Não lhe sinto a falta

Fez esta semana um mês que deixei o Holmes Place. E a verdade é que não sinto falta nenhuma de lá ir. Até ao momento, tem sido só vantagens. Vejamos: deixei de gastar €91,30 mensais; passei a ter mais duas horas livres por dia; como chego a casa consideravelmente mais cedo, posso tratar de coisas minhas, jantar minimamente em condições e deitar-me mais cedo, o que também quer dizer que durmo mais, acordando em melhores condições e, portanto, trabalhando melhor; finalmente, não sou obrigado a ver homens nus de um lado para o outro do balneário e mulheres afogadas em celulite no ginásio.

E a falta de exercício, não se sente? Não. Aliás, num ano e quatro meses que andei no ginásio, a ritmo diário, fiquei praticamente na mesma e não perdi um grama de peso ou um centímetro de pneu. Como fazia o que estava no programa, vou pensar que sou eu que tenho um defeito... Sinto-me tão bem como dantes, quero dizer, sinto-me melhor do que quando andava no ginásio porque não me canso, não ponho à prova as articulações e não me torturo com pesos. Sinto-me leve e ágil. E até a hérnia inguinal que lá arranjei nas aulas de Body Pump não tem dado sinal de si. Uma maravilha.

Agora caminho muito mais porque tenho tempo para isso e, como dizem os médicos (acreditemos neles), não há coisa melhor do que caminhar. Faz bem à cabeça, ao corpo e é de graça (um economista diria que não porque se gasta a roupa...).

A única coisa de que sinto alguma falta é do banho turco mas pode ser que um dia em que me resolva a renovar a minha casa-de-banho eu faça uma gracinha em jeito de prenda para mim mesmo.

Mas, perguntará algum curioso leitor, porque razão deixei o Holmes Place? Era assim tão mau? A resposta é "nim". Eu gostava de ir ao ginásio, gostava da sauna, do banho turco, de dar umas braçadas na piscina, etc. Simplesmente, o Holmes Place (outros também lhe seguem o exemplo) tem uma política de preços perfeitamente variável em que a cada pessoa é feita um preço, provocando grandes discrepâncias de mensalidades entre pessoas que usufruem exactamente do mesmo serviço. No meu caso, pareço ter sido escolhido para compensar as abébias dadas a outros e, como não gosto de fazer de parvo, desisti daquilo.
Na minha empresa éramos quatro pessoas inscritas no mesmíssimo clube (Defensores de Chaves): um colega meu pagava €70 com direito a toalha, outros dois pagavam €75 (também com toalha) e eu pagava €91,30 e ainda queriam começar a cobrar mais cinco euros e qualquer coisa pela toalha (que, aquando da inscrição me disseram ser oferta para, logo de seguida irem marcar por trás que era só por seis meses). Ou seja, queriam que eu pagasse quase €99 quando os meus colegas pagavam, em média, €73!!!

Reclamei mas não serviu de nada. Apesar disso, nunca me trocaram o cartão que dava direito à preciosa toalha. Um dia, meses mais tarde, quando vou a entrar, "barram-me" a passagem para me darem outro cartão, já sem direito ao fantástico "T". E ali fiquei eu sem toalha para me limpar. Foi uma sensação óptima usar a pequenina toalha de ginásio, suada, para me limpar no banho. É claro que assinei logo no momento a rescisão do contrato. Andar a pagar num ginásio, supostamente de luxo, mais do que os outros, ser mal servido e ainda levar com desconsiderações destas... Ná, não é para mim. E a coisa ainda mais irritante é ver o serviço cada vez pior que o clube da Defensores de Chaves presta. Quando de lá saí, nem metade das cabinas de duche estava a funcionar - algumas estavam avariadas há semanas. Havia problemas no fornecimento de água quente (tanta gente andaram a deixar entrar que as caldeiras começaram a não dar conta do recado), a manutenção de alguns equipamentos deixava a desejar, junto ao jacuzzi havia pedaços de "parede" com verdete e a desfazerem-se, na sauna costumava cheirar intensamente a produto de limpeza quando se deitava água nas pedras (uma vez, tive de sair a tossir). A organização dos serviços administrativos também não era a melhor (pagamentos feitos dados como não feitos e... bloqueio na entrada, confusões com débitos directos)... Por amor de deus, vão lá enganar outro com o "prestígio" e a "qualidade"!

Um dos meus colegas que se mantém na Defensores de Chaves diz-me que a zona de duches, agora, é partilhada entre homens e mulheres devido a obras que estão a ser feitas. Condições especiais para os sócios ou baixa da mensalidade é coisa que nem passa pela cabeça daquela gente. Deve ser uma questão de "prestígio"...

Como eu tinha um cartão que me permitia ir a todos os clubes, fiquei a conhecer todos os do país (com excepção de Aveiro) e tive sempre meio de comparação com a Defensores de Chaves. Acho que só o clube da Avenida da Liberdade consegue ser pior... Do lado contrário, i.e., nos melhores está certamente o da 5 de Outubro (com uma "luxuosa" zona balnear (piscina, jacuzzi, sauna, duches, camas, tudo no mesmo espaço) e o de Miraflores. Os outros mantêm uma qualidade agradável.

Se o Holmes Place fosse de confiança, i.e., se o interesse do cliente estivesse acima da ganância do lucro, se os serviços administrativos funcionassem bem, talvez eu lá tivesse continuado porque, apesar de tudo, era uma distração (não, pelas gajas não vale a pena, acreditem - são mais os larilas do que as "boas") mas, desta forma, nem pensar.

Ah... e a televisão interna do clube (i.e., de todos eles), com as notícias mais atrasadas que se possa imaginar, onde se oferecem convites para peças de teatro que já acabaram há dois meses? (e é só um exemplo de entre muitos) E as entrevistas do director da cadeia a impingir a sua doutrina a quem não tenha mais do que fazer que olhar para a criatura? Só não é para rir porque mostra mau serviço.

Agora, vejo bem que nunca precisei daquilo e dei razão a mim mesmo e à resposta que dei a um inquérito feito no clube onde me perguntaram "Se deixar de vir ao clube, que diferença é que isso fará?". Respondi "Fico com mais tempo livre...". O rapaz que me fez a pergunta riu-se e disse que era uma resposta original. Original, talvez - verdadeira, de certeza.

Nem me dei ao trabalho de procurar outro ginásio...

Só falta o hino!

