O regresso dos matacões

A primeira vez que fui a um concerto de uma banda internacional foi no já longínquo ano de 1985...

O recente festival SuperBock-SuperRock fez-me ir ao baú da memória e comparar os tempos actuais com os anos 80...

Estes vinte e três anos de diferença são um período grande, marcado por enormes alterações na forma como se vive o mundo e, no caso em particular, a música.



Como é que se arranjava música e notícias?

Nos anos 80 não havia internet nem TV Cabo. A televisão passava telediscos (ainda não tinham sido renomeados "videoclips") mas o Metal, como sempre, estava arredado da exposição pública. Para remediar, havia o VHS, com coisas gravadas por quem tivesse parabólica e acesso à MTV.

O MP3 ainda não tinha sido inventado e os computadores ficavam-se por consolas de jogos. Quem queria andar a passear e a ouvir música, usava os Walkman carregados com cassetes gravadas por um amigo que já tinha aparelhagem.

Os discos de Metal, excepção feita aos melhores de entre os melhores, não tinham edições nacionais e quem os quisesse comprar ia à One Off (Amoreiras) ou à Motor/Bimotor na Praça dos Restauradores (fala-se de Lisboa). Eram os tempos do vinil e estas discotecas enchiam as suas paredes com álbuns alinhados como livros (imagine-se o seu número!).

Quem queria notícias tinha de comprar as caríssimas revistas anglo-saxónicas Kerrang! e Metal Hammer ou a francesa Hard, todas elas caras (cerca de 1.000$00 - €5). Como alternativa, ficava-se com as sobras dos colegas...



Os concertos...

A Portugal só vinham algumas (poucas) bandas e um dos negócios de então era a organização de excursões para ir ao país vizinho ver os espectáculos que teimavam em não serem feitos cá. No bolso levava-se a referência de lojas onde se compravam os álbuns a melhor preço.

Os bilhetes para os concertos que se faziam por cá eram pequenas obras de arte que se guardavam religiosamente e os preços que se pagavam por eles andavam na casa dos 1.500$00 (€7,5).

Ir a um concerto era uma espécie de aventura na qual, o mínimo que nos acontecia era ficar com um zumbido nos ouvidos durante dois dias. O pavilhão do Dramático de Cascais era o local eleito pelas empresas organizadoras para a realização de concertos (não só de Metal). Obra de cimento, sem conforto, onde qualquer tentativa de tocar boa música era sistematicamente sabotada pela falta de condições acústicas, o Pavilhão de Cascais era uma indigna catedral do Metal. Cá fora, enquanto se esperava para entrar, havia sempre distúrbios provocados pela acumulação mais ou menos desordenada de milhares de pessoas num espaço público que não estava preparado para o efeito. A segurança dos eventos era feita por praticantes de culturismo, naturalmente mal formados, que, de tempos a tempos, faziam incursões pela fila de espera para agredir alguém. Uma vez dentro do recinto, o ambiente não melhorava muito: o consumo de droga (haxixe) era omnipresente e a presença de indivíduos completamente desfeitos pelo álcool e droga era frequente. Começado o concerto, quem ficasse lá à frente tinha três preocupações: ver o espectáculo, não ficar surdo, e evitar ser agredido pelos seguranças. A brutalidade destes era tal que, num concerto de Iron Maiden, Steve Harris parou de tocar para se deitar no palco tentando chegar a um segurança que agredia um rapaz que tinha sido "atirado" por outros para o corredor que separava o palco do público. A questão resolveu-se com a substituição dos seguranças por pessoal da comitiva da banda!

Terminado o evento, era altura de outro espectáculo: o da saída e regresso a casa. Desde logo, quando as portas do pavilhão se abriam, era-se brindado com a visão de dezenas de agentes da polícia de choque, completamente equipados e alinhados em formação de "combate". Seguia-se para o centro da vila de Cascais e apanhava-se o (último) combóio para Lisboa. Era tanta a gente que muitos nem compravam bilhete. As carruagens vinham apinhadas e, ocasionalmente, alguém puxava o travão de alarme o que atrasava muito a chegada a Lisboa onde, com grande probabilidade, já não havia transportes a funcionarem.



