Morreu Michael Jackson

Morreu Michael Jackson, Michael Jackson morreu. O homem a quem o marketing continua a chamar "o rei da Pop" não resistiu a uma paragem cardíaca e deixou por, finalmente, fim à carreira e à vida.

Vi-o actuar, numa outra vida, sua e minha. O antigo estádio José Alvalade estava repleto de gente que aguardava ser enfeitiçada por um espectáculo que todos sabiam ser grande. E foi. Michael Jackson e os seus bailarinos encheram o enorme palco - próprio dos concertos de estádio -, com música, dança, alegria... Tamanho o esforço que após o espectáculo surgiu o boato de que, durante grande parte do evento, não era Mickael Jackson que estava em cima do palco mas sim um bailarino seu substituto. O bailarino existia, de facto, e era um verdadeiro sósia do cantor. Se o substituiu ou não, não sei. Mas, se o fez, fê-lo em grande estilo.

Jackson marcou a música norte-americana (i.e., estado-unidense) e, como consequência natural, marcou-nos a todos em doses diferentes. Soube inovar ou soube escutar quem o aconselhou a tal. Antes de Thriller e o seu "aterrorizador" vídeo, os telediscos eram incipientes. A partir daí, os orçamentos e o reconhecimento artístico dos vídeos musicais não pararam de aumentar.

Diz-se que o álbum onde canções como "Human Nature" ou "Beat it" se fazem notar continua a ser o mais vendido da história. Se calhar não em termos absolutos, se calhar apenas para um artista a solo, se calhar para um artista a solo americano, se calhar, se calhar... Se calhar, quando falássemos de Michael Jackson deveríamos fazer um esforço para esquecer tudo o que se diz dele, todas as histórias, todas as bizarrias, todas as taras, toda a publicidade... e focarmo-nos na única coisa que poderá sobreviver na memória da música: o talento de um grande artista que nos fez dançar, que nos divertiu, que nos preencheu tantas vezes o vazio do silêncio.

A vida de Mickael Jackson continuará a ser contada e servirá, concerteza, de tema a muitas obras. A sua personagem é fascinante pelo aspecto camaleónico, pelo trajecto decadente, pelas fobias...
O homem que não queria envelhecer e que, tal como Peter Pan, queria viver na Terra do Nunca e rodear-se de crianças; o homem que foi acusado de molestar sexualmente rapazinhos mas que proporcionava a tantos condições de vida com que nunca sonhariam; o benemérito; a criatura que vivia apavorada com os germes, com o toque dos outros, com o ar impuro; o endividado; o preto que queria ser, literalmente, branco... Jackson foi uma fonte de notícias, de histórias, de piadas, em proporção inversamente proporcional à do seu êxito. Conforme a sua estrela se foi apagando, avançaram as sombras.

Recentemente, em Londres, um sempre mais pálido Jackson, agora tornado numa horrenda caricatura andrógina, de aspecto quase alienígena, anunciou que iria retomar a estrada, lançar-se à reconquista das multidões. Foi aplaudido pelos seus indefectíveis, quantos deles sentindo-se - tal como o seu ídolo -, personagens deslocadas numa história que não é a sua. Havia de tudo no grupo dos que lhe batiam palmas mas havia, sobretudo, a aparência de uma festa que já acabou e à qual nos queremos, desesperadamente, agarrar. São os "regressos", dirão alguns. Servem para contentar muitos saudosistas e iniciar alguns recém-chegados. São também as dívidas a exigirem pagamento, na maior parte dos casos... No de Michael, era-o, certamente.

Com a desgraçada ironia que marca os grandes falhanços, uma semana antes de Jackson voltar aos palcos o seu coração foi abaixo. Afinal, não foi o nariz...

1 comentário:

Adamastor disse...

era um grande , enorme , gigante, artista. o melhor entre os melhores e só a morte de madonna poderá roçar toda esta clima .

que descanse em paz onde quer que possa estar.