Tudo indica que o hip-hop se apresta a ser elevado à condição de "cultura". À força de doses cavalares de divulgação via rádio e TV (a MTV e a MCM parecem ser os canais oficiais da chungaria musical) e dos sempre inestimáveis préstimos dos divulgadores "liberais", este género que, por mais que o queiram promover, não se descola do basfond, está a conseguir tornar-se uma espécie de música oficial da tugalândia invadindo constantemente o espaço de cada um, seja em lojas onde empregadas de ar enjoado e pastilha na boca nos atendem com aquele ar enfadado que quem está entregue a elevados pensamentos põe quando é interrompido, seja nos transportes públicos onde os telemóveis feitos rádios de pilhas nos trazem o saborzinho dos bailes de bairro social, seja nos ginásios supostamente de classe onde se corre olhando para televisões eternamente sintonizadas na MTV, o hip-hop (e agora os seus irmãos danados, a Kizomba e o Tecno) impõe-se com a força que lhe traz a descarada degradação social que enfrentamos.

Mas, se é compreensível que a juventude mole e facilitista aceite sem espírito crítico a cultura rasca que a comunicação social lhe enfia pelos olhos adentro, já mais difícil é perceber que as autoridades culturais alinhem no mesmo caminho. Quando olho para o programa da Feira da Azambuja e vejo que em quatro dias de festa sob a batuta de touros e cultura popular, na noite dedicada à juventude se recorre aos DaWeasel, eu fico parvo. Fado e touros? Ná! Hip-hop e touros deve ser melhor. Alguém perguntou à "juventude" se era aquilo que queriam? Nem era preciso. A ideia está instalada de que aos miúdos é preciso dar a música dos "manos".
E a coisa ganha contornos de escândalo quando, nas Festas de Lisboa que se avizinham, na Festa do Fado que decorre no Castelo de São Jorge de 6 a 28 de Junho, temos, como ementa do dia 13, Jorge Fernando e... Sam The Kid!... Seria fácil fazer piadas acerca da ligação entre um fadista do Casal Ventoso (com muito orgulho!) e um "hip hop" de Chelas mas abstenho-me de tal. A coisa é séria demais...

Não deve faltar muito para que surja uma versão "actualizada" do hino nacional, uma coisa assim a modos que mais "étnica" e mais próxima das vontades e aspirações da malta "lá do bairro". Sempre ficava qualquer coisa mais próxima do actual estado da mentalidade tuga...

E para que se veja que ainda há quem tenha olhos para perceber a estupidez de tudo isto, aqui fica um vídeo muito conseguido da série "Os Contemporâneos":

A geografia do poder (1)

Farto até mais não de ler na internet comentários regionalistas às notícias do dia-a-dia, fatalmente largados por portuenses ou madeirenses, resolvi mergulhar um pouco nas raízes geográficas dos detentores do poder no nosso país. Juntei à tarefa o gosto pela História e saiu, quase como um rascunho, este texto, no que é o primeiro de uma série que aqui irei deixar.

Para abrir a coisa, fui ver (recorrendo à Wikipedia), a lista de primeiro-ministros e chefes de Governo que este país teve desde a implantação (imposição) da República.
Houve três ou quatro casos em que não consegui descobrir a naturalidade das personagens mas, ainda assim, suponho que não seja isso que vá desvirtuar os resultados.

Ficam aqui os dados. Para já, crus...



NomeNaturalidade


João Pinheiro ChagasRio de Janeiro
Augusto César de Almeida de Vasconcelos CorreiaLisboa
Duarte Leite Pereira da SilvaPorto
Afonso Augusto da CostaSeia
Bernardino Luís Machado GuimarãesRio de Janeiro
Vítor Hugo de Azevedo Coutinho???
Joaquim Pereira Pimenta de CastroMonção


Junta constitucional:
José Maria Mendes Norton de MatosPonte de Lima
António Maria da SilvaLisboa
José de Freitas Ribeiro???
Alfredo Ernesto de Sá CardosoLisboa
Álvaro Xavier de CastroGuarda


José Ribeiro de CastroValhelhas
António José de AlmeidaVale da Vinha
Sidónio Bernardino Cardoso da Sila PaisCaminha
João do Canto e Castro Silva Antunes JúniorLisboa
João Tamagnini de Sousa BarbosaMacau
José Carlos de Mascarenhas RelvasGolegã
Domingos Leite PereiraBraga
Alfredo Ernesto de Sá CardosoLisboa
Francisco José Fernandes da CostaFoz de Arouce
António Maria BaptistaBeja
José Ramos PretoLouriçal do Campo
António Joaquim GranjoChaves
Liberato Damião Ribeiro Pinto???
Tomé José de Barros QueirósÍlhavo
Manuel Maria Coelho???
Carlos Maia PintoPorto
Francisco Pinto da Cunha LealPedrógão de São Pedro
António Ginestal MachadoAlmeida
Alfredo Rodrigues GasparLisboa
José Domingues dos SantosLavra
Vitorino Máximo de Carvalho GuimarãesPenafiel
José Mendes Cabeçadas JúniorLoulé
Manuel de Oliveira Gomes da CostaLisboa
António Óscar de Fragoso CarmonaLisboa
José Vicente de FreitasCalheta
Artur Ivens FerrazLisboa
Domingos da Costa OliveiraLisboa
António de Oliveira SalazarVimieiro
Marcello das Neves Alves CaetanoLisboa


Junta de Salvação Nacional:
António Sebastião Ribeiro de SpínolaEstremoz


Adelino da Palma CarlosFaro
Vasco dos Santos GonçalvesLisboa
José Baptista Pinheiro de AzevedoLuanda
Vasco Fernando Leote de Almeida e CostaLisboa
Mário Alberto Nobre Lopes SoaresLisboa
Alfredo Nobre da CostaLisboa
Carlos Alberto da Mota PintoPombal
Maria de Lourdes Ruivo da Silva Matos PintasilgoAbrantes
Francisco Manuel Lumbrales de Sá-CarneiroPorto
Diogo Pinto de Freitas do AmaralPóvoa de Varzim
Francisco Pinto BalsemãoLisboa
Aníbal António Cavaco SilvaBoliqueime
António Manuel de Oliveira GuterresLisboa
José Manuel Durão BarrosoLisboa
Pedro Miguel Santana LopesLisboa
José Sócrates Carvalho Pinto de SousaVilar de Maçada



Começar farto

E pronto, aí está a preparação para o Euro 2008. Como não podia deixar de ser, multiplicam-se os apelos de apoio à Selecção, quase sempre em tom épico, o povinho todo a empurrar a camioneta com os nossos "heróis" (alguns deles, pela forma como se arrastam em campo bem gostariam de estar ali, feitos paxás...), a cidade onde a equipa treina (Viseu) a engalanar-se toda para receber os 23, as autoridades a porem-se em bicos de pés para estarem à altura da honra que é ter tão prestigiados hóspedes, as empresas a inventarem produtos para se colarem ao entusiasmo pela bola, concursos a dar prémios, entrevistas e reportagens em todas as TV's e rádios, um diabo a quatro!

E, depois, submersos por tanta baba popular, lá estão os jogadores: antipáticos, ensimesmados, repetindo até à exaustão frases feitas sobre a importância dos adeptos (de quem eles se escondem), sobre a honra que é jogar pela Pátria (todos desejosos de conseguirem grandes contratos lá fora), etc.

