Dois socos na mesa

"O aluno deu dois socos na mesa". Assim... desta forma simples se resume o que aconteceu numa escola na Maia (Maia! Não é Damaia...). Esta é uma das notícias no noticiário da RTP. Pelos vistos, também o foi ontem e até deu azo a que uma responsável qualquer da burocracia estatal se deslocasse às instalações do canal televisivo para responder a perguntas que, logo se vê, eram prementes de fazer: o país estava sedento de explicações sobre este novo caso de "violência escolar".

Vamos lá descer à terra. Numa aula, qualquer coisa corre mal, um aluno irrita-se, dá dois socos na mesa e a professora vê-se obrigada a chamar uns colegas para o por fora da sala. Assim de repente, não passa de (mais um) caso de indisciplina na sala de aulas. É grave? Houve feridos ou mortos? Houve prejuizos materiais? Em que é que isto é diferente de tantas outras curriqueiras situações de indisciplina? Há mais de vinte anos, presenciava eu situações idênticas no meu liceu e nunca as coisas passaram dos muros da escola. Porquê, então, este novo apetite, esta nova histeria da comunicação social perante coisas tão - repito a palavra -, curriqueiras?

O aluno deu dois socos na mesa... É um anti-social, um psicopata, mandem-no para a prisão, ressuscitem o Tarrafal, façam qualquer coisa! O aluno deu dois socos na mesa, o país está no caos, o Presidente da República não se pronuncia? A culpa é do Governo, da União Europeia, venha a Espanha, queremos ordem e progresso (não, brasileiros não), aqui d'El-Rei, chamem a guarda, Deus que mande o Cristo, o aluno deu dois socos na mesa!

Quando um dia tudo isto der o berro, alguém lá fora escreverá um livro sobre o papel da comunicação social no rebentamento deste país.

Um aluno deu dois socos na mesa... Notícia a nível nacional.

O jardim da Fundação Gulbenkian está a ficar modernaço: até já tem vagabundos e tudo. Fixe!

Não sei o que é isso!

Cheio de vontade de beber uma cervejola, entro num "snack" de centro comercial. Enquanto espero que me atendam, olho para a lista de preços. Decido pedir uma caneca.

- Uma caneca, por favor.

A empregada olha para mim com um ar incrédulo
- Uma caneca? Nós não temos disso!

- Não têm? - pergunto - está na lista.

- Ah, está? Mas eu não sei o que é isso!

Começa a passar-me uma coisa pela frente. Contenho-me. A rapariga abre o armário dos copos e retira dois, de tamanhos diferentes. Mostra-me o maior.
- É isto? 33cl?

- Não sei. - digo - Deve saber isso melhor do que eu, não é?

- Pois... só se for este...

Uma outra cliente intervém.
- É esse, 33cl, vocês é que não têm canecas.

- Pois... - retoma a empregada - deve ser este.

- Deixe lá - corto -, dê-me uma imperial.

- Mas...

- Bebo uma imperial, deixe lá isso.

Às vezes, apetece-me fechar os olhos e acordar...

Café das estrelas

Apesar das viagens que já fiz, nunca tinha entrado em qualquer estabelecimento da cadeia de cafés Starbucks. Se o fiz, foi involuntariamente e, já se vê, não foi coisa que me marcasse.
Em Portugal, até há muito pouco tempo, não havia qualquer café desta marca que já está espalhada por um ror de países mas, como em quase tudo, não há espera que não dê fruto. O primeiro abriu no centro comercial Allegro, nos arredores de Lisboa. Resolvi, experimentar. Aproveitando uma ida ao local, lá entrei no espaço (bem agradável) onde tudo está feito para ter um ar confortável e caseiro, o ar que os cafés anglo-saxónicos tanto gostam de exibir: prateleiras com canecas, vitrinas com bolos à fatia, sofás, mesinhas redondas e cadeiras de madeira. Até aqui: tudo aprovado. Olho para os “menus” e vejo que as bebidas (não sei quantas misturas à base de café) têm todas nomes em “estrangeiro”. Mmm... Os bolos, idem idem, aspas aspas. Quem quiser comer, tem de aprender a dizer “cookie” e “brownie”. Quem quiser beber, que aprenda a dizer “Caramel Machiatto” e “Moca Frappé”. Quem quiser pagar, que aprenda a conter a língua... É que a globalização não se fica pelos nomes das coisas e impõe que também os preços se equivalham. E isto porque um “cookie” (que mais não é que uma bolacha grandinha e mole) custa €1,70 e uma caneca de “Caramel Machiatto” fica por uns módicos €3,10 (estamos a falar da medida mais pequena). Ou seja, um pequeno-almoço ficou-me em €4,80 - pouco menos do que um menu de almoço.

