Playboy à portuguesa

África do Sul, Alemanha, Argentina, Austrália, Brasil, Bulgária, Colômbia, Croácia, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estónia, EUA, Filipinas, Formosa, França, Geórgia, Grécia, Holanda, Hong Kong, Hungria, Indonésia, Itália, Japão, Lituânia, México, Noruega, Polónia, Rep. Checa, Roménia, Rússia, Sérvia, Sueca, Turquia, Ucrânia, Venezuela e... Portugal!

A extensa lista de países onde a icónica revista norte-americana (é um dos símbolos dos EUA) assentou arraiais é retirada do site pbweblog.com que se dedica a publicar as capas de todas as edições da Playboy espalhadas por esse mundo fora. Falta lá a referência à recém-nascida versão nacional mas perdoa-se a falha pela novidade.

Com pouco alarido (não houve campanha publicitária massiva), a Playboy-PT estreia-se em plena época de crise por parte da casa-mãe. Os tempos mudaram, o acesso a imagens de nudez banalizou-se com a internet, os gostos "embruteceram" perante doses cavalares de pornografia (quanto mais "erotismo"!) e, hoje em dia, justificar a compra de uma revista com a perspectiva de poder ver fotografias de mulheres mais ou menos nuas é coisa que já não faz grande sentido.

A Playboy foi uma publicação que, desde o seu já longínquo início, sempre apontou para um mercado de homens adultos que gostavam dos prazeres da vida, fossem eles o sexo, a comida e a bebida, a literatura, os automóveis... A qualidade colocada na elaboração dos conteúdos escritos, a par de uma criteriosa selecção de modelos fotográficos, conseguiu sempre manter um saudável equilíbrio entre a razão e o tesão. Quase toda a gente "entrava" na Playboy por causa das mulheres mas muitos acabavam por ficar clientes das entrevistas e das reportagens. Ainda assim, apesar das virtudes da escrita, era sempre a imagem que se impunha. E, por isso mesmo, a Playboy sempre fez questão de satisfazer o voyeurismo dos seus leitores recorrendo a caras conhecidas do grande público, algumas das quais acabaram quase por se tornar mais reconhecidas pelas suas aparições na famosa página central do que pela continuação das suas carreiras. A fila de nomes famosos que se despiram para a revista de Hugh Hefner é muito longa e se não nos restringirmos à edição americana e dermos um pulo até ao Brasil, veremos que quase todas as bonitas actrizes de telenovela já por lá passaram.

Países tão insuspeitos como a Polónia, a Indonésia e a Turquia são possuidores de edições próprias preenchidas com modelos nacionais. Perante estes exemplos, seria de esperar que, mais tarde ou mais cedo, também a terra dos brandos costumes entrasse para a família Playboy. Fê-lo agora com um número cuja principal atracção é Mónica Sofia, um dos elementos da banda Delirium (conhecida mais pelas cantoras do que pelas canções). Mónica já é experiente no que diz respeito à exposição pública: fotografias sensuais para revistas masculinas, uma participação num Big Brother, aparecimento corrente em revistas sociais... Portanto, sendo uma mulher conhecida, desejável e com um certo à-vontade decorrente da experiência, a sua escolha acaba por ser natural e, até, óbvia. O problema é que, sendo tão natural, acaba por levantar a dúvida: tem Mónica Sofia alguma coisa de novo para mostrar?

A resposta mais fácil seria "sim". Mónica nunca se despiu integralmente e fotografias em lingerie acabam sempre por deixar a imaginação a trabalhar. Por tudo a nu seria a função da sessão fotográfica para a Playboy e, consequentemente, um trunfo na venda da revista. Mas isso é capaz de não ser bem assim... Desde logo, a revista está nos escaparates sem ser embalada, o que permite que o curioso a folheie e satisfaça a curiosidade sem ter de gastar dinheiro; depois, há nus e nus, há sessões e sessões e estas que a Playboy-PT nos apresenta, deixam muito a desejar... Isto porque se nota nas fotografias (quer as de Mónica, quer as de Rute Penedo) um certo pudor, uma espécie de timidez editorial que não se justifica (mais, não se aceita!) numa publicação como aquela de que se fala aqui. A Playboy terá muitas razões para ser lida (Nuno Markl será uma delas) mas só tem uma verdadeira vantagem estratégica perante a concorrência (FHM, GQ, Maxim, Maxmen): a nudez. Ora, se a diferença entre revistas se resumir a tirar e por o soutien, temo que a Playboy portuguesa não tenha grande tempo de vida. É que basta olhar para as sessões que Mónica Sofia realizou para várias outras revistas para nos apercebermos de que o nu que agora nos apresentam é coisa de segunda categoria, claramente abaixo da sensualidade que se sentia nas muitas fotos com origem noutras publicações e que hoje circulam na internet. Também neste momento já devem estar no ar as fotos da Playboy e será fácil chegar à conclusão de que não basta mostrar o peito para justificar um cachet de 30.000 euros! Mónica Sofia (sempre "assistida" pelo namorado) e o fotógrafo preocuparam-se demasiadamente em manter um tom quase neutral nas imagens, nunca deixando que o erotismo venha ao de cima e que a beleza da modelo nos "incomode". Existe, inclusivamente, uma má escolha de alguns ângulos que acaba por realçar pormenores menos bonitos (repare-se na própria capa e no ar um pouco despliscente, quase de bordel).

Em toda a sessão de Mónica Sofia, apenas existe um nu integral frontal mas até este é vítima do pudor, com a colocação de uma renda à volta da cintura que acaba por tapar o que seria o principal atractivo: a púbis. E como se não fosse já suficiente o "obstáculo" visual, ainda houve o cuidado de eliminar os pelos púbicos (o que também se nota com Rute Penedo), numa tentativa estúpida de, mostrando um nu, não o mostrar verdadeiramente. Não é preciso muito esforço para nos lembrarmos dos nus envergonhados dos antigos mestres de pintura...

Ou a Playboy-PT compreende rapidamente que não há que ter medo de cair na vulgaridade (se as outras não caem...) e transmite essa ideia às modelos ou, brevemente, estará com um sério problema em mãos...