Hoje, por exemplo, os nossos adoráveis campeões que, sendo para o tuga os melhores do mundo, na realidade nunca ganharam nada (nem a porra do Euro jogado em casa!), vão visitar um centro para deficientes mentais profundos. Se isto não é uma prova de amor à comunidade que os recebe, digam-me lá o que é! Deficientes mentais profundos... ou seja, gente que não só não deve reconhecer os jogadores como, mesmo que o conseguisse, não devia ser capaz sequer de lhes dizer "olá"! Isto, para as estrelas enjoadas é a visita perfeita: descansam, não apanham chuva e ainda se safam aos habituais fans peganhentos. No fim de tudo, as televisões encarregar-se-ão de os fazer parecer uns príncipes cheios de consciência social. Scolari dirá umas palavras de ocasião sobre a importância do apoio demonstrado pelos deficientes mentais profundos e do enorme carinho que sentiu em todos eles, Ronaldo piscará o olho a uma enfermeira e Nuno Gomes ficará impressionado com a forma como um dos deficientes o conseguiu fintar. Não há pachorra!

Ainda agora esta coisa começou e já estou farto de Selecção Nacional e de patriotismo de quinta categoria e de bandeirinhas e cachecóis e o camandro! E, no fim disto tudo, ninguém fala do que verdadeiramente interessa: estes tipos jogam bem, ou não? É que, observando os últimos vinte jogos da equipa das Quinas, o panorama é confrangedor... E se pensarmos que o último jogo de preparação, mesmo antes de partir para a Suíça, é com uma daquelas equipas "fraquinhas" com as quais gostamos de dar barracas... Ai mãe!

Agora ou agorinha?

No centro comercial Fonte Nova, em Lisboa, numa loja de comida pronta a levar onde, por acaso, as coisas até têm um aspecto absolutamente delicioso (um dia destes, não resisto) somos tentados com uma fantástica promoção de vinho do Douro: um "pack" (ah sim, essa do "conjunto", "pacote" e outros termos equivalentes é coisa pirosa - "pack" é que está a dar) de 3 garrafas de Quinta das Murças custava "Antes" €16,90 , custa "Agora" €13,90 e vai custar "Agora" (hã?!) €12,90.
Esperem aí: "antes", "agora" e... "agora". O segundo "agora" não pode ser o futuro porque, aí, sendo preço menor, ninguém comprava "agora" e preferia comprar "agora" que seria "depois". Mmm, então, se "agora" não é "agora" nem é "depois" e muito menos "antes", então o que é? Um "agorinha", um "agora mesmo, porra!" ? Mas, nesse caso, o "agora" que é "neste momento" passava a ser passado, ou seja, "antes", e já lá está um! Oh que confusão!

Afinal de contas, quanto é que custa o vinho, agora? Sim, neste preciso momento?
curtas 013

A Cofidis, empresa que empresta dinheiro ao desbarato a troco de juros altíssimos, na sua nova campanha publicitária lança-nos uma pergunta: "E se cada um de nós tivesse um sol só para si?".
Acho que a resposta só pode ser: "ficávamos todos queimadinhos...".

Lisboa aqui longe

Há três coisas que são boas para acabar com a irritação: violência, dormir, uma caminhada. Perante a roleta russa da primeira e a impossibilidade da segunda, optei pela mais fácil - a terceira -, e que acaba por ser, de certa forma, um compromisso entre as duas opções iniciais já que é possível matar o tempo adormecendo o passo.

Decidi ir do Campo Pequeno até ao Cais do Sodré, passando por uma das minhas zonas preferidas da cidade: toda aquela que vai do Rato até ao Bairro Alto. Fim de tarde, princípio de noite, a hora primaveril confunde as duas num envolvente lusco-fusco que convida à intimidade. Na ausência de companhia, faz-se das fachadas dos prédios, das montras das lojas, do movimento nos passeios, o nosso interesse.

Cada vez me agrada mais a Lisboa velha, a imagem romântica de um andar num prédio antigo, a alma de um bairro a receber-me no conforto de uma casa debruçada sobre uma praceta qualquer onde reformados conversam no sabor do último cigarro do dia e crianças brincam despedindo-se da escola ao som da passarada que se amanha nas árvores.

Lisboa é linda e essa é uma das certezas que trago de todas as minhas viagens, independentemente de invejas sentidas em terras estrangeiras perante demonstrações excepcionais de bom gosto e requinte que me apeteça meter no bolso e transplantar para um pedaço da minha terra. No fundo, nunca cobiçamos a mulher alheia: apenas gostaríamos que a nossa mudasse um pouco.

Deixei-me ir na Rua da Escola Politécnica, passo após passo, na indecisão de saber que rumo lhes dar quando chegasse ao Largo de Camões. A indecisão foi quebrada pela contemplação do (finalmente) recuperado jardim de São Pedro de Alcântara, miradouro nobre sobre a Baixa, com o Castelo lá no alto lembrando-nos, na sua fortaleza, de que é possível aos velhos muros, aos velhos telhados, às velhas vielas resistir aos passar dos séculos e à ignorância destruidora.
Apoio-me à baixa grade que ladeia o patamar superior do jardim e fixo a colina-mãe lembrando-me de pessoas já partidas que, com idade avançada, me afiançavam nunca terem subido ao castelo. O espanto de então desvanece-se perante a constatação de que eu, nos meus 37 anos, embora tenha já ido intramuros, quase nada conheço do presépio que o povo semeou à volta das muralhas.
Como alguém que, perante uma flor, se esquece da importância do caule e da raiz, também eu me deixei sempre levar pelas cores novas das pétalas que a cidade foi dando, preferindo uma suposta sofisticação estrangeira à secular presença da cultura local.

Deixo o tempo passar enquanto os olhos vagueiam de ponto em ponto, identificando locais já conhecidos e guardando a vontade de explorar outros. Onde está aquela cúpula junto ao lanço de muralhas que desce a colina? Que rua vai lá ter? E aquilo que parece ser uma escadaria fugindo da subida do elevador da Lavra? Quem lá mora? De que cores se pintam as paredes?

Olhar Lisboa antiga faz-me querer partir à aventura. Faz-me querer ser estranho na minha terra e largar amarras, de guia turístico no bolso como se tudo fosse novo, como se da cidade só soubesse o nome. Diz-me tu, Olisipo, que caminhos me aconselhas para te conhecer?
O livro das rotas, tenho eu. Falta-me sair com ele ao mar incógnito que é essa teia aberta por entre paredes irmãs, do Torel a Alfama, da Mouraria à Graça. Nas veias abertas flui o sangue da capital do meu país. Sangue enquinado, tantas vezes, mas que brota geração atrás de geração da fonte primordial feita lenda: lusitana, fenícia, romana ou árabe, cristã ou ateia é esta cidade a minha. E eu desconheço tanto dela...

