Aquela expressão "não morrer da doença mas sim da cura" quase que se aplica ao meu caso. De repente, e em rajada, várias más experiências com médicos vieram abalar um pouco o meu optimismo relativamente aos cuidados de saúde à nossa disposição. E eu que até não tinha grandes razões de queixa e sou bastante tolerante com pequenas falhas. Eu que até consigo passar por cima daquela necessidade que há de estar sempre a "puxar" pelos médicos para que eles vão soltando alguma informação (porque, por si, dizem o mínimo possível)... Pois, eu, fiquei farto, pelo menos, até ao fim do ano.CASO 1 (o ortopedista)
Devido a um problema de tonturas, e como parte de um processo de despistagem que já deve ter custado centenas de euros ao Estado (honra lhe seja feita), a médica de família mandou-me a uma consulta de ortopedia no Curry Cabral. Não esperei muito pela convocatória e, no dia marcado, lá fui eu. Ao fim de hora e meia de espera, pergunto na recepção se se tinham esquecido de mim ou se era normal o atraso. Responde-me a funcionária que o Sr. Dr. estava atrasado e que, infelizmente, era normal... Aguardo mais um pouco e chamam-me. Nova espera, desta feita no corredor junto ao gabinete porque o Sr. Dr. ainda estava a atender o paciente anterior. Chega a minha vez, cumprimentamo-nos fugazmente, e o Sr. Dr. murmura qualquer coisa. Como?, perguntei. "De que é que se queixa", responde ele aumentando o volume da voz para níveis de percepção humana. Explico-lhe a situação, os ossos todos estalam, tenho dores no pescoço e um problema ocasional de equilíbrio. Pergunta-me se trago radiografias e aponto-lhe o pacote que tinha colocado junto a ele. Há um breve compasso de espera durante o qual o Sr. Dr. estaria à espera de que eu pegasse nas radiografias e lhas desse em mão... Como não o fiz, ele lá pega no sobrescrito, tira a radiografia e, após uma rapidíssima observação, emite o veredicto: "não tem nada".
Argumento com os problemas de que padeço e ele insiste que não tenho nada, que não me pode dizer que tenho algo se não tenho qualquer problema. Insisto com o problema do estalar geral dos ossos, do que poderá ser... "Postura", lança ele displiscentemente, "talvez fisioterapia...". A coisa começou a fartar-me e despedi-me. No bolso levava diversas perguntas sobre assuntos que poderiam influenciar o meu conforto físico mas todas ficaram por fazer perante tamanha falta de interesse por parte do Sr. Dr.
Perdi umas horas, gastei algum dinheiro e fiquei na mesma. Ou antes, a saber que não tenho qualquer problema. À parte dos ossos estalarem violentamente e o pescoço me doer.
No caminho de saída só pensava... onde é que haverá um "endireita"?
CASO 2 (o otorrinolaringologista)
No seguimento do mesmo processo de averiguações por causa das tonturas, também por indicação da médica de família, vou a uma consulta (particular - no Estado é difícil) de otorrinolaringologia (ufa...). Pago mais de 30 euros na Junta de Freguesia de Benfica e sou atendido pelo médico. Este quer saber porque razão o fui ver, mostra-se algo espantado, assegura-me que, obviamente, não me critica a mim mas que quando se faz exames a tudo acaba-se sempre por encontrar algo e diz que preciso de uma limpeza aos ouvidos. Começa a fazê-la. Pouco depois de o tratamento começar, a coisa torna-se dolorosa devido ao facto de a cera (cerume, em linguagem técnica) estar seca e colada ao ouvido. O médico insiste em raspar os detritos e o processo deixa de ser apenas doloroso para passar a uma autêntica tortura. Eu ali, com um estilete a raspar-me o ouvido, bem lá dentro... as lágrimas a sairem-me à força toda, um ou outro "irra!", palmadas nas pernas e a necessidade de mandar o médico parar algumas vezes. Ao fim de um interminável sofrimento, o otorrino desiste do ouvido e passa ao outro. Coisa simples: a rolha saltou logo, sem qualquer luta. Volta-se à vítima inicial e... mais raspagem até que o médico me anuncia que saiu alguma pele e é melhor deixar para outro dia... que ainda ficou alguma coisa. Reparo nalgum sangue no estilete.