E valeu a pena? Pela curiosidade sim. O café misturado com leite e caramelo era inegavelmente agradável (dizer mais já seria exagero) mas o “cookie” de caramelo já era uma coisa sensaborona. No entanto, os preços não convidam a ataques frequentes de curiosidade. É certo que, se uma bica já custa (pelo menos) €0,50, uma caneca terá várias vezes esta quantidade e, no fim, €3,10 acaba por não ser caro. Simplesmente, cinquenta cêntimos é coisa que não custa a dar e não dói, enquanto que seiscentos e vinte escudos por uma caneca de café, já é coisa que bate forte. Em Londres, Paris ou Nova Iorque, semelhantes preços podem ser banais mas, para o nosso nível de vida, não julgo que sejam.

Outra coisa que me desagradou, por me parecer absolutamente forçada e deslocada da nossa cultura foi o ridículo pormenor de nos perguntarem o nome no momento da encomenda. Para quê, pergunta-se? Porque cargas de água é que tenho de dizer o meu nome para encomendar um café e um bolo? Para uma coisa muito simples: para que a empregada que atende possa dizer à que prepara as coisas “Um café para o António!”, “Um cookie e um expresso para a Maria!”. Finalmente, quando nos entregam as coisas (no fim do balcão), chamam-nos novamente: “José, o seu café”. Pois... onde é que eu já vi esta familiaridade forçada? No Holmes Place, de má memória para mim.
Ora, se há coisa que eu não sou é pretencioso. Gosto de dar confiança q.b. às pessoas, gosto de as por à vontade comigo. Do que eu não gosto é que se ponham à vontade comigo por “decreto”.
Quando entro num café, quero comer e beber e não participar num qualquer conceito artificial e oco de familiaridade entre cliente e empregado. Até porque a coisa ganha contornos ainda mais estúpidos quando somos atendidos (como foi o caso) por uma empregada assim para o trombudo. Já que querem aplicar cá conceitos importados, podiam começar pela simpatia com que somos atendidos neste tipo de estabelecimentos lá fora. É que, ainda recentemente, passei 18 dias em França e se houve coisa que me saltou à vista foi a forma como somos recebidos e atendidos num estabelecimento comercial, seja ele o McDonalds ou uma papelaria: “Bom-dia! O que deseja?”, “Muito obrigado, senhor. Até à próxima! Bom-dia para si”. Convenhamos que um sorriso e um “olá” têm certamente mais importância para a nossa “experiência de consumo” do que ter alguém que não conhecemos de parte alguma a tratar-nos pelo nome próprio.

“Qual é o seu nome?” - perguntou a rapariga. “Pode ser Zé Manel”, respondi. “Um café para o José”, pediu ela. Se um dia lá voltar (pouco provável), hei-de dizer que me chamo “Mamaqui”...
À saída do cinema, uma rapariga distribuia panfletos aos transeuntes. Ao contrário do que é costume, não disse que não, nem deitei fora o papel quando ela mo deu. Tive curiosidade e li. Ainda bem que o fiz: era um papel alusivo a uns "Prémios Precariedade", criados para denunciar a precariedade no mercado laboral em Portugal. Guardei-o com curiosidade de ver o site que lá vinha indicado. Temos coisa à Globos de Ouro mas cujos nomeados são "patrões" e políticos.

A iniciativa cheira a extrema-esquerda mas a verdade é que está gira e bem feita e merece uma visita, quanto mais não seja para ver os vídeos dos nomeados.

Vá lá, dê um pulo até www.premiosprecariedade.net e vote.
É curioso como, mesmo em "modo aberração", um gatinho é sempre bonito :)
O site br.msn.com, horas antes do jogo amigável entre o Brasil e Portugal (em Brasília), coloca à disposição dos visitantes uma votação relativa ao melhor jogador (do encontro?) e escolhe quatro fotografias. Curiosamente, todas elas de brasileiros :)

Chauvinismo tropical?


Toda a gente que mexe com imagem sabe da importância de ter uma iluminação correcta. No caso deste cartaz de cinema, pode-se dizer que a luz veio trazer algo de "novo" à imagem :)

Lusotango


Bonito, bonito, foi o concerto dos Lusotango, na Central Tejo, no âmbito da exposição Remade in Portugal. Evento para algumas dezenas de pessoas que tiveram a curiosidade (eu) ou a sorte de já conhecer o grupo. A repetir, sem dúvida e, de preferência, com bailarinos porque ontem não os houve.

Fica aqui um vídeo, para abrir o apetite para futuros tangos.