Olhar Lisboa ao anoitecer, quando as ruas se vestem de sombra e os candeeiros acordam num tímido dourado; sentir o odor que se espraia, a castanhas e a imaginárias lareiras; pousar a ideia na lembrança de um rosto bonito que nos acolhia em tempos; ouvir o burburinho das gentes que se deslocam...

Se há momento que me agrada é este: o do fim-de-tarde. Podiam os dias ser todos um longo e lânguido fim-de-dia que eu nunca me fartaria. Fecharia os olhos e ouviria o marulhar do rio junto aos cais, sentiria os últimos raios de sol projectando-se sobre Belém, imaginaria a ponte preparando o seu colar de luzes...

Abalo de São Pedro de Alcântara quando o cheiro dos primeiros grelhados pede meças aos aromas das árvores. Passo após passo, passo pelas portas dos restaurantes que se abrem a grupos de convivas. São horas de comer, são horas de beber, são horas de continuar caminhando...

Mais à frente, junto ao Teatro Municipal de São Luiz, viajo para terras distantes, a oriente da lonjura, transportado pelo odor de materiais de construção que me trazem à memória umas férias em Macau. São curiosas as associações que o olfacto nos permite...

Acompanho a linha do eléctrico e fujo-lhe para a direita, rumo a uma rua onde um designer montou uma quase nua loja de roupa, colada a um quase despido ginásio onde se vê gente que me deixa na incerteza sobre se é manequim em montra própria ou se está ali de passagem.

Chego ao Cais do Sodré e apanho o autocarro para casa. É tempo de voltar à cidade funcional, aos prédios monótonos da explosão urbana.

A poucas dezenas de metros de mim está uma placa que marca o fim da cidade. Ainda a vejo assim, do lado de cá. Oxalá nunca a veja de outra forma...

O paraíso de Barcarena

No concelho de Oeiras há muita coisa boa. É uma ironia, é certo, mas o "companheiro" Isaltino, comummente tido como corrupto, sabe gerir a Câmara Municipal do concelho vizinho da capital. Há arranjos paisagísticos bonitos, há parques empresariais "finórios", há jardins e equipamentos sociais...
Enfim, diz-me quem nunca votou nele que o homem sabe o que faz.

É claro que nenhum presidente faz tudo e é preciso ter boas equipas à volta mas estas são geralmente fruto da arte de saber escolher com quem se trabalha e, fazendo, portanto, fé em quem é munícipe do Sr. Morais, o homem sabe rodear-se de gente competente.

Vem isto a propósito de uma ida minha, no Sábado passado, à Fábrica da Pólvora, que fica em Barcarena.
Vai-se pelo IC19, sai-se na saída para Tercena, dá-se umas voltinhas e eis-nos frente a um conjunto de edifícios que vai desde o Séc. XVII até ao Séc. XX. O espaço é grande e compreende vários núcleos mais ou menos dispersos pelos dois lados da ribeira da barcarena, uns ainda do domínio público, outros perdidos em ruínas e, finalmente, outros em posse privada (uma faculdade).

A Fábrica da Pólvora é, por assim dizer, uma espécie de Éden encravado numa paisagem cada vez mais urbanizada, sentindo-se perfeitamente a pressão urbanística a cercar o belíssimo espaço. Nalguns lados, já não é possível deixar de ver os prédios a agigantarem-se por cima das copas das árvores...
Mas a Fábrica, resiste. E com o trabalho de restauração e manutenção que a CMO empreendeu, foi possível proporcionar a quem visite o espaço um brilhante equilíbrio entre património arquitectónico, equipamentos sociais e zonas verdes.

Quase todos os edifícios estão pintados de amarelo, uma cor que contrasta fortemente com a vegetação feita, em boa parte, de eucaliptos, e que dá ao espaço um tom alegre, quase de verão. Há um grande anfiteatro onde se realizam espectáculos, há uma enorme praça onde qualquer criança gostaria de disparar a correr, há bancos a chamarem-nos para um descanso à sombra de uma árvore, há bom-gosto por todo o lado. E há a piada de ver os viveiros da CMO onde centenas ou milhares de árvores crescem os primeiro centímetros em vasos cuidadosamente alinhados como verdes exércitos em parada.

Trabalhei dois anos na zona de São Marcos - Cacém e, tirando uma fugaz visita, nunca tinha ido visitar a Fábrica da Pólvora porque me fazia impressão ir àquela zona que detestava e que tresandava à tristeza do trabalho. Finalmente, a pretexto de um bom bife com pimenta (única boa recordação de São Marcos), resolvi passar por Barcarena. E hei-de ir lá mais vezes, quer seja para me encostar a uma árvore nos relvados, quer seja para tirar fotografias ao deslumbrante amarelo com que os edifícios estão pintados, quer seja para beber uma cerveja e apreciar algum espectáculo.

Fábrica da Pólvora: um bom exemplo de que o património que os nossos antepassados nos legaram está aí para o bem de todos nós.

Chatos ou estúpidos?

Há empresas que parecem ter um estranho prazer em viver num ambiente onde, de forma quase fatal, se misturam a incompetência, o desleixo, a desonestidade. Já deixei aqui relatos da minha experiência com a NextTravel e os seus operadores de telemarketing. Em boa hora deixarei contados outros casos com outras empresas. Mas hoje... hoje apetece-me "falar" de um caso que se arrasta há mais de quatro anos...

Art Gallery, Club Natura ou Ediclube é tudo a mesma coisa. São diferentes facetas do mesmo monstrengo. Esta empresa (que julgo ser de capitais espanhóis - costuma ser assim, até), anda há anos a enviar-me para casa, a um ritmo semanal, publicidade dirigida a alguém que eu não conheço mas que devia ser da família de quem me vendeu o palácio onde vivo.

Ao princípio, devolvi a correspondência, indicando que a pessoa em questão não morava ali. Fi-lo uma vez, duas, três e por aí fora, até que me fartei e telefonei para a empresa. Fui atendido por uma mulher antipática que me disse que, para deixar de receber a correspondência, teria de escrever uma carta (!) para o Ediclube. Não sei se estão bem a ver... eu compro uma casa, não paro de receber publicidade para outra pessoa e ainda tenho de perder tempo e dinheiro a escrever uma carta a pedir por amor de deus que se roguem deixar de me enviar publicidade!...

Naturalmente, não fiz o que o estafermo que me atendeu disse. As cartas continuaram...
Comecei a escrever mensagens insultuosas no verso dos sobrescritos (é assim que se diz, não é "envelopes"). Chamei-lhes de tudo e, no meio dos palavrões, sempre lhes dizia que a pessoa em questão não morava na minha casa, que era um desperdício de esforço, etc. Era escusado. Na semana seguinte, lá pingava nova cartinha.

