Podia começar este texto de muitas formas. Uma delas seria lembrar-me de quando Mark Knopfler e os Dire Straits eram uma referência incontornável da minha adolescência. Da forma como eu e um amigo seguíamos a carreira da banda e do seu líder (a melhor fase a solo de MK foi durante os DS), de como lhe copiávamos a maneira de tocar, de como tentávamos aprender as músicas do Alchemy seguindo fotocópias de pautas, de como comprávamos ou gravávamos tudo aquilo em que o "mestre" tocasse (ou produzisse, ou abençoasse), de como pendurávamos nas músicas dos "Apertos Terríveis" alguns dos nossos sonhos ao som daquelas notas de guitarra que pairavam no ar e se alongavam ainda mais nas horas nocturnas. A vida faltava-nos ainda quase toda e, no entanto, tanto dela parecia já estar ali ao nosso alcance... Há traços de uma idade passada que acordam sempre que o início de Romeo & Juliet é dedilhado na guitarra de aço de MK; há horizontes que se tornam maiores na monumentalidade instrumental de um Telegraph Road; há uma menina que nos espera num parque de diversões qualquer, onde as bancas de tiros se cruzam com as lojas, logo ali, à saída do "túnel do amor".Podia também começar relembrando a desilusão que foi ver (finalmente) os DS em Portugal. Muitos anos depois da sua fase maior, quando o nosso país se abria aos grandes espectáculos - então na enfadonha versão "concerto de estádio" -, a banda londrina ofereceu ao velhinho Estádio José de Alvalade um evento competente mas que já dava para perceber que a chama era pouca. Tempos mais tarde, tocaram no Algarve e as críticas foram unanimemente melhores. Pouca sorte das dezenas de milhares que estiveram em Lisboa...
Finalmente, podia falar do outro concerto de MK que vi no Pavilhão Atlântico e onde a "decadência" do homem que Herman José considera categoricamente como o pior entrevistado que já lhe calhou (só respondia por monossílabos), já dava mostras da sua graça: um espectáculo chato que só se animava quando MK ia ao baú buscar os icónicos temas dos DS.
Se, nos concertos dos Scorpions, metade do público está lá pelas baladas (mulheres) e a outra metade pelo Hard Rock (homens), nos espectáculos de MK, toda a gente está lá pelos Dire Straits. A diferença é que a banda alemã é feita de gente minimamente atenta aos gostos de quem lhe sustenta o nível de vida e procura agradar a todos, enquanto que Knopfler está-se marimbando para a montanha-russa que são os aplausos ao longo das cerca de duas horas em que toca: da relativamente comedida reacção aos temas "a solo" ao quase delírio quando os anos 80 "straitianos" surgem. A alegria do reencontro chega a ser tal que ofusca completamente momentos que deviam ser saboreados com um silêncio quase religioso (mais uma vez, a guitarra de Romeo & Juliet).
Os concertos de Mark Knopfler dificilmente poderão melhorar. O caminho apresenta-se claramente descendente. Por várias razões: MK já não tem o talento de compositor que tinha; a colagem a estilos tipicamente americanos diminui-lhe a margem de criação; Knopfler quer ter uma carreira sua (se assim não fosse, ressuscitava os Dire Straits - operação certamente de retorno milionário). Quanto mais anos passarem e maior for o reportório a solo, menos espaço haverá para as canções dos DS. O público perde - MK está-se, certamente, lixando.
Toda a atitude do escocês é feita de um laxismo que só cede perante a competência técnica. E mesmo esta parece, aqui e ali, ser incomodada por algumas precipitações (houve ou não versões "encurtadas" de alguns momentos?). MK passeia (enfim, apresenta) em palco uma barriga redonda sobre a qual assenta as diversas guitarras que vai usando, cada uma com a sua afinação e nem sempre a que se espera nos temas. Compreende-se que haja cansaço por parte do artista ao executar infinitas vezes alguns temas mas, daí a mostrar menos cuidado na interpretação... É essa a imagem do profissionalismo que Knopfler não parece seguir. Em cima do palco, ele tem de dar espectáculo. E isso passa por uma selecção de temas que agradem ao público e por uma atitude enérgica na interpretação. Várias vezes dei por mim, no Campo Pequeno (muito más condições, no segundo andar) à beira do enfado absoluto, olhando para um homem que parecia mais estar a tocar num qualquer evento para paralíticos com problemas de insónia do que para milhares de (velhos) fans seus.As músicas escolhidas para serem interpretadas foram do mais chato que se possa imaginar. Momentos houve em que mais parecia que era preciso encher uns minutos com qualquer coisa e enfiava-se uma suporífera bucha no estilo arremessado de "country" que MK agora segue, do que estarmos propriamente num concerto de um nome grande da pop britânica. Mau demais!
Mark Knopfler podia tocar sentado num sofá. Aliás, custa-me a crer que a displiscência daquele não lhe tenha já segredado ao ouvido semelhante sugestão. Assim por assim, a figura chega a ser tão imóvel que só se lhe vêm os dedinhos mexer, algo que continuaria a poder fazer confortavelmente refastelado. O público poderia fazer o mesmo e, deixando-se ir na onda, adormecer sonhando que estava de volta aos anos 80/90 quando uma banda chamada Dire Straits era fundamental no panorama musical mundial, aí ainda liderada por um magro e razoavelmente mexido guitarrista de fita na cabeça e não por um avô de ar quase sempre sisudo.
