O Quarteto fechou

O Quarteto fechou. A noticia não é fresca, nem sequer requentada. Abandonada que estava numa qualquer prateleira da memória, dei hoje de caras com ela quando, a caminho de outro cinema, passei junto ao hollywoodesco sinal luminoso plantado na Av. dos EUA. À direita, por trás de uma das características "unidades de habitação" existentes ali, espreitava o edifício beige, com o seu logotipo preto e a orgulhosa mensagem a todo o comprimento proclamando aquilo que, na altura da abertura do espaço, era a sua "vantagem estratégica": quatro salas, quatro filmes. Hoje em dia, em era de multiplexes com 16 salas, semelhante capacidade só pode fazer-nos esboçar um sorriso condescendente perante a "pobreza franciscana" em que os nossos pais e tios viveram as suas juventudes. Mas o Quarteto, apesar de todas as mudanças pós-adesão à CEE, manteve o letreiro, quando muito porque, apesar de desfasado da nova realidade não deixava de ser fiel à verdade. As salas lá estavam, e eram as mais escuras de Lisboa, o que talvez tenha contribuído para a pouco abonatória fama do Quarteto como local de engate para homossexuais. Boatos (ou não) à parte, o local era emblemático para a comunidade cinéfila, entranhado que estava das marcas de um tempo em que o cinema, sendo a indústria que sempre foi, não nos era, ainda, servido de forma anónima, com sabor a coca-cola e ruído de pipocas. Nos tempos do Quarteto, "saía-se" para ir ao cinema. Ir às fitas, mais do que uma distração, era fazer parte de um evento, de algo que marcava uma fuga ao dia-a-dia.

Curiosamente, nunca fui grande frequentador do local. A falta de conforto das salas, aliada à então inexistência de um certo sentido estético que me permitisse "sentir" aquele cinema, sempre me fez preterir o Quarteto em prol de outras salas. Quando rebusco as memórias tentando sacar do esquecimento algumas idas ao "quatro salas, quatro filmes", só me vêm à lembrança duas ocasiões: a primeira, quando fui ver um péssimo filme e lhe prestei muita atenção e, a segunda, quando fui ver um óptimo filme e não lhe liguei nenhuma! A primeira película era o inenarrável "Striptease", com a plástica Demi Moore e o seu silicónico peito saltando à minha frente no que, se bem me lembro, era um qualquer dramalhão que tentava agradar a gregos e troianos - entenda-se, homens e mulheres. Apenas um pequeno grupo de amigos, no meio dos quais me sentava, serviu de barreira a que eu fugisse da sala. Já com "Ed Wood", uma Fátima, de bonitos cabelos negros, encarregou-se de dar cor àquilo que, de outra forma, teriam sido 90 minutos a preto e branco. Perdi um filme mas adorei as fitas... Só anos depois vi, efectivamente, o filme de Burton.

Hoje olho para as grades corridas sobre a entrada do Quarteto e sinto o vazio que ali está. A placa de "vende-se" não deixa esperanças quanto ao reacordar do cinema. O desligar do écran foi definitivo e tento recordar o foyer, o seu chão escuro onde
se espalhavam algumas mesas de café, rodeadas de cartazes de filmes passados. Num canto, um bar servia-nos fatias de bolo, café e bebidas espirituosas. Tudo ali era de outro tempo, uma memória viva da época da inauguração, um voltar atrás que, agora, já não é possível.

Quando espaços como o Quarteto desaparecem, por força da implacável lei do lucro ajudada por outras leis que nos querem fazer reféns de um medo de tudo (da doença, do fumo, dos outros), quando eles desaparecem - dizia eu -, não é só a comunidade mais ou menos fiel de seus utilizadores que perde, é a Comunidade, no seu sentido mais lato que se vê privada de uma alternativa, de uma casa-segura onde qualquer coisa que não seja a versão pronto-a-consumir do mundo que nos querem impor, possa ser possível. Locais como o Quarteto guardavam dentro de si um carácter que não se consegue em centros comerciais escorrendo "cultura" adolescente. Se quisermos ir mais fundo, encontraremos na morte do Quarteto as razões que nos devem alimentar a resistência a planos como o da oferta de bilhetes a assinantes de tv por cabo ou quaisquer outros que a guerra pelo lucro queira inventar. Quando Paulo Branco se insurgiu contra a "grande ideia" da Lusomundo, mais do que lutar pela sobrevivência do seu próprio grupo, estava a lutar (involuntariamente ou não) pelo direito ao cinema enquanto união de espaço e espectáculo, de forma e conteúdo.

Lisboa já perdeu muitas salas. Desde a minha infância (anos 70), vi desaparecer o Berna para a TVI (agora abandonado), o Paris (em ruínas), o Quarteto (fechado), o Monumental (demolido), o Império (nas mãos da IURD), o Caleidoscópio, o Bélgica (depois, Rock Rendez-vous e, posteriormente demolido) , o Europa (usado para a TV) e vários outros. Se nalguns casos, como o Berna, dificilmente se poderia alegar uma grande perda, noutros, dos quais é exemplo maior a criminosa demolição do Monumental, há a efectiva obliteração de património arquitectónico. Não é apenas a perda de salas de projecção (mal, em si mesmo menor) mas a destruição pura e dura de marcos urbanos e das vivências por si proporcionadas.

O Quarteto já está à venda há algum tempo. É uma questão de espera, apenas. Mesmo que qualquer ideia de continuação do espaço pudesse surgir, o corte certamente imporia alterações desvirtuantes. Se, no meio dos cacos, alguma coisa se salvar, que seja, ao menos, aquele anúncio na avenida, apontando para um espaço que já não existirá, como quem nos lembra que tal como um filme, também tudo na vida acaba com um "the end".

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