Reparei que o Ediclube dizia pertencer a uma "Associação Portuguesa de Marketing Directo". Procurei informação sobre a mesma e não apanhei nada (falta de jeito?) mas deu para perceber, por coisas que li, que teria sempre de passar por enviar uma carta. Ora, fazê-lo não só ia contra os meus princípios, como, ainda por cima, implicava dar os meus dados...

Continuei a devolver as cartas recorrendo à linguagem vernácula. Até que, um ano e tal depois, as cartas cessaram. Ó divina Providência que finalmente estendeste sobre mim o véu do sossego! Ó animalárias do Ediclube que, enfim, após vos chamar filhos da puta e imbecis de merda tantas vezes, resolveram parar com o envio das cartas, ó monumentais incompetentes que, carta após carta devolvida, resolveram tirar o endereço da vítima da vossa lista... a todos, o meu obrigado!

E assim fiquei até há quinze dias atrás. Um dia, ao chegar a casa, abro a caixa do correio (onde, normalmente, só aparecem contas) e, tcham tcham!, uma cartinha do Ediclube, ou da Art Gallery, ou do Club Natura, ou da puta que os pariu, endereçada, como não podia deixar de ser, para a criatura que já não vive neste endereço há mais de quatro anos!

Voltei a devolver as cartas, voltei a insultá-los, e as cartinhas continuaram a chegar...
Agora, já não as devolvo: junto-as. Dato-as e faço uma pilha com elas para, quando tiverem uma altura razoável, as ir atirar à cara do primeiro merdas que me receber naquele caralho de empresa chamada Ediclube, Art Gallery ou Club Natura.

FODA-SE!!!

A libertação da mulher

Sábado à tarde, num daqueles restaurantes de centro comercial, sento-me para uma espécie de jantar. Reparo que, ao meu lado, está um casal a acabar de comer. Terminada a refeição, o rapaz levanta-se e deixa o tabuleiro no balcão. A rapariga sai e deixa as coisas na mesa. Logo de seguida, chega outro casal. Ela senta-se numa mesa (a dois metros do balcão) e ele fica a tratar das coisas: pagou a conta e teve de levar os dois tabuleiros para a mesa (um de cada vez). Saio do restaurante e vou para o teatro. Quando a sala já estava quase cheia, chegam dois casais para se sentarem exactamente no meio da primeira fila. Os homens, apercebendo-se de que o palco era baixíssimo (dá pelo nosso joelho) sobem ao dito e dirigem-se para os lugares. As senhoras, preferem obrigar toda a gente a levantar-se para lhes dar passagem...

E eu fico, nesta como em muitas outras situações, a pensar que a libertação da mulher, por mais cursos que tirem, por melhores empregos que arranjem, por mais parceiros sexuais que tenham, por menos filhos que param, nunca estará verdadeiramente completa enquanto se portarem como umas criaturinhas arrogantes e mimadas, desesperadamente necessitadas de dar nas vistas...

Uniões estéreis

No acompanhamento da actual campanha eleitoral para a presidência do PSD (está bem, Santana, PPD/PSD...), foi pedido aos candidatos que botassem opinião sobre os casamentos entre homossexuais. Manuela Ferreira Leite não respondeu, Pedro Santana Lopes mostrou-se contra, Pedro Passos Coelho e António Neto da Silva (quem é este?) acham que deve haver uma forma de contrato civil mas não "casamento" propriamente dito e, finalmente, Mário Patinha Antão (isto é nome artístico? - se é, é mau; se não é, ainda é pior...) acha que "(...) o líder do PSD deve lançar um debate amplo e profundo na nossa sociedade sobre novos estilos de vida no século XXI e outras questões da modernidade (...)", ou seja, é contra mas tem vergonha de o dizer.

Como Alberto João Jardim não concorre ao cargo (só o faria se fosse o único candidato e toda a gente declarasse que votava nele - ah democrata!), ficamos sem saber o que sua excelência acha do assunto mas suspeito de que, para ele, a homossexualidade seja coisa provocada por vinho estragado.

Bom, sabidas as opiniões das iluminárias que agora se põem em fila para a presidência do que deveria ser o grande partido da oposição, há que dizer aqui qualquer coisinha sobre o assunto do casamento entre homossexuais propriamente dito. Para já, esclareça-se as mentes menos informadas que, "homossexual" tanto se aplica a homens como a mulheres, não havendo, portanto, distinção entre "homossexuais" e "lésbicas": é tudo a mesma coisa. Outra coisa que, a bem do entendimento da questão, convém ter em conta é que ninguém, mas absolutamente ninguém "opta" por ser homossexual. Tal como o resto da população, também os homossexuais são "vítimas" do acaso ou dos genes. A utilização do termo "opções sexuais" pretende apenas trazer a discussão para o campo dos direitos de personalidade, tão caros às sociedades ocidentais e, desta forma "blindar" um dos lados da barricada.

Porque razão, aparentemente, os homossexuais (ou quem fala por eles) faz tanta questão no acesso a essa instituição chamada "casamento"? É simples, porque é um símbolo. O matrimónio é um símbolo da preferência que os Estados, as sociedades, deram, ao longo da História, à união entre homem e mulher, logo, ao conseguir uma equiparação formal de uniões, os homossexuais conseguem desta forma destruir o monopólio de aceitação de que os heterossexuais beneficiam. Mas isto, embora se compreenda por parte desta minoria da população, radica na incompreensão do que é, para o Estado, o matrimónio.

Ao contrário do que possa ser uma visão romântica da sociedade, o Estado-Providência (modelo que tendencialmente seguimos) tem como preocupação essencial o bem estar material dos seus cidadãos. O Estado está-se borrifando para a felicidade das pessoas, para o que possa ser a satisfação dos seus anseios pessoais, para o tamanho do sorriso estampado na cara de cada serzinho que tutela.
Se o Estado se preocupasse com essa coisa diáfana chamada "felicidade", a poligamia/androgamia seria permitida desde sempre, todas as casas teriam 100m2, o Benfica seria campeão a cada três anos e a cerveja seria de graça. Não é isto que acontece, já se vê.

Para o Estado, o casamento é "apenas" uma ferramenta propiciadora da criação de famílias estáveis no seio das quais, espera-se, nascerão crianças que, mais tarde aí estarão para assegurar a continuidade do próprio Estado e pagar as reformas dos que vieram antes. O Estado-Providência necessita de filhos como de pão para a boca e a família (hoje chamada de "tradicional") é a melhor forma de o garantir. É, portanto, uma lógica fria que preside à relação que o Estado tem para com o matrimónio. Não há lugar a idealismos, aqui. E, para o Estado, a união formal entre homens, mulheres ou qualquer coisa pelo meio é tão importante quanto a cor do carro de cada um.