O problema de MK é que, apesar da sua enorme obra, é demasiadamente humano para o que um artista deve ser. Aos grandes músicos não cabe o direito de envelhecerem tanto ou mais do que os seus fans. Há qualquer coisa de imoral numa criatura que, em cima do palco, não faz questão de ser mais jovem do que o mais novo dos seus espectadores. A idade não pode ser desculpa. Os Rolling Stones continuam aos saltos em palco, Bryan Adams parece um adolescente, os Iron Maiden debitam hora e meia de pura energia. Todos com estilos muitíssimo mais exigentes do que o de MK.
Fui a este concerto como uma espécie de tira-teimas. Tirei-as todas: cinco ou seis músicas de Dire Straits (Sultans of swing, Romeo & Juliet, Telegraph Road, Brothers in Arms, So far away) não são suficientes para justificar o preço do bilhete, ainda mais quando estamos sentados como sardinha em lata, encaixados entre o sujeito de cima e o de baixo, mexendo um pé e acertando nas costelas de alguém, com colunas à frente e gente sempre a passar devido à má disposição dos acessos das entradas às cadeiras.
A noite estava quente, como se fosse Verão. Mark Knopfler, como de costume, pos gelo na coisa.
6 comentários:
Get a life.
Eu estive lá. E acho que Knopfler, COMO DE COSTUME, foi insuperável.
Era perfeito no tempo de "Brothers and Arms", era perfeito no tempo de "Golden Heart" e continua perfeito com "Kill to Get Crimson".
É ridículo ver gente que nunca escreveu uma nota digna de se apresentar a um público inteligente vir criticar o Mestre.
Mais uma vez: Get a life.
andas mesmo aos papéis.
meu deus, que crítica absurda, tão absurda como este blog.
Conforme já escrevi noutro texto, a palavra "fan" vem de "fanático". Toda a gente sabe que a cabeça de um fanático não é das melhores fontes para extrair qualquer tipo de razão...
Mas as coisas são mesmo assim: dá-se a nossa opinião sobre um artista e temos os acólitos a atacarem-nos no esperado estilo caceteiro.
É a vida...
estiveste mesmo no pavilhaõ atlântico quando ele lá foi? é que a tua fantástica ideia do sofá aconteceu.. ele tocou um ou dois temas sentado no sofá.. mas isso agora não interessa nada..
eu também achei o concerto esse concerto uma seca e até saí antes de acabar e sou um fã.. a pergunta é: tu por acaso fizeste-te ao gajo em alguma ocasião e levaste uma tampa? é que esse teu discurso parace uma cena ao nível da Carolina Salgado... tanta raiva que praí vai, mano!
Pois... és mesmo um perseguido, um incompreendido no fundo e o facto de toda a gente que viu o mesmo que tu ter precisamente uma opinião contrária à tua, é incompreensível e quem sabe até... injurioso. Tu estás certo, o mundo está errado e nós que não concordámos contigo somos uns caceteiros, uns Petit's, boa piada, uns terroristas do comentário.
Obrigado também por nos explicares a origem etimológica da palavra "fã" e assim nos poderes iluminar, a nós os ceguinhos, Ó sua Genialidade não turvada pelo gosto musical mas desprovida de suporte factual, Ó Grande Castigador dos fanáticos "Al-Qaedanos" da Música.
O MK disse numa entrevista que uma bela tarde de sol em londres, quando a banda actuava pela segunda ou terceira vez seguida no estádio de wembley, resovleu ir mais cedo e passeou-se pelas instalações. Ficou escandalizado com o número de pessoas e camiões que constituiam a comitiva, e achou que estava na hora de acabar com os DS, pois as proporções tinham atingido níveis muito acima do que ele achava razoável para as suas aspirações. Já não conhecia ninguém da comitiva técnica...
Nota-se, em vídeos dessa época (tour do on every street) que ele já está cansado e enfadado com todo aquele monstro que havia criado 15 anos antes. É mais que legítimo querer-se retirar...
O que fica um pouco mais difícil de tragar para os mega-fãs dos dire straits é que ele lance estes discos a solo. A minha parte razoável, racional, entende que ele continue a gostar de tocar e gravar de uma forma mais descomprometida e desplicente, e lance estes discos típicos de quem já não tem nada a provar. Essa mesma parte racional até aprecia este envelhecimento digno, oposto ao envelhecimento patético de um sting e de um mick jagger, e consegue até dar valor e aplaudir esta fase cheia de dignidade. MK a solo é arvore que se deixa morrer de pé...
Mas a minha parte afectiva, que venera a obra dos Dire Straits, tem pena sincera que ninguém das suas relações próximas tenha tido a bondade de lhe enfiar uma bala na cabeça.
Não vejo, nem verei, concertos do MK a solo, pois a minha parte emotiva e infantil faz birra pelo facto de os DS não existirem ainda
com um MK de 30 anos ao comando das operações.
Abraços,
Mendes
(P.S: "Sailing to Philadelphia" e "Ragpicker´s dream" são músicas so nível do melhor dos DS.)
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