Declaração de amor


Quero aqui fazer, publicamente, uma declaração de amor ao meu PDA.

Sim, confesso que não posso viver sem ele, que o mundo não seria mais o mesmo sem que, várias vezes por dia, ele apitasse daquela forma irritante como um pai que chama a atenção a um filho para as coisas mais simples: envia um email, vê um site, telefona ao não-sei-quantos, olha que se faz tarde para o concerto, já levaste o carro à inspecção?, acorda que tens de ir trabalhar...

O meu PDA é, para mim, como a televisão é para os desinformados: aquilo que ele não me diz, é como se não existisse; tudo o que ele me mostra, é que interessa. Sem a agenda onde vou guardando os mais pequenos interesses convertidos em tarefas com direito a aviso 30 minutos antes, o meu mundo reduzir-se-ia aos restos de uma festa onde, na melhor das hipóteses, chegaria sempre inevitavelmente atrasado. É o meu PDA que me assegura a vitória sobre o esquecimento das coisas que me podem distrair da monotonia diária.

E quando viajo, quando me sento atrás do volante, é novamente o PDA que me guia para o destino, ordenando-me mudanças de direcção num tom docemente imperativo. Se não fosse o GPS que o meu PDA tem, teria de parar a cada 10km para consultar o mapa e não poderia degustar relaxadamente a condução e a paisagem. Eu andava perdido antes de o ter encontrado, agora, perco-me de amores por ele.

Quando do turbilhão das minhas ideias alguma se destaca, é no PDA que a anoto, assegurando que ela sobreviverá à emergência de um novo pensamento.

E se alguma coisa de inútil tem o maravilhoso aparelho que aqui elogio, é o telefone que, qual apêndice, por vezes se inflama num exageradamente sonoro toque que, espalhando as suas ondas de choque pela sala, me desperta (e aos outros) da confortável letargia a que me entrego. Mas, felizmente, no meu telefone as chamadas são como gotas de chuva desviadas pelo vento: calha levar com alguma de vez em quando.

Adoro-te PDA e preocupo-me contigo quando começas a dar sinal de falta de bateria. Sinto que me foges, que me faltas, e corro a trazer-te de novo à vida para que me continues a acompanhar com a tua vigilante presença.

És o meu grilo, a lembrança oportuna que não falha, o aviso premente que chega... Perdoa-me se às vezes te não ligo, se te respondo com um "fica para depois", se me esqueço de te consultar... mas todos temos cardos que nos tornam distantes e se a memória me falha e não te procuro, a culpa não é tua que me esperas serenamente no sítio do costume mas sim minha que tardo em me encontrar.