O Estado não se imiscui na vida privada dos seus cidadãos e, precisamente por causa disso, não sente qualquer necessidade de se debruçar sobre algo como a concessão de bênçãos às uniões homossexuais. Hoje em dia, por questões de evolução da moral e de mercado, nada impede que um casal homossexual possa viver livremente (com direito a crédito bancário, até). Mas uma coisa é a forma como a sociedade admite as uniões e outra coisa é a necessidade que a mesma sociedade tem daquelas.

A equiparação de uniões hetero e homossexuais levaria a situações que roçariam o aberrante. Teriam os casais homossexuais direito a subsídio de casamento? E, no caso de uma morte, passaria o Estado a ganhar a obrigação de pagamento de subsídio de viuvez (que é hoje um resquício de uma época em que as mulheres estavam dependentes ecnomicamente dos maridos)? O Estado pagaria por uniões estéreis, nas quais não teria rigorosamente nenhum interesse.

É válido perguntar se, devido à questão demográfica, não seria de o Estado retirar eventuais benefícios aos casais sem filhos. Mas, aí, estaríamos perante uma situação inaceitável de devassa da vida privada de cada um, exigindo uma investigação das razões que levam um casal a não ter filhos. Ora, no caso dos casais homossexuais está-se perante uma impossibilidade física de procriar. E vale pouco invocar a situação de lésbicas a quem é possível recorrer a bancos de esperma porque, também aí, se levantam questões de natureza moral ainda por resolver. Tipicamente, de um casal heterossexual o Estado espera prole; de um casal homossexual, o Estado não espera nada. Isto é essencial para entender o não-reconhecimento formal das uniões homossexuais.

Em termos práticos, o que há a ganhar com o casamento "homo"? Há direito a viver em conjunto, há direito a crédito bancário, há direito à sexualidade, há reconhecimento de uniões informais, há direito ao testamento... Que mais falta? Repito, é meramente uma questão simbólica. Aliás, não deixa de ser curioso reparar que, ao mesmo tempo que os homossexuais se lançam ao ataque ao casamento, não parecem fazer qualquer tipo de esforço para exercer um direito tão mais óbvio e natural como seja o da demonstração de afecto na via pública. Quantos homossexuais se vêem de mãos dadas nas nossas ruas? Nisto, as lésbicas parecem ser mais "atrevidas", beneficiando da tradicional intimidade física entre mulheres, decerto. Mas, não seria verdadeiramente mais importante lutar para que não fosse "necessário" criar hotéis para homossexuais, declarar Lisboa uma cidade "aberta à diferença" (o que quer que isso seja), enfim, encarar publicamente a homossexualidade como algo de "natural"? Isto no entanto, exige alguma coragem (até física) e dá certamente muito mais trabalho do que entrar em manifestações coloridas e debates patrocinados pela extrema-esquerda...
Passeando pelo álbum de recordações de umas férias grandes, encontrei esta foto tirada em Montevideu, capital do Uruguai. Às vezes, as confusões linguísticas dão resultados engraçados.

Ir ao médico faz mal?

Aquela expressão "não morrer da doença mas sim da cura" quase que se aplica ao meu caso. De repente, e em rajada, várias más experiências com médicos vieram abalar um pouco o meu optimismo relativamente aos cuidados de saúde à nossa disposição. E eu que até não tinha grandes razões de queixa e sou bastante tolerante com pequenas falhas. Eu que até consigo passar por cima daquela necessidade que há de estar sempre a "puxar" pelos médicos para que eles vão soltando alguma informação (porque, por si, dizem o mínimo possível)... Pois, eu, fiquei farto, pelo menos, até ao fim do ano.



CASO 1 (o ortopedista)

Devido a um problema de tonturas, e como parte de um processo de despistagem que já deve ter custado centenas de euros ao Estado (honra lhe seja feita), a médica de família mandou-me a uma consulta de ortopedia no Curry Cabral. Não esperei muito pela convocatória e, no dia marcado, lá fui eu. Ao fim de hora e meia de espera, pergunto na recepção se se tinham esquecido de mim ou se era normal o atraso. Responde-me a funcionária que o Sr. Dr. estava atrasado e que, infelizmente, era normal... Aguardo mais um pouco e chamam-me. Nova espera, desta feita no corredor junto ao gabinete porque o Sr. Dr. ainda estava a atender o paciente anterior. Chega a minha vez, cumprimentamo-nos fugazmente, e o Sr. Dr. murmura qualquer coisa. Como?, perguntei. "De que é que se queixa", responde ele aumentando o volume da voz para níveis de percepção humana. Explico-lhe a situação, os ossos todos estalam, tenho dores no pescoço e um problema ocasional de equilíbrio. Pergunta-me se trago radiografias e aponto-lhe o pacote que tinha colocado junto a ele. Há um breve compasso de espera durante o qual o Sr. Dr. estaria à espera de que eu pegasse nas radiografias e lhas desse em mão... Como não o fiz, ele lá pega no sobrescrito, tira a radiografia e, após uma rapidíssima observação, emite o veredicto: "não tem nada".
Argumento com os problemas de que padeço e ele insiste que não tenho nada, que não me pode dizer que tenho algo se não tenho qualquer problema. Insisto com o problema do estalar geral dos ossos, do que poderá ser... "Postura", lança ele displiscentemente, "talvez fisioterapia...". A coisa começou a fartar-me e despedi-me. No bolso levava diversas perguntas sobre assuntos que poderiam influenciar o meu conforto físico mas todas ficaram por fazer perante tamanha falta de interesse por parte do Sr. Dr.

Perdi umas horas, gastei algum dinheiro e fiquei na mesma. Ou antes, a saber que não tenho qualquer problema. À parte dos ossos estalarem violentamente e o pescoço me doer.
No caminho de saída só pensava... onde é que haverá um "endireita"?


CASO 2 (o otorrinolaringologista)

No seguimento do mesmo processo de averiguações por causa das tonturas, também por indicação da médica de família, vou a uma consulta (particular - no Estado é difícil) de otorrinolaringologia (ufa...). Pago mais de 30 euros na Junta de Freguesia de Benfica e sou atendido pelo médico. Este quer saber porque razão o fui ver, mostra-se algo espantado, assegura-me que, obviamente, não me critica a mim mas que quando se faz exames a tudo acaba-se sempre por encontrar algo e diz que preciso de uma limpeza aos ouvidos. Começa a fazê-la. Pouco depois de o tratamento começar, a coisa torna-se dolorosa devido ao facto de a cera (cerume, em linguagem técnica) estar seca e colada ao ouvido. O médico insiste em raspar os detritos e o processo deixa de ser apenas doloroso para passar a uma autêntica tortura. Eu ali, com um estilete a raspar-me o ouvido, bem lá dentro... as lágrimas a sairem-me à força toda, um ou outro "irra!", palmadas nas pernas e a necessidade de mandar o médico parar algumas vezes. Ao fim de um interminável sofrimento, o otorrino desiste do ouvido e passa ao outro. Coisa simples: a rolha saltou logo, sem qualquer luta. Volta-se à vítima inicial e... mais raspagem até que o médico me anuncia que saiu alguma pele e é melhor deixar para outro dia... que ainda ficou alguma coisa. Reparo nalgum sangue no estilete.
Receita com gotinhas para impedir uma inflamação, antibióticos, uns comprimidos para o desequilíbrio, pedidos de desculpa pelo incómodo causado, e o desejo de ver os resultados de exames feitos antes.
Saio com dores no ouvido, praticamente sem ouvir e, daí a algum tempo, já estou a tomar analgésicos para aguentar a tarde de trabalho.

