Lutar pela dignidade

Quando Portugal transferiu a administração de Macau para a China, já se sabia que muita coisa iria mudar. Desde logo, mudaram os símbolos nacionais nos edifícios públicos, prontamente arrancados a décadas de domínio com golpes de martelo. Terão mudado, de seguida, muitos hábitos, depois, as pessoas, até que a Macau de hoje se apresenta em tanta coisa diferente daquela que era a "nossa".

Chamar "nossa" a Macau é um perfeito exagero. Tendo tido a oportunidade de passar lá dois períodos de cerca de um mês cada, deu para perceber que, ali, o Português era algo de artificial, uma pequena camada posta sobre a sociedade chinesa por força da autoridade do (nosso) Estado.

A língua era desconhecida de quase todos (embora houvesse mais gente a compreendê-la e falá-la do que o orgulho chinês gostasse de admitir), os cidadãos portugueses (como se esperaria) viviam marcados pela vaidade própria de quem ganha bons ordenados, o racismo relativamente aos "chinocas", o consumismo exacerbado pelas boas condições económicas e uma anormal oferta de bens e serviços (Hong Kong a uma hora de barco, apenas) e a sempre presente subserviência perante a anglofonia.

Nunca me esquecerei de quando estava num minimercado de filipinos e um português de bigodaça e barriga entrou na loja para logo ser "interpelado" por um dos empregados: "Sinhó, qué uisqui?". O bom do tuga não se fez rogado e respondeu logo com um "Yes! One bottle, please." Situações destas viam-se muito...

Mas... independentemente de todos os vícios que Macau pudesse proporcionar (e que eram uma dor de cabeça para muitas famílias), independentemente do desligamento de uma boa parte da pequeníssima comunidade portuguesa (não conto com os macaenses, i.e., mestiços), independentemente de tudo o que se possa apontar a quem lá vivia, a verdade é que também havia quem se preocupasse em manter acesa uma chama de lusitanidade cultural por aquelas paragens. Uma dessas manifestações era - e ainda é -, a Livraria Portuguesa. Ora, parece que este "era e é" não é garantia de um "será". Na melhor das hipóteses, o futuro assemelha-se sombrio. E porquê?

Por uma daquelas coincidências, estava eu ontem com um blusão vestido que comprei numa loja (Hang Ten?) na praça do Leal Senado quando me pingou, na caixa de correio, uma mensagem enviada por uma antiga habitante do território. Ao que parece, a Livraria Portuguesa está ameaçada pela "racionalização de meios", esse termo que serve de justificação para cortar a direito em tudo (menos nos privilégios de quem tem a espada na mão). A actual localização nobre da livraria (que lhe confere prestígio e capacidade de representação) está a ser posta em causa pelas próprias entidades nacionais que pretendem mover a "loja" para um qualquer edifício numa zona secundária.

A Praça do Leal Senado é o Rossio, a Av. dos Aliados de Macau. Ter um símbolo de presença lá não é o mesmo que tê-lo na Rua da Betesga...

O dinheiro não pode servir de justificação para tudo e, no caso, a Fundação Oriente está a cair no mesmo pecado em que o Governo caiu quando pretendeu vender o histórico edifício do consulado de Portugal em Sevilha (Espanha). A noção dos símbolos, da presença, parece fugir sistematicamente às pessoas que detêm o poder neste país. Dizer que o consulado em Sevilha tem pouco movimento ou que a livraria em Macau sofre do mesmo mal não chega. Porque um Estado tem obrigações que vão para além do deve e haver, porque uma nação não se faz apenas de comprar e vender mas também da capacidade de projecção de imagem, da faculdade de se fazer ouvir, mesmo que, para isso, seja necessário por-se em bicos dos pés.

Pessoas que se preocupam com o caso da Livraria Portuguesa em Macau iniciaram uma petição online para tentar mudar as ideias de quem tem nas mãos a decisão final sobre o destino do espaço. Eu já a assinei e acho que todos o devíamos fazer.

Fica aqui o link:

Salvemos a Livraria Portuguesa em Macau

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