Somos um casal

Sexta-Feira à noite na Casa Conveniente, um "buraco" entalado entre bares de putas, em pleno Cais do Sodré. Falta um bocado para o espectáculo começar (e, no teatro, por força dos sagrados atrasos, isso quer dizer que falta "ainda" mais do que parece), e as pessoas levantam os bilhetes reservados. À minha frente, duas raparigas pagam os seus. A moça da "bilheteira" (ali não existe isso) pergunta-lhes se, para facilitar, lhes pode dar o troco em conjunto e, depois, elas que o dividam. Uma das raparigas diz que sim e a outra, arrapazada, avança logo com um quase ansioso "somos um casal".

Ah, pronto, se elas são um casal, então, está bem - já se vê -, faz todo o sentido dar-lhes o troco por inteiro! Aliás, muitas outras coisas fariam sentido como, por exemplo, andarem vestidas de igual, usarem camisolas com o rosto da sua cara-metade, beberem suminho pelo mesmo copo usando duas palhinhas ao por-do-sol enquanto corações vão subindo com o gás... sei lá, um ror de coisas que todos os casais fazem. Para além de receberem o troco em conjunto.

O que me lixa é que, da próxima vez que eu for ao café com algum rapaz, tenho de vincar bem que cada um paga a sua conta, só porque somos muito machos! E se o pacóvio do empregado, numa de se fazer engraçadinho, me perguntar se "é tudo junto", é mandar-lhe, logo um sonoro "nós não somos maricas, ó panