Gazua no Júlio de Matos

"Ó sotor, haverá coisa pior do que a falsidade?", perguntou-me, preocupado, o homem. Franzino, de pele queimada, voz ligeiramente metálica mas agradável, vestia-se com uma tshirt branca e calças de fato de treino, como se andasse passeando por casa. Debaixo do braço trazia uns volumes com ar de livros de contabilidade. Num deles, notava-se a frase "os animais conhecem o dono".

O local? O complexo hospitalar Júlio de Matos. Para quase todos, um nome que imediatamente se identifica com doenças mentais. É uma ideia redutora já que o enorme e belo espaço (a merecer um passeio só por si) alberga muitos outros serviços ligados à saúde. Mas os estereótipos têm a força que têm e quando se fala no hospital que remata a Av. de Roma, a associação a loucos é imediata. E de loucos foi dar com o sítio onde os Gazua (banda punk? "rock"?) daria a festa de lançamento do seu novo álbum "Música pirata". Tendo perguntado ao porteiro do complexo, foi-me indicada a segunda rua à esquerda, "logo vê, muitas luzes e carros". O problema é que não havia muitas luzes, nem carros e o sossego da zona em nada era interrompido pelo que de longe pudesse assemelhar-se ao habitual ajuntamento de pessoas num concerto. Vagueei pelo parque, apreciando na medida do possível os edifícios, enchendo o ar com a frescura da noite perfumada pelas árvores, procurando alguém a quem pedir uma indicação... Ao longe, vejo três pessoas sentadas nas escadas de um pavilhão. Duas mulheres (uma com ar de enfermeira) e um homem. Este, obviamente um paciente, perante a minha pergunta (onde é o concerto?) indica-me o pavilhão 28 ou o 29... cada um para o seu lado. A "enfermeira" ri-se da aparente confusão mas manifesta o seu desconhecimento pelo evento. Fico de tentar um dos lados indicados pelo homem. Continuo a passear pelo parque, descobrindo novos locais e voltando praticamente ao local de partida. Meto-me por um caminho e ouço, trazido por uma curta aragem, um som de distorção. Tento apanhar novos sons enquanto vou caminhando. Finalmente, chego a um local onde três pessoas se encostavam a uma porta de vidro. É aqui o concerto, pergunto? Confirmam-me que sim. Por estar quase na hora que levava como certa para o início, entro no edifício. Lá dentro, um palco montado e um quase total vazio...

Quem estivesse às 21h (hora indicada pela newsletter da Le Cool Magazine) no pavilhão octogonal que serve para exposições e outros eventos veria uma invulgar mistura de gentes nas então pouquíssimas pessoas presentes. Velhos, deficientes, doentes mentais, fans, pessoas da organização... todos juntos, não chegariam a vinte criaturas que pareciam estar por ali por acaso. A noite era de concerto punk rock e não seria, certamente, de esperar que uma senhora de cabelos brancos acompanhada da neta fizessem parte do público. Nem tão pouco que um grupo de gaiteiros andasse por ali a tentar acordar os mortos com um estridente ensaio... o ambiente era estranho, como se todos os presentes, na sua mistura heterogénea, fizessem parte de um momento absurdo.

Perante a inexistência de actividade musical (era para um concerto que ali estava), saio do pavilhão e encosto-me a uma grade. É então que um homem me aborda: "Ó sotor, haverá coisa pior do que a falsidade?". Respondo-lhe que não sei, tentando ganhar tempo para pensar como lidar com a situação. "O mundo é falso, sotor. Nós estamos rodeados de coisas que não são reais". Digo que não, que o mundo é bem real, as pessoas é que são falsas. "Mas não é isso que diz a ciência", contesta o homem. "Quero dizer, a ciência humana pode dizê-lo mas as outras ciências, as ciências... - como se diz? -, a matemática, a...", as ciências exactas - atalho -, "sim, essas dizem que o mundo é que é falso, sotor. Uma aldeia... uma aldeia é uma coisa falsa, não é?". Respondo que não, que a aldeia é mais real do que a cidade porque a aldeia está ligada ao campo, à terra. "Acha? Mas, agora até se fala na Aldeia Global... O mundo está a ficar falso, sotor, o mundo vai desaparecer".
Aproveitando uma pausa, desapareci eu para dentro do pavilhão, tentando perceber o que se iria passar. Vejo um dos elementos da banda respondendo a um dos gaiteiros com um "Podem começar daqui a pouco". Aparentemente, os gaiteiros (da Casa Pia) faziam parte do espectáculo. Aguento mais um pouco e mais algumas pessoas vão entrando. Entre elas, o "filósofo". Procuro passar despercebido. Ao fim de um longo período de espera inútil, volto a sair. Há mais algumas pessoas cá fora. O homem sai também. Mete conversa com um casal ao meu lado. Explica que a frase "os animais conhecem o dono", escrita num dos seus livros, significa que os animais sabem quem é Deus. Aproveita para tentar cravar um euro. De seguida, vira-se para mim: "Sotor, não tem um cigarro?". O tabaco faz mal, digo-lhe. Sorri e dispara "A falsidade também!". Tenta também ganhar um euro comigo enquanto aproveita para criticar a organização: "Estes artistas não são simpáticos. Eles tinham de por os gaiteiros a tocar, para que as coisas fossem seguidas. Assim, não. As pessoas não estão junto ao palco. Acha-os simpáticos, sotor?". Acho, respondo, eles são simpáticos. Não são eles que organizam as coisas, eles só tocam. "Ah, é que um concerto rock é para dançar, não é?". Claro que é - alinho -, mas não há raparigas para isso. E também serve para saltar, acrescento. O homem volta a sorrir - "Pois, saltar... mas junto ao palco".

São já quase 21:30 e, enquanto o homem explana a uma nova vítima as suas preocupações com a falsidade no mundo, aproveito para reentrar no pavilhão. Está a começar o concerto de gaita de foles. Meia hora de monotonia musical assistida por um público que cabia num cubículo.

Eram sensivelmente 23h (duas horas depois do esperado por mim) quando se percebeu que os Gazua iriam tocar. A sala rapidamente se encheu de gente que estava lá fora. Se o público inicial era heterogéneo, agora, ainda o era mais. Para além dos doentes e dos idosos, juntavam-se agora algumas crianças, famílias e, claro, as personagens pertencentes às tribos mais próximas do género musical em cartaz.

O espectáculo começou muito bem, imediatamente se percebendo que o som era bom (alto mas perfeitamente definido, entendendo-se tudo o que o vocalista dizia). Com um estilo em tudo característico do punk rock/oi, cantando em Português (viva!), o trio Gazua (que era absolutamente desconhecido para mim) conquistou-me. Cantando e tocando ainda melhor (excelente trabalho de guitarra), serviu aos presentes um óptimo conjunto de canções simples e directas, com refrões que apetecem cantar e uma energia que nos obriga a mexer. Gosto deste estilo e gosto ainda mais do prazer da descoberta de algo que soa tão bem e tão familiar: ouvir rock, cheio de distorção e vigor, cantado na nossa língua. Porquê esta aparente exclusividade por parte do punk na utilização do nosso idioma? Eis algo que merecia uma séria discussão.

Entre grupos de músicas, um quarto elemento vinha ao palco para ler textos, supostas "poesias", a pretexto do dia 21 de Março ser o Dia Mundial da Poesia (é a Primavera, amigos, é o amor e os bichinhos à procura de parceiro). Devo dizer que achei os textos uma palermice pegada e só suportáveis porque os Gazua faziam um fundo musical muito interessante...

Já passava da meia-noite quando o concerto terminou. Para trás ficava uma longa batalha contra o sono (certo, fraqueza minha...), só possível de vencer pela vontade de escutar os temas dos Gazua e por uma espécie de birra em não virar as costas a um espectáculo por causa de atrasos. Mas ficaria muito bem que quem organiza eventos tivesse como preocupação essencial informar, quem a eles se desloca, dos correctos horários das actividades. Convenhamos que duas horas de diferença é coisa que custa...

Gazua, um banda para ouvir, concerteza. Foi por acaso que os conheci, não será, certamente por acaso que os irei acompanhar.

Agora, a falsidade do mundo é que me anda aqui às voltas...

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