Paul di'Anno em Corroios

A noite de 14 de Fevereiro tinha nome. Fugindo à condição anónima do tempo, esta chamava-se "Paul di'Anno".

O nome de sonoridade italiana esconderá dos menos atentos a origem da criatura mas qualquer consulta à memória colectiva do género metálico trará ao de cimo a lembrança do primeiro vocalista dos Iron Maiden. Mais do que a mascote Eddie, foi di'Anno a cara inicial da banda: magro e elegante, de cabelo curto (contrastando com as longas cabeleiras dos restantes elementos da banda), gostando de cantar de tronco nu, com um estilo muito próprio, não muito poderoso, capaz de acompanhar bem momentos mais suaves mas também de por raiva na voz que preenche os dois primeiros álbuns da mais emblemática banda de Heavy Metal. Eram os tempos do punk e talvez a isso se devesse a imagem pouco "metaleira" da personagem.

Depois veio o álcool, o desregramento, a incompatibilidade com uma banda que se queria responsável e profissional..

A saída de di'Anno deu-nos Bruce Dickinson pelo que o mundo não se pode queixar. Mas di'Anno ficou sempre com uma certa aura de mito, pelo menos junto de quem não acompanhou o longo período entretanto passado. Para esses, a imagem actual do homem poderá ser chocante: o cabelo preto deu lugar a uma careca tatuada, a elegância de outrora foi substituída por farta gordura, os piercings e as tatuagens são vários e todo um ar decadente tomou conta do homem.

E o cantor, continua? Parece que sim: o acidente de mota que o deixou coxo e lhe levou a ponta de um dedo ("amputação!" dizia ele enquanto espetava um mínimo para o público) e a má forma não impediram que Paul di'Anno, a convite dos portugueses Attick Demons (banda a acompanhar!) trouxesse, pela primeira vez a Portugal, um cheiro dos tempos iniciais da NWOBHM na versão da dama de ferro. Houve qualquer coisa de arrepiante ao ouvir os acordes de "The ides of march", seguidos de Wrathchild, Sanctuary, Killers e outras (num total de meia-dúzia de temas). Não eram os Iron Maiden de 1978 que ali estavam mas era como se fosse.

A voz, o elemento mais humano da uma banda era exactamente a mesma e a competência técnica dos Attick Demons encarregava-se de nos "enganar" e ajudar ao disfarce. Fechássemos os olhos e o tempo teria voltado para trás para só ser o encanto quebrado quando os abríssemos de novo e contemplássemos os estragos do vício. Di'Anno, envergando uma roçada camisola dos Ratos de Porão (talvez herdada da sua estadia no Brasil) era a imagem da decadência, um estado sintetizado por ele com um curto "eu gosto é de álcool, sexo e motas". Parece que sempre foi assim e isso valeu-lhe a expulsão dos Iron Maiden. Estes, cresceram até se tornarem uma verdadeira instituição a ponto de se confundirem com o próprio estilo musical que praticam; di'Anno toca em "antros" com pouca gente...

Mais triste do que a constatação da diferença de percursos entre di'Anno e os IM talvez só a pouca afluência de público ao Cineteatro de Corroios, a actual "catedral" da música pesada. No total, talvez não estivessem, sequer 200 pessoas. Muito pouco se atendermos a que tocavam três bandas nacionais (Drakkar, Artworx e Attick Demons) e uma personagem tão chamativa quanto "o primeiro vocalista dos Iron Maiden", ligação tão assumida que até as próprias letras com que o nome de di'Anno é escrito são as do tipo gráfico da banda inglesa.

O que terá falhado? O Heavy Metal, puro e duro, já não chama gente? Ver-se-á no "festival" marcado para 17 de Março no Atlântico, encabeçado pelos "metal gods" Judas Priest, tal como se viu no último SBSR com, precisamente, a antiga banda de di'Anno.

No fim do concerto, o público manteve-se no local na expectativa de ouvir mais mas di'Anno não acedeu aos pedidos que, certamente, lhe faziam nos bastidores. Compreende-se e espera-se que o inglês possa voltar ao nosso país para um concerto só seu, numa boa forma que lhe permita não ter medo dos fans que sobem ao palco (o coxear, para além do acidente de mota de que foi vítima, também foi agravado pelos "entusiasmos" de alguns fans num concerto anterior).

Ficou da curta presença do inglês com nome italiano a lembrança de meia-dúzia de grandes canções que temos tendência a esquecer. A primeira fase dos Iron Maiden já está tão distante que mais parece arqueologia mas... será que isso não faz parte do encanto?

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