Os dias passam, tomo a medicamentação prescrita e o ouvido pouco melhora. Ao fim de duas semanas, resolvo ir ao Centro de Saúde para ver se seria alguma coisa facilmente tratável ou se teria de ir largar mais umas dezenas de euros para curar os resultados do tratamento...


CASO 3 (o centro de saúde)

Chego ao Centro de Saúde de Sete-Rios e tiro a senha para marcação de consulta. Como ainda faltavam mais de dez números, resolvo beber um café e dar um passeiozinho pelas instalações. Quando chego à máquina de bebidas reparo que tudo nela está única e exclusivamente escrito em Espanhol. Portanto, a menos que esteja disposto a aprender como é que se diz "café cheio", "café com leite" e outras coisa que tais na feia língua dos nossos vizinhos, o melhor é ir a outro lugar. Se tiver problemas com o pagamento da bebida, também vai ter de se desenvencilhar em Castelhano. Isto passa-se na capital de Portugal, num serviço do Estado...
Bom, dou o meu passeio e chego ao andar onde fica o gabinete da médica. Reparo que há lá um balcão com duas senhoras e uma tabuleta a dizer "marcação de consultas". Confuso, pergunto se posso marcar ali a consulta de urgência. Respondem-me que não, que só ali estão para dar informações. Está bem...
Volto ao balcão de marcação de consultas e digo ao que venho. A senhora que me atende mostra desconhecimento sobre como falar com a médica e indica-me a colega do lado com um divertido "ela é que andou na faculdade". No momento, a piada escapou-me. Lá fiquei "atribuído" à nova funcionária que, perante a impossibilidade de falar com a médica, foi à procura da dita. Ao fim de algum tempo, voltou com a indicação de que a Sra. Dra. me atenderia ainda antes do meio-dia (eram para aí umas 9:30 horas). Custou, mas foi.


CASO 4 (a médica de família)

Um pouco antes do meio-dia, quando já todas as consultas tinham sido dadas, chegou a minha vez de ser visto. Exponho o problema e começam as perguntas. A coisa não vai à primeira. A médica pede-me pormenores e quer saber que medicamentos tomei. Digo o tipo mas falho em saber os nomes exactos. A coisa começa logo a azedar. A Sra. Dra. não quer acreditar que eu não saiba os nomes dos medicamentos e resolve dar-me um rebaixante sermão sobre o caso, ao mesmo tempo que vai dizendo que era a um otorrino que eu deveria ter ido. Ao fim de algum tempo e perante a chuva de críticas resolvo que já era demais e faço tenção de abandonar a sala. Começo a discutir com a médica e a criticá-la, absolutamente irritado pela forma como estava a ser tratado e, já quase a abrir a porta para me por a andar, ela pergunta-me se não queria ser observado. A coisa amaina. Observa-me um ouvido, observa-me o outro e o telemóvel toca-lhe. Sai da sala para o atender. O sangue ferve-me... Quando volta, traz uma colega de tom meigo à qual pede uma opinião sobre o meu estado (do ouvido). A colega vê-me, com delicadeza e, entre as duas, perante a incerteza quanto ao problema, resolvem enviar-me a uma urgência hospitalar. A colega despede-se, agradeço-lhe com o meu melhor sorriso, e fico novamente entregue à minha médica - a coisa já bastante mais serena. Dá-me a "guia de marcha" e ponho-me a andar dali para fora.


CASO 5 (o hospital)

[aqui, tenho de dizer que o blogger.com teve uma falha e tive de reimaginar e reescrever todo este ponto 5 - que dia!]

Resolvo passar pela pastelaria Baloiço, na Av. Columbano Bordalo Pinheiro, para matar a fome e recuperar o moral. Peço um néctar "light" e uma coisa parecida com bola. Dão-me o sumo e enviam para a cozinha (para aquecer) uma merenda. Chamo o empregado (patrão?) dizendo-lhe que se tinha enganado mas ignora-me. Insisto e, à segunda, consigo que me dê o que quero. Aquilo que eu julgava ser um pastel é, afinal, servido à fatia e a que me cabe em conta pouco mais larga é do que um dedo. No final, cobram-me €2,95 pela bucha. Quase seiscentos escudos por um sumo e uma fatiazinha de folhado com carnes! Dia do diabo, este.

Ponho-me a caminho do Hospital de São José, chego à Baixa e subo uma rua que mais parecia um bairro decadente de Luanda. Já no hospital, atendem-me rapidamente, tenho a surpresa de não ter de pagar nada, mandam-me ir para a triagem, chamam-me quase a seguir (pormenor: porque razão, nas urgências hospitalares, há sempre ciganos?) e sou atendido com simpatia por uma enfermeira (?) que me faz diversas perguntas sobre o meu estado. Mandam-me aguardar na sala de espera e, daí a alguns minutos, sou chamado para o gabinete de otorrinolaringologia. Ao chegar, deparo com dois médicos a conversarem animadamente com um homem "à civil". Fico um bocadinho ali, aguardando que me notem... A médica presente pergunta ao colega se ele me tinha chamado e pega no meu processo. Manda-me sentar, olha para as coisas e logo desvaloriza o caso com um "isto é cerume!". Manda-me mudar de cadeira. Começa a criticar terem-me enviado para ali (e eu a ver outro sermão a aproximar-se...), ao que eu fiz um gesto ao estilo de "isso não é comigo". Observa-me e confirma que se trata de um caso de excesso de cera e compactação da mesma. Diz-me que não fazem lavagens aos ouvidos na urgência, marca-me uma consulta para daí a uma semana e receita-me umas gotas para por nos ouvidos para amolecer a cera.

Ora bem, eis que, finalmente, chegamos às gotinhas para os ouvidos. As tão milagrosas gotas de que toda a gente a quem eu contava o meu caso me falava. O precioso líquido tão indicado na internet em casos semelhantes. As gotas! Coisa que eu já há anos tive de usar e nas quais deposito agora tanta esperança. As gotas que custam apenas €2 (dois euros) e que me podiam ter poupado duas semanas de surdez parcial, uma manhã perdida, duas idas ao médico (três, se contarmos com a consulta agora marcada), algum (pouco) dinheiro a mim e muito ao Estado e, muita, muita irritação! As gotas, porra!


Eu não tinha particulares motivos de queixa dos médicos mas esta situações conseguiram acabar com a minha paciência para com a classe nos próximos tempos. Não se arranjam por aí uns psicólogos para ensinarem os Srs. Drs. a lidarem com os pacientes? É que aquele estilo misturado de arrogância corporativista, displiscência profissional e paternalismo (às vezes, a médica de família trata-me por "ó jovem"...) é das coisas mais absolutamente irritantes que nos são dadas a provar.

E não me venham dizer que é problema só dos médicos de cá porque já vi muito bom filme estrangeiro criticando exactamente o mesmo comportamento, histórias passadas em França, Inglaterra, Roménia, Itália, Espanha...

O pior, mesmo, é que, dada a minha profissão, não me consigo ver numa situação em que me possa vingar desta malta, raios!

Quanto à médica, que se lixem os conselhos contra a automedicamentação. Receito a mim mesmo uma mudança de médica e, se for preciso, de centro de saúde.
curtas 012

Ver Keith Richards cantar no filme-concerto "Shine a light" (de Martin Scorcese) deixa-me com uma certeza: havia de gostar muito mais de Roling Stones se Mick Jagger se calasse...

De volta!

Tão perto mas ainda tão distante é o que se pode dizer do concerto dos Iron Maiden marcado para 9 de Julho, no festival Super Bock / Super Rock (versão lisboeta).

Ver este cartaz e recordar o melhor período da banda britânica, esse trio de álbuns composto por "Powerslave", "Somewhere in time" e "Seventh son of a seventh son", com a intrusão do monumental registo ao vivo que é "Live after death" (disco com o qual me iniciei nas maravilhas da distorção), é como viajar ao passado para lá encontrar os sabores da adolescência, agora temperados pelo sal de uma idade maior.

Os Iron Maiden, independentemente de um natural(?) menor fulgor em termos de composição continuam a ser a grande referência em termos de Heavy Metal, entendendo-se o termo na pureza do melhor estilo da NWOBHM.

A banda de Steve Harris construiu um lugar à parte para si, feito de excelência musical e lírica mas também de um posicionamento quase "senhorial" no que diz respeito aos "tiques" quase sempre presentes nos intérpretes de hard'n'heavy. E é essa atitude, associada a uma forte noção de espectáculo e profissionalismo que fazem de um concerto de Iron Maiden uma aposta ganha à partida.

É pena não se poder andar com o calendário para a frente. Apetecia-me que este dia grande fosse já amanhã!

Sem descanso

Já não bastavam as aparelhagens aos berros, as colunas a bombar nos automóveis e, suprema perseguição!, os telemóveis a debitarem hip-hop e kizomba nos autocarros, ainda há mentes preversas para quem tanto não basta e, vai daí, toca de inventarem roupa com colunas de som, para que os grunhos possam passear-se a, literalmente, dar-nos música.

Para quando as carreiras comerciais para a Lua?

Crescei e multiplicai-vos!

Estava eu no IKEA a preparar-me para colocar uma embalagem grande no carrinho de compras e chega uma rapariga ao pé de mim perguntando-me se precisava de ajuda, que ela segurava no carrinho. Agradeci-lhe dizendo que o difícil mesmo era puxar a caixa, que era pesada. Não se fez rogada a moça e logo me ajudou a puxar os dois metros de cartão recheado de madeira. O namorado, levantou-se de onde estava e veio segurar o carrinho. Entre os três, conseguimos por a caixa no sítio.

E eu fiquei assim meio parvo... agradeci-lhes, obviamente, mas a minha vontade era ter-lhes dado um abraço e perguntado se havia mais de onde eles vinham.
"Importam-se de ter dez filhos?", seria outra pergunta a fazer.

Às vezes (mas é mesmo só às vezes), ainda dá gosto lidar com pessoas.

Qualquer coisa por um biscoito

Este cão é um interesseiro. Apetece-me colar papéis nos postes com a foto do bicho e uns dizeres do tipo "se vir este cão, não lhe dê nada". Levei-o de férias no fim-de-semana grande, brinquei com ele, alimentei-o, deixei-o ocupar mais de metade da cama, levei-o à praia, fiquei com o carro cheio de areia, saí com ele mais de duas vezes por dia, apanhei-lhe a caquinha e quando, em plena Serra do Caldeirão, lhe pedi para pousar para umas fotos amaricadas no meio de umas flores amarelas, o que é que o gajo faz? Recusa-se!

"Senta, senta, deita, deita". Nada funcionava. Quando o bicho está assim, só há uma coisa a fazer: recorrer ao suborno.

Olhem para a carinha dele a contemplar o biscoito que tenho na mão... :)

Pelo ar é mais seguro

Que os passeios já tinham sido conquistados pelos automóveis, isso já se sabia. Que as esplanadas, em muitos sítios, também nos deixam pouco espaço para passar, também já era sabido. Que as "tralhas" dos comerciantes, os buracos no chão e as poças nos obrigam a desviar do caminho muitas vezes, também não é novidade. Agora... que ao virar de uma esquina choquemos com uma daquelas "moto-bostas" (as motos que andam a recolher a caquinha dos cães), isso é que já me deixa de boca aberta. Felizmente, tive reflexos rápidos e evitei o atropelamento que, em condições extremas me deixaria, esse sim, no chão e de boca literalmente aberta. E uma pessoa pergunta: que merda de inconsciente é que anda a acelerar por um passeio estreito, entalado entre uma parede e os carros estacionados, sem abrandar ao aproximar-se de uma esquina e, de tão bruto que é, nem sequer consegue pedir desculpa por quase passar a ferro alguém?

Apetecia-me pegar na "motocão" (é o nome oficial) mais o seu condutor e colocá-los numa camioneta do lixo, só para imaginá-los ali, às voltas...

Para que não haja dúvidas

Graças à distribuição de publicidade porta-a-porta que entope as caixas de correio de cada um com toneladas de lixo, surgiu um novo fenómeno que é o dos cestos para colocação de panfletos com os malfadados anúncios. Um pouco por todo o lado lá vão surgindo uns depósitos para que as chagas que por aí andam, tocando à campainha de prédios inteiros logo às 08:00, possam largar a sua inútil carga sem causar grande prejuizo a terceiros. Mas, aparentemente, os moradores de um prédio em Benfica (Lisboa) foram confrontados com uma espécie particularmente estúpida de distribuidor que não deve ter percebido à primeira para que servia o cestinho. Vai daí, toca de escrever em garrafais e vermelhas letras a função do objecto: "Receptáculo de publicidade". Percebo o desespero dos autores do aviso. Tenho é dúvidas quanto à compreensão do termo por parte dos distribuidores...