Receita com gotinhas para impedir uma inflamação, antibióticos, uns comprimidos para o desequilíbrio, pedidos de desculpa pelo incómodo causado, e o desejo de ver os resultados de exames feitos antes.
Saio com dores no ouvido, praticamente sem ouvir e, daí a algum tempo, já estou a tomar analgésicos para aguentar a tarde de trabalho.
Os dias passam, tomo a medicamentação prescrita e o ouvido pouco melhora. Ao fim de duas semanas, resolvo ir ao Centro de Saúde para ver se seria alguma coisa facilmente tratável ou se teria de ir largar mais umas dezenas de euros para curar os resultados do tratamento...
CASO 3 (o centro de saúde)
Chego ao Centro de Saúde de Sete-Rios e tiro a senha para marcação de consulta. Como ainda faltavam mais de dez números, resolvo beber um café e dar um passeiozinho pelas instalações. Quando chego à máquina de bebidas reparo que tudo nela está única e exclusivamente escrito em Espanhol. Portanto, a menos que esteja disposto a aprender como é que se diz "café cheio", "café com leite" e outras coisa que tais na feia língua dos nossos vizinhos, o melhor é ir a outro lugar. Se tiver problemas com o pagamento da bebida, também vai ter de se desenvencilhar em Castelhano. Isto passa-se na capital de Portugal, num serviço do Estado...
Bom, dou o meu passeio e chego ao andar onde fica o gabinete da médica. Reparo que há lá um balcão com duas senhoras e uma tabuleta a dizer "marcação de consultas". Confuso, pergunto se posso marcar ali a consulta de urgência. Respondem-me que não, que só ali estão para dar informações. Está bem...
Volto ao balcão de marcação de consultas e digo ao que venho. A senhora que me atende mostra desconhecimento sobre como falar com a médica e indica-me a colega do lado com um divertido "ela é que andou na faculdade". No momento, a piada escapou-me. Lá fiquei "atribuído" à nova funcionária que, perante a impossibilidade de falar com a médica, foi à procura da dita. Ao fim de algum tempo, voltou com a indicação de que a Sra. Dra. me atenderia ainda antes do meio-dia (eram para aí umas 9:30 horas). Custou, mas foi.
CASO 4 (a médica de família)
Um pouco antes do meio-dia, quando já todas as consultas tinham sido dadas, chegou a minha vez de ser visto. Exponho o problema e começam as perguntas. A coisa não vai à primeira. A médica pede-me pormenores e quer saber que medicamentos tomei. Digo o tipo mas falho em saber os nomes exactos. A coisa começa logo a azedar. A Sra. Dra. não quer acreditar que eu não saiba os nomes dos medicamentos e resolve dar-me um rebaixante sermão sobre o caso, ao mesmo tempo que vai dizendo que era a um otorrino que eu deveria ter ido. Ao fim de algum tempo e perante a chuva de críticas resolvo que já era demais e faço tenção de abandonar a sala. Começo a discutir com a médica e a criticá-la, absolutamente irritado pela forma como estava a ser tratado e, já quase a abrir a porta para me por a andar, ela pergunta-me se não queria ser observado. A coisa amaina. Observa-me um ouvido, observa-me o outro e o telemóvel toca-lhe. Sai da sala para o atender. O sangue ferve-me... Quando volta, traz uma colega de tom meigo à qual pede uma opinião sobre o meu estado (do ouvido). A colega vê-me, com delicadeza e, entre as duas, perante a incerteza quanto ao problema, resolvem enviar-me a uma urgência hospitalar. A colega despede-se, agradeço-lhe com o meu melhor sorriso, e fico novamente entregue à minha médica - a coisa já bastante mais serena. Dá-me a "guia de marcha" e ponho-me a andar dali para fora.
