Um doce libanês

Quanto mais cinema vejo mais parece cimentar-se em mim a convicção de que só neste país é que fazer um filme é encarado como uma espécie de missão quase divina de doutrinar os pobres de espírito espalhando sobre eles a luz da sabedoria humanista do realizador. Eu bem sei o que me custa usar a expressão "só neste país" (abomino-a!) mas, a verdade é que é difícil voltar de uma película proveniente de um país tão pouco provável como o Líbano e não fazer comparações com aquilo que por cá se faz.

"Caramel" (e porque não "Caramelo"?), é um filme de Nadine Labaki (uma mulher, portanto), passado em Beirute e que tem como centro um salão de beleza à volta do qual se cruzam histórias pessoais. É uma película cheia de sensibilidade cujas personagens oscilam entre a comédia e a tristeza, banhadas por uma luz dourada de fim-de-tarde com cores realçadas pela bonita fotografia. Há cristãos e muçulmanos, há Ocidente e Oriente, há vislumbres da Europa sofisticada de permeio com a desordem que se imagina (mal?) por aquelas paragens, há música boa, há mulheres bonitas...

No Líbano já alguém percebeu como fazer um filme maior sem ter de ceder a estéticas americanas nem, por outro lado, enveredar por argumentos pesados cujo único efeito é afastar das salas os espectadores. Que lição poderiam alguns dos nossos realizadores tirar de um filme como "Caramel". Como já disse, a fotografia é boa, o som também, o argumento é vivo, as personagens - credíveis, as situações - verosímeis, a banda sonora - existente e agradável, feita para realçar os momentos (clique aqui para a ouvir), o interesse - total.

Até quando teremos de esperar por um filme deste tipo, feito em Portugal?

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