Apesar das viagens que já fiz, nunca tinha entrado em qualquer estabelecimento da cadeia de cafés Starbucks. Se o fiz, foi involuntariamente e, já se vê, não foi coisa que me marcasse. Em Portugal, até há muito pouco tempo, não havia qualquer café desta marca que já está espalhada por um ror de países mas, como em quase tudo, não há espera que não dê fruto. O primeiro abriu no centro comercial Allegro, nos arredores de Lisboa. Resolvi, experimentar. Aproveitando uma ida ao local, lá entrei no espaço (bem agradável) onde tudo está feito para ter um ar confortável e caseiro, o ar que os cafés anglo-saxónicos tanto gostam de exibir: prateleiras com canecas, vitrinas com bolos à fatia, sofás, mesinhas redondas e cadeiras de madeira. Até aqui: tudo aprovado. Olho para os “menus” e vejo que as bebidas (não sei quantas misturas à base de café) têm todas nomes em “estrangeiro”. Mmm... Os bolos, idem idem, aspas aspas. Quem quiser comer, tem de aprender a dizer “cookie” e “brownie”. Quem quiser beber, que aprenda a dizer “Caramel Machiatto” e “Moca Frappé”. Quem quiser pagar, que aprenda a conter a língua... É que a globalização não se fica pelos nomes das coisas e impõe que também os preços se equivalham. E isto porque um “cookie” (que mais não é que uma bolacha grandinha e mole) custa €1,70 e uma caneca de “Caramel Machiatto” fica por uns módicos €3,10 (estamos a falar da medida mais pequena). Ou seja, um pequeno-almoço ficou-me em €4,80 - pouco menos do que um menu de almoço.
E valeu a pena? Pela curiosidade sim. O café misturado com leite e caramelo era inegavelmente agradável (dizer mais já seria exagero) mas o “cookie” de caramelo já era uma coisa sensaborona. No entanto, os preços não convidam a ataques frequentes de curiosidade. É certo que, se uma bica já custa (pelo menos) €0,50, uma caneca terá várias vezes esta quantidade e, no fim, €3,10 acaba por não ser caro. Simplesmente, cinquenta cêntimos é coisa que não custa a dar e não dói, enquanto que seiscentos e vinte escudos por uma caneca de café, já é coisa que bate forte. Em Londres, Paris ou Nova Iorque, semelhantes preços podem ser banais mas, para o nosso nível de vida, não julgo que sejam.
Outra coisa que me desagradou, por me parecer absolutamente forçada e deslocada da nossa cultura foi o ridículo pormenor de nos perguntarem o nome no momento da encomenda. Para quê, pergunta-se? Porque cargas de água é que tenho de dizer o meu nome para encomendar um café e um bolo? Para uma coisa muito simples: para que a empregada que atende possa dizer à que prepara as coisas “Um café para o António!”, “Um cookie e um expresso para a Maria!”. Finalmente, quando nos entregam as coisas (no fim do balcão), chamam-nos novamente: “José, o seu café”. Pois... onde é que eu já vi esta familiaridade forçada? No Holmes Place, de má memória para mim.
Ora, se há coisa que eu não sou é pretencioso. Gosto de dar confiança q.b. às pessoas, gosto de as por à vontade comigo. Do que eu não gosto é que se ponham à vontade comigo por “decreto”.
Quando entro num café, quero comer e beber e não participar num qualquer conceito artificial e oco de familiaridade entre cliente e empregado. Até porque a coisa ganha contornos ainda mais estúpidos quando somos atendidos (como foi o caso) por uma empregada assim para o trombudo. Já que querem aplicar cá conceitos importados, podiam começar pela simpatia com que somos atendidos neste tipo de estabelecimentos lá fora. É que, ainda recentemente, passei 18 dias em França e se houve coisa que me saltou à vista foi a forma como somos recebidos e atendidos num estabelecimento comercial, seja ele o McDonalds ou uma papelaria: “Bom-dia! O que deseja?”, “Muito obrigado, senhor. Até à próxima! Bom-dia para si”. Convenhamos que um sorriso e um “olá” têm certamente mais importância para a nossa “experiência de consumo” do que ter alguém que não conhecemos de parte alguma a tratar-nos pelo nome próprio.
“Qual é o seu nome?” - perguntou a rapariga. “Pode ser Zé Manel”, respondi. “Um café para o José”, pediu ela. Se um dia lá voltar (pouco provável), hei-de dizer que me chamo “Mamaqui”...
1 comentário:
Mamaqui, o seu café!
LOL
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