Lisboa aqui longe

Há três coisas que são boas para acabar com a irritação: violência, dormir, uma caminhada. Perante a roleta russa da primeira e a impossibilidade da segunda, optei pela mais fácil - a terceira -, e que acaba por ser, de certa forma, um compromisso entre as duas opções iniciais já que é possível matar o tempo adormecendo o passo.

Decidi ir do Campo Pequeno até ao Cais do Sodré, passando por uma das minhas zonas preferidas da cidade: toda aquela que vai do Rato até ao Bairro Alto. Fim de tarde, princípio de noite, a hora primaveril confunde as duas num envolvente lusco-fusco que convida à intimidade. Na ausência de companhia, faz-se das fachadas dos prédios, das montras das lojas, do movimento nos passeios, o nosso interesse.

Cada vez me agrada mais a Lisboa velha, a imagem romântica de um andar num prédio antigo, a alma de um bairro a receber-me no conforto de uma casa debruçada sobre uma praceta qualquer onde reformados conversam no sabor do último cigarro do dia e crianças brincam despedindo-se da escola ao som da passarada que se amanha nas árvores.

Lisboa é linda e essa é uma das certezas que trago de todas as minhas viagens, independentemente de invejas sentidas em terras estrangeiras perante demonstrações excepcionais de bom gosto e requinte que me apeteça meter no bolso e transplantar para um pedaço da minha terra. No fundo, nunca cobiçamos a mulher alheia: apenas gostaríamos que a nossa mudasse um pouco.

Deixei-me ir na Rua da Escola Politécnica, passo após passo, na indecisão de saber que rumo lhes dar quando chegasse ao Largo de Camões. A indecisão foi quebrada pela contemplação do (finalmente) recuperado jardim de São Pedro de Alcântara, miradouro nobre sobre a Baixa, com o Castelo lá no alto lembrando-nos, na sua fortaleza, de que é possível aos velhos muros, aos velhos telhados, às velhas vielas resistir aos passar dos séculos e à ignorância destruidora.
Apoio-me à baixa grade que ladeia o patamar superior do jardim e fixo a colina-mãe lembrando-me de pessoas já partidas que, com idade avançada, me afiançavam nunca terem subido ao castelo. O espanto de então desvanece-se perante a constatação de que eu, nos meus 37 anos, embora tenha já ido intramuros, quase nada conheço do presépio que o povo semeou à volta das muralhas.
Como alguém que, perante uma flor, se esquece da importância do caule e da raiz, também eu me deixei sempre levar pelas cores novas das pétalas que a cidade foi dando, preferindo uma suposta sofisticação estrangeira à secular presença da cultura local.

Deixo o tempo passar enquanto os olhos vagueiam de ponto em ponto, identificando locais já conhecidos e guardando a vontade de explorar outros. Onde está aquela cúpula junto ao lanço de muralhas que desce a colina? Que rua vai lá ter? E aquilo que parece ser uma escadaria fugindo da subida do elevador da Lavra? Quem lá mora? De que cores se pintam as paredes?

Olhar Lisboa antiga faz-me querer partir à aventura. Faz-me querer ser estranho na minha terra e largar amarras, de guia turístico no bolso como se tudo fosse novo, como se da cidade só soubesse o nome. Diz-me tu, Olisipo, que caminhos me aconselhas para te conhecer?
O livro das rotas, tenho eu. Falta-me sair com ele ao mar incógnito que é essa teia aberta por entre paredes irmãs, do Torel a Alfama, da Mouraria à Graça. Nas veias abertas flui o sangue da capital do meu país. Sangue enquinado, tantas vezes, mas que brota geração atrás de geração da fonte primordial feita lenda: lusitana, fenícia, romana ou árabe, cristã ou ateia é esta cidade a minha. E eu desconheço tanto dela...

Olhar Lisboa ao anoitecer, quando as ruas se vestem de sombra e os candeeiros acordam num tímido dourado; sentir o odor que se espraia, a castanhas e a imaginárias lareiras; pousar a ideia na lembrança de um rosto bonito que nos acolhia em tempos; ouvir o burburinho das gentes que se deslocam...

Se há momento que me agrada é este: o do fim-de-tarde. Podiam os dias ser todos um longo e lânguido fim-de-dia que eu nunca me fartaria. Fecharia os olhos e ouviria o marulhar do rio junto aos cais, sentiria os últimos raios de sol projectando-se sobre Belém, imaginaria a ponte preparando o seu colar de luzes...

Abalo de São Pedro de Alcântara quando o cheiro dos primeiros grelhados pede meças aos aromas das árvores. Passo após passo, passo pelas portas dos restaurantes que se abrem a grupos de convivas. São horas de comer, são horas de beber, são horas de continuar caminhando...

Mais à frente, junto ao Teatro Municipal de São Luiz, viajo para terras distantes, a oriente da lonjura, transportado pelo odor de materiais de construção que me trazem à memória umas férias em Macau. São curiosas as associações que o olfacto nos permite...

Acompanho a linha do eléctrico e fujo-lhe para a direita, rumo a uma rua onde um designer montou uma quase nua loja de roupa, colada a um quase despido ginásio onde se vê gente que me deixa na incerteza sobre se é manequim em montra própria ou se está ali de passagem.

Chego ao Cais do Sodré e apanho o autocarro para casa. É tempo de voltar à cidade funcional, aos prédios monótonos da explosão urbana.

A poucas dezenas de metros de mim está uma placa que marca o fim da cidade. Ainda a vejo assim, do lado de cá. Oxalá nunca a veja de outra forma...

1 comentário:

Anónimo disse...

"um compromisso entre as duas opções iniciais já que é possível matar o tempo adormecendo o passo"

muito bom