Hoje...

Como se pode ver, os tempos mudaram bastante e, por maiores que sejam as críticas que se possam fazer às actuais organizações, estamos em níveis de conforto e qualidade a anos-luz dos que existiam há vinte e tal anos. Hoje em dia sentamo-nos em cadeiras, temos casas de banho minimamente limpas, os recintos são feitos com preocupações acústicas, há transportes para voltar a casa e os espectadores começaram a ser mais respeitados. Os preços aumentaram? Certamente. Mas, tirando a cerveja, que tem mantido os preços desde há imensos anos (imaginem o que seria dar 300$00 por uma imperial quando se era um adolescente nos anos 80/90), tudo tem visto os preços subirem.

E, no entanto, no último SuperBock-SuperRock, uma nota de preocupação veio estragar a minha festa... Chegar à entrada do recinto e ser recebido por uma fila de matacões (para além de outros que circulavam lá por dentro) fez acordar em mim o fantasma de uma das piores características dos velhos tempos. A existência desta gente - que não vi em duas vezes que fui à primeira edição do Rock in Rio Lisboa e que nunca vi no Pavilhão Atlântico -, é um afronta ao público pagante e ao cidadão em si mesmo já que constitui uma autêntica ameaça de agressão ("vê como sou forte - não te portas bem, levas porrada"). Não quero voltar a ver cenas como as que vi em Cascais onde, num concerto de Judas Priest, um rapaz chegou a desmaiar por bater com a cabeça no chão ao ser puxado (!) do público por um segurança que recebia toda a gente ao soco. Não quero aceitar que, à entrada de um espectáculo, eu tenha de ser olhado como uma porcaria que vai ali para arranjar problemas. Até porque, se há quem goste de arranjar problemas, é alguma da gente que se dedica aos negócios da "segurança".

No Coliseu, no Atlântico, no Cineteatro de Corroios não há mais seguranças destes, "à antiga". Em Corroios, inclusivamente, apenas um rapaz toma conta do estreito espaço que separa o público das bandas. E, diz-me a experiência, que raramente há algum problema e, quando ele acontece, é mais por causa da falta de compreensão do fenómeno musical por parte dos seguranças do que por excesso de "militantismo" por parte dos fans.

Aliás, não deixa de ser curioso reparar que, já durante a exibição dos Tara Perdida, houve uma cena de pugilato entre dois espectadores e nenhum segurança apareceu...

A recepção do SuperBock-SuperRock chocou-me. Gostava de ver os gloriosos anos 80 voltarem na força dos melhores álbuns dos Iron Maiden, Helloween, WASP e tantas outras bandas mas, no que diz respeito a concertos, deixem-me ficar no Séc. XXI, por favor!

Finalmente, fica uma nota para a PSP (sempre tão pronta a mostrar cara feia nestas alturas). Tive o desprazer de apanhar à entrada com um agente (rapaz novo) que não me revistou, olhou para a minha mochila e não ligou nenhuma aos volumes que eu lá trazia (duas caixas de óculos, uma caixa de binóculos e uma bolsa com máquina fotográfica) para focar toda a sua atenção numa caixa transparente com tampões para os ouvidos e - isto é de gritos! - nuns papelinhos que eu levava para por nos pára-brisas dos carros. "O que é isto? Isto é para quê? Para distribuir onde?" perguntava, revirando os papéis. Perante a minha mentira de que seria para distribuir no combóio, lá me deixou passar, com um gesto de "ponha-se lá a andar" e um comentário de "não sei se pode entrar com isto". De repente, mais do que nos anos 80, senti-me transportado por este "pidesco" mas jovem polícia para os anos 60 onde, aí sim, a a palavra era uma arma.

2 comentários:

Anónimo disse...

tou perfeitamente de acordo contigo!!! e tou desconfiado k tiveste no dramatico de caicais em 86 a ver iron maiden e wasp... comfirmas?

Rui Franco disse...

Para luizak67.blogspot.com: nem mais! :)