A ponte do Menezes

O Governo anunciou recentemente a construção de uma nova ponte sobre o Tejo, na área de Lisboa. Ponte esta que deverá ligar a zona lisboeta de Chelas à cidade do Barreiro. Como foi uma decisão governamental, à Oposição só restavam duas hipóteses: 1) dizer que era contra a ponte; 2) dizer que a ponte devia ser feita noutro lado. Foi esta segunda hipótese a escolhida por Luís Filipe Menezes, o actual líder do PSD (auto-intitulado líder da oposição) e ainda Presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia. Pegando numa ideia que não é sua (do mal, o menos), LFM resolveu vir a terreiro defender a construção de uma ponte ligando Algés à Trafaria, afirmando que, esta sim, era verdadeiramente importante para as populações.

Como já escrevi, a ideia não é de LFM, ele apenas a apadrinha por necessitar de obter tempo de antena. Qualquer que fosse a decisão governamental, ele teria de defender uma coisa diversa. Calhou-lhe esta.

Mas se até este ponto se compreende, pela perversa lógica da política, a atitude de LFM, já mais difícil será justificar a proposta em si mesma. Repito: uma ponte entre Algés e a Trafaria. "Onde e Onde?", perguntará o leitor que não conhece Lisboa.
Eu explico: Algés é, literalmente, a primeira localidade após Lisboa (colada a esta), em direcção ao mar e, a Trafaria, é a terra que fica defronte, do outro lado do rio. Se houvesse uma espécie de porta para o Tejo, estaria assente nestas duas localidades.
(Para os portuenses, seria como uma ponte a ligar a Foz à Afurada)
Algés está, também, a poucas centenas de metros do mais famoso monumento nacional: a Torre de Belém. Igualmente tem uma praia, ainda usada por muita gente e que se pretende despoluída para que reganhe o "prestígio" que em tempos já teve.

Portanto, o que o nosso Pipinho defende é que se plante um mastodonte de betão, a cruzar o rio no local onde este se faz mar, escarrapachado nas ventas de quem contemple a Torre de Belém (que, ainda por cima, se observa sempre na direcção do mar!), destruindo a paisagem, desqualificando um ponto turístico essencial, aviltando o enquadramento de uma zona histórica. O que LFM quer (já agora, veja-se a diferença de qualidade urbanística entre Gaia e o Porto) é eclipsar a monumentalidade da vista sobre/de Lisboa em direcção à foz, colocando-lhe uma grotesca barreira, uma espécie de monumento ao grunho responsável pela destruição da paisagem urbana (e não só) no nosso país.
Para a malta do betão, esta hipótese era óptima. A zona do Barreiro já está destruída mas a costa entre a Trafaria e a Costa de Caparica ainda apresenta alguns pontos "sossegados". Demasiadamente sossegados e a precisar urgentemente de muito prédio e estrada, de preferência bem em cima das praias que (ainda) existem. Sabe-se que o mar quer comer aquela zona da costa, sabe-se que a arriba fóssil é para preservar, sabe-se que aquela zona devia ser uma espécie de escapatória para o fim-de-semana... Mas sabe-se ainda mais que o monstro da construção civil não descansa e, além disso, até dá umas boas gorjetas aos partidos (nomeadamente ao PSD - com direito a condenação em tribunal, até).



Luís Filipe Meneses, que durante muito tempo foi mais conhecido pela sua patética participação num congresso do PSD realizado no Coliseu dos Recreios onde, devido à sua tirada sobre os "sulistas e elitistas", pos o recinto a apupá-lo, tendo obrigado à suspensão dos trabalhos; LFM, o mesmo que acabou por sair do Coliseu chorando e dizendo para as câmaras de TV "eu só quero ir para casa..." (onde estão os vídeos das lágrimas no YouTube?!), essa personagem, cujas ideias para o país chegam a roçar o arripiante, que se cola ao louco independentista que governa a Madeira, que se afirma regionalista, defensor da entrega da educação aos privados e outros disparates do mesmo tipo (parece que também há uma coisa com os cemitérios), esse Menezes é o mesmo homem que se pretende afirmar como alternativa ao actual Governo.


(já agora: como é que ficou aquela coisa do seu blog pessoal que, afinal, era escrito por um assessor que até fazia copy+paste de textos de outros?...)

Já muita gente o disse: com uma oposição assim, Sócrates não tem de se preocupar. Eu simpatizo com o Sócrates. Não é perfeito, claro, mas, ainda assim, apoio-o e isso é confortável porque, se eu não estivesse nessa situação, o meu espírito sofreria verdadeiras torturas tentanto encontrar alguém em quem votar nas próximas eleições. Quando o "líder da oposição" defende uma ideia como a que está na base deste texto, Sócrates até podia ser o Diabo que eu votaria à mesma nele. Há coisas que são tão absurdas que quem as defenda só pode ser igualmente detentor de uma mente absurda.

LFM é do Norte, esse mesmo que passa a vida a queixar-se da falta de investimentos (só isto já daria pano para mangas). Mas, curiosamente, e sendo ainda autarca na Almada do Porto, Menezes não é contra o investimento milionário na nova ponte. Apenas lhe faz cócegas a localização. Isto mostra bem como são diferentes as exigências do caciquismo e as da política a nível nacional. A maioria dos políticos não é de Lisboa e são bastos os exemplos de nortenhos em funções do mais alto nível. Mas, sempre que chegados ao poder, o seu discurso altera-se e a acção adapta-se. As portas do poder, quando cruzadas, fazem os políticos ver as coisas de outra forma, decididamente. Até ao momento em que voltam à sua terra e que necessitam, novamente, de marcar posição. Aí, põem as penas na cabeça, vestem a melhor tanga e ei-los de novo no seu melhor jeito "tribal".

Este último parágrafo foi um àparte, uma espécie de desabafo. Independentemente de onde LFM possa ser, o que me interessa é que o homem dá, a um ritmo quase diário, provas de que não é capaz daquilo a que se pretende e que é: governar o país. Por mim, se esta iluminária chegasse ao poder e fosse para a frente com a questão da ponte, eu chegaria à conclusão de que isto tinha batido no fundo. O que vale é que o mundo é grande...


Mas tenhamos alguma compaixão pelo LFM, não sejamos duros demais com ele ou ainda vamos ter de o ver a chorar novamente. Se bem que fosse uma óptima ideia ele "ir para casa", também há que dizer que as suas estapafúrdias ideias nos podem divertir (desde que tenhamos a certeza de que ninguém lhes liga). Num espírito de desinteressada ajuda, ficam aqui algumas curtas e modestas sugestões para LFM e os seus assessores:

1) Transformar a Torre dos Clérigos numa torre de telecomunicações (com parabólicas e tudo)
2) Fazer um parque aquático na Lagoa das Sete Cidades
3) Construir um estádio no vale glaciar da Serra de Estrela
4) Fazer um hotel no Mosteiro da Batalha
5) "Modernizar" o centro histórico de Guimarães
6) Secar a Ria de Aveiro (esse desperdício de espaço...)
7) Plantar eucaliptos nas planícies alentejanas

Não são as melhores sugestões? Que querem? Não é qualquer um que consegue ter ideias do calibre das de LFM. Tenham dó!...

1 comentário:

Assunção disse...

Arre que por momentos fiquei meio aparvalhada a ver a montagem da ponte com a Torre de Belém!!!!!