CASO 5 (o hospital)
[aqui, tenho de dizer que o blogger.com teve uma falha e tive de reimaginar e reescrever todo este ponto 5 - que dia!]
Resolvo passar pela pastelaria Baloiço, na Av. Columbano Bordalo Pinheiro, para matar a fome e recuperar o moral. Peço um néctar "light" e uma coisa parecida com bola. Dão-me o sumo e enviam para a cozinha (para aquecer) uma merenda. Chamo o empregado (patrão?) dizendo-lhe que se tinha enganado mas ignora-me. Insisto e, à segunda, consigo que me dê o que quero. Aquilo que eu julgava ser um pastel é, afinal, servido à fatia e a que me cabe em conta pouco mais larga é do que um dedo. No final, cobram-me €2,95 pela bucha. Quase seiscentos escudos por um sumo e uma fatiazinha de folhado com carnes! Dia do diabo, este.
Ponho-me a caminho do Hospital de São José, chego à Baixa e subo uma rua que mais parecia um bairro decadente de Luanda. Já no hospital, atendem-me rapidamente, tenho a surpresa de não ter de pagar nada, mandam-me ir para a triagem, chamam-me quase a seguir (pormenor: porque razão, nas urgências hospitalares, há sempre ciganos?) e sou atendido com simpatia por uma enfermeira (?) que me faz diversas perguntas sobre o meu estado. Mandam-me aguardar na sala de espera e, daí a alguns minutos, sou chamado para o gabinete de otorrinolaringologia. Ao chegar, deparo com dois médicos a conversarem animadamente com um homem "à civil". Fico um bocadinho ali, aguardando que me notem... A médica presente pergunta ao colega se ele me tinha chamado e pega no meu processo. Manda-me sentar, olha para as coisas e logo desvaloriza o caso com um "isto é cerume!". Manda-me mudar de cadeira. Começa a criticar terem-me enviado para ali (e eu a ver outro sermão a aproximar-se...), ao que eu fiz um gesto ao estilo de "isso não é comigo". Observa-me e confirma que se trata de um caso de excesso de cera e compactação da mesma. Diz-me que não fazem lavagens aos ouvidos na urgência, marca-me uma consulta para daí a uma semana e receita-me umas gotas para por nos ouvidos para amolecer a cera.
Ora bem, eis que, finalmente, chegamos às gotinhas para os ouvidos. As tão milagrosas gotas de que toda a gente a quem eu contava o meu caso me falava. O precioso líquido tão indicado na internet em casos semelhantes. As gotas! Coisa que eu já há anos tive de usar e nas quais deposito agora tanta esperança. As gotas que custam apenas €2 (dois euros) e que me podiam ter poupado duas semanas de surdez parcial, uma manhã perdida, duas idas ao médico (três, se contarmos com a consulta agora marcada), algum (pouco) dinheiro a mim e muito ao Estado e, muita, muita irritação! As gotas, porra!
Eu não tinha particulares motivos de queixa dos médicos mas esta situações conseguiram acabar com a minha paciência para com a classe nos próximos tempos. Não se arranjam por aí uns psicólogos para ensinarem os Srs. Drs. a lidarem com os pacientes? É que aquele estilo misturado de arrogância corporativista, displiscência profissional e paternalismo (às vezes, a médica de família trata-me por "ó jovem"...) é das coisas mais absolutamente irritantes que nos são dadas a provar.
E não me venham dizer que é problema só dos médicos de cá porque já vi muito bom filme estrangeiro criticando exactamente o mesmo comportamento, histórias passadas em França, Inglaterra, Roménia, Itália, Espanha...
O pior, mesmo, é que, dada a minha profissão, não me consigo ver numa situação em que me possa vingar desta malta, raios!
Quanto à médica, que se lixem os conselhos contra a automedicamentação. Receito a mim mesmo uma mudança de médica e, se for preciso, de centro de saúde.
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