Pecados mortais

Nunca percebi bem esta coisa dos pecados mortais. Na minha inocência de ateu (embora oficialmente iniciado nos "mistérios da fé") sempre me pareceu que, pelo nome, seriam pecados que trariam a morte certa a quem os cometesse. Ora, se tal acontecesse, já poucos de nós restariam à face da terra e as igrejas estariam com ainda menos gente (desconta-se Braga, aqui) sentada naqueles desconfortáveis bancos corridos. Não parece então bom negócio que o Senhor crie faltas cujo castigo implique a perda da clientela, por isso, das duas uma: ou os pecados não são mortais (é um nome escolhido só para impressionar) ou Deus não existe. Existe uma terceira via que é o Todo Poderoso ser como os polícias e preferir olhar para o lado para não ter trabalho... mas não entremos por aí.

Os sete pecados mortais (o filme também é engraçado) foram, ao longo dos séculos, a Inveja, a Gula, a Ira, a Luxúria, a Avareza, a Preguiça e o Orgulho. Mas não contente com este septeto, o Papa Pio XVI resolveu criar mais sete:
Poluição ambiental, Manipulação genética, Acumulação excessiva de riqueza, Infligir pobreza, Tráfico e consumo de droga, Experiências moralmente debatíveis, Violação de direitos humanos. Como os tempos mudaram. Da simplicidade dos primeiros, ligados às emoções mais básicas, passámos a pecados que exigem mais do que uma palavra para serem indicados e que reflectem preocupações sociais e ambientais. Alguns deles, atingem mesmo uma elaboração de monta como em "Experiências moralmente debatíveis", por exemplo. Suficientemente vago para conter lá qualquer coisa e, ao mesmo tempo, permitir um florescente negócio de livros a debater o assunto.

Bom, temos que, por força da evolução da humanidade, os sete pecados são agora catorze. Se antes tínhamos um pecado por dia (podíamos variar), agora temos dois, o que permite combinações mais engraçadas e combater de uma forma mais eficaz o maior dos pecados que é, como toda a gente sabe, a monotonia. É certo que existe uma certa sobreposição de conceitos (Avareza + Acumulaçäo excessiva de riqueza; Ira + Violaçäo de direitos humanos) mas o espírito humano é grande e saberá reinventar a prática de modo a conferir novas cores aos pecados enunciados.

Dito tudo isto, devo aqui deixar, à guisa de saudosismo, uma pequenina lágrima pelo tempo em que os pecados eram singelos e simples na execução. É tão fácil enraivecermo-nos, exige tão pouco esforço recusar uma esmolinha ao imigrante romeno (que até nos alegra pedindo em Espanhol) enquanto abana, de forma displiscente, uma caixa à frente do nosso nariz... Mas os novos pecados exigem mais esforço, alguns deles pedem mesmo anos da nossa vida, perseverança nos objectivos. A acumulação excessiva de riqueza, a menos que o Diabo nos tenha abençoado com um 1º prémio num concurso da Santa Casa, não é coisa que se alcance de um dia para o outro, que raio!

Porque estou eu a preocupar-me? Não é de crer que vá ter condições para pecar na forma moderna. Ainda assim, como cidadão decente, faz-me alguma espécie que só agora tenha sido declarado pecado atentar contra o Ambiente. E isto faz-me perguntar: quem é o responsável pela "criação" dos pecados? É o Papa? É Deus? Quem se lembra primeiro? O funcionário católico dir-nos-á que Deus coloca na mente do Papa (após profunda oração) as suas vontades, para que o sucessor de Pedro as dê a conhecer ao mundo. Mmm... e o homem das barbas brancas (Deus, não é o Pai Natal) não podia ter-se lembrado de apelar à defesa do ambiente mais cedo? Digamos... há uns trinta anos atrás? Foi preciso esperar que o tema fosse moda e tanto disparate tivesse sido feito? Há qualquer coisa estranha aqui: se Deus não liga a modas, ligam os homens e, nesse caso, a ideia dos pecados vem inteiramente da germânica cabecinha papal (certo... ou dos seus assessores). A ser esta uma hipótese verdadeira, temos que é o Papa que decide o que é ou não é pecado (tal como o Inferno, que existia, deixou de existir e parece que está aí novamente). Isto não faz confusão às cabecinhas dos fiéis?

Oremos irmãos, pelo fim da fé.

Chiça!

6 comentários:

Unknown disse...

O administrador dos hóteis agora ficou ofendido com uma campanha publicitária de um stand de automóveis… Bem prega Frei Tomás… ;)

Anónimo disse...

Excelente blog, companheiro, espero estar aqui sempre que puder para dar uma rápida leitura, escreves muito bem e têm excelentes argumentos, Parabéns.
Ah só espero não ser açoitado por ser brasileiro embora laguns mereçam... brincadeira

Abraços

Jackson Marques ou Jackson@Br

Anónimo disse...

Parabens, Pedro Catinga! Cheio de fino humor e com a graciosidade duma analise acessivel.
Permita-me acrescentar: não tenho pecados; e não tenho pecados, porque não tenho deus. Como JP Sartre, não tenho deus, porque não prciso disso.
Ah, preciso sim, que as mentalidades evoluam!
Saudações parisiences do Xauter-conimbrigense.

Unknown disse...

ehehehe...muito bom...por isso nunca me canso de dar aqui um saltinho, sempre que posso...
Cumprimentos cordiais

Unknown disse...

Gostei muito deste post! E principalmente da parte do fim "oremos pelo fim da fé". Além de ter um subtil toque de ironia, apela-nos a que façamos o que já deveria ter sido feito à muito tempo: acabar com as religiões. Se formos a ver, elas são os grandes responsáveis pelo estado caótico em que o mundo se encontra...

Assunção disse...

Será que o papa também subiu ao monte com umas tabuinhas de pedra????