Os senhores do caos

Quando pensamos em determinados países, imediatamente se forma à nossa frente um quadro composto de lugares-comuns ditados pela imagem que a comunicação social nos dá dos povos que habitam naqueles... dos seus hábitos, dos seus feitos culturais, dos produtos que a terra dá, etc. O Brasil é um país de samba, futebol e praia; a França empilha queijos e garrafas de vinho junto à Torre Eiffel; a América vive para comer hamburgueres e andar aos tiros; os Russos têm vodka no lugar do sangue... E por aí adiante.

Escapando um pouco a esta tendência, determinados países, por força do pouco conhecimento que se tem deles, não chegam a ocupar um lugar marcante no nosso imaginário, vivendo numa semiobscuridade sobre a qual só ocasionalmente se faz alguma luz. Da Noruega sabemos que vem o bacalhau e pouco mais. Vive-se lá bem, dizem os estudos económicos e fica por aí o conhecimento do cidadão médio. Mas... eis que, em meados dos anos 90, um pequeníssimo grupo de adolescentes e jovens adultos noruegueses, influenciados pelo que se tinha convencionado chamar Black Metal, surgido à volta de nomes como os Venom e os Mercyful Fate (depois King Diamond), resolve dar um passo na direcção do extremismo sonoro, abdicando da "suavidade" musical que o Heavy Metal praticado pelos nomes anteriormente indicados tinha e deles extraindo, apenas, o imaginário feito de referências às "artes negras" e à violência, ou seja, o conteúdo temático que transformava o comum "Heavy" em "Black". Ninguém imaginaria, então, que as diversas bandas que se formaram iriam, com o seu pesadelo sonoro feito da quase ausência de musicalidade e letras gritadas e guinchadas, colocar a Noruega no clube dos estereótipos.

Hoje em dia, qualquer fan de Metal associa o próspero país nórdico ao Black Metal, da mesma forma que nenhum apreciador de Jazz deixará de pensar nos EUA quando ouve a sua música de eleição. A Noruega passou, portanto, a ser a pátria do bacalhau e daqueles tipos de cara pintada de branco...

Mas, o que foi e o que é o fenómeno do Black Metal Norueguês? Como começou? Porque razão nasceu e cresceu a ponto de ser considerado uma verdadeira ameaça pelas autoridades nacionais? Em que medida afectou a sociedade? São perguntas como estas que o americano Michael Moynihan e o norueguês Didrik Soderlind fizeram e às quais tentaram responder na sua obra "Lords of Chaos: The Bloody Rise of the Satanic Metal Underground". A primeira edição remonta já ao distante ano de 1998 mas, em 2003 houve uma reedição, com a inclusão de algum material e a actualização de outro. Livro bem escrito, feito em grande parte de entrevistas aos intervenientes nos momentos mais
dramáticos do movimento (os assassínios de pelo menos duas pessoas e os incêndios em dezenas de igrejas), nunca deixando de manter uma exemplar objectividade e imparcialidade perante todas as partes envolvidas - fossem elas os músicos, as autoridades ou a igreja -, fazendo um interessantíssimo enquadramento histórico das tradições folclóricas de diversos povos (com particular enfoque na mitologia nórdica) e nunca procurando qualquer tipo de sensacionalismo que mataria, à nascença, a credibilidade da obra.

Ironicamente, o livro ganha o seu nome (Lords of Chaos) a partir de um episódio com origem num grupo de adolescentes americanos que se entregaram ao terrorismo urbano, naquele que é, provavelmente, o único momento menos conseguido do livro por via da inexistência de associação ao Black Metal. Esquecendo este pormenor, os autores procuraram as ligações existentes entre o BM norueguês e movimentos similares nos países vizinhos, com particular destaque para a Suécia e a Alemanha, expondo uma teia de ligações perigosas entre violência musical e política (como é o caso da aliança informal entre grupos racistas e os defensores do inferno na terra através da música), nunca perdendo de vista a contextualização de todos os eventos e, sobretudo, evitando juízos de natureza moral.

Tendo sido um trabalho jornalístico que prima pela frieza dos factos, a obra em consideração torna-se indispensável para quem queira compreender o fenómeno do Black Metal em geral e da sua versão mais extrema em particular, surgida numa sociedade que as páginas de "Lords of Chaos" acabam por denunciar como extremamente conservadora e ferida de contradições incompreensíveis para o entendimento estrangeiro. Como exemplo disto, refira-se aqui o caso dos desenhos animados cuja exibição na TV foi interrompida por uma das personagens ter uma pistola, enquanto o comum dos cidadãos tem acesso fácil e legal a armas de fogo...

No decurso do livro, duas personagens surgem como pilares, não só da narrativa, mas também do fenómeno em si mesmo: Vark (ex-Kristian) Vikernes e Øystein Aarseth (mais conhecido pelo nome de guerra "Euronymous"). O primeiro, membro único da "banda" Burzum e o segundo, líder incontestado dos Mayhem, hoje apontados como os criadores do movimento. Vark e Euronymus, o assassino e a vítima. Negócios, traição, luta pelo poder, crime, ciúmes... de todos estes ingredientes novelescos se enchem as páginas de "Lords of Chaos", a ponto da luta pessoal entre estes dois homens se confundir com o próprio objecto da obra.

Os crimes de sangue, os crimes contra o património, os crimes comuns, os crimes contra o bom gosto (acrescento eu)... a história inicial do Black Metal Noruguês é feita de excessos atrás de excessos, de mentes alteradas, de ideias e ideais brutais, de imposições ridículas (rir era mal visto porque não era "malévolo") e de comportamentos de fachada cuja denúncia acaba por devolver aos intervenientes uma espécie de humanidade que se julgaria de outra forma impossível.

"Lords of Chaos" não é um livro sobre música. É uma obra sobre a sociedade e sobre a forma como a mesma influencia a música e é, por sua vez, por ela contaminada. É a exposição (e não denúncia) da interpenetração de correntes filosóficas (satanismo, individualismo), religiosas (cristianismo, paganismo), culturais (a mitologia e o folcore nórdicos) e políticas (nazismo, nacionalismo) que, numa amálgama por vezes difícil de justificar, originaram um movimento "underground" que ultrapassou a barreira "teatral" do espectáculo para sair à rua e marcar com violência e fogo um território próprio contruído pela sublimação da negação e da oposição aos valores instituídos.

"Lords of Chaos: The Bloody Rise of the Satanic Metal Underground" - uma leitura fundamental!

1 comentário:

V disse...

epah ò catinga escreveste muito desta vez.

olha nunca vi mas dizem que é bom...

http://www.amazon.co.uk/Metal-Headbangers-Journey-DVD/dp/B000FS9OZY/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1235865586&sr=8-1