar a gabardina... Falei com a lojista e esta informou-me de que a dita cuja era exemplar único. Grande galo! Agradeci e fiz-me logo ao caminho rumo ao Saldanha Residence onde a marca tem outra loja. Chegado lá, de novo vejo a gabardina na montra. Entro, procuro uma peça igual e, perante ausência de "gémea", falo com a empregada. E não é que, mais uma vez, a gabardina é exemplar único? A coisa já me cheirava a esturro. Peço informações e dizem-me que é um tamanho "M", que não podem tirar da montra, que só daí a duas semanas quando a decoração mudar, que posso fazer uma reserva (reserva de uma coisa que nem posso provar?, perguntei), etc.

Saí da loja com a nítida sensação de que estava a ser alvo de um "esquema" para atrair clientes à loja. Mostra-se uma peça de roupa belíssima, com um grande desconto mas, depois, não se pode comprar a dita porque é exemplar único e porque está na montra!

Ora porra! Algo me diz que, acabados os saldos, vão aparecer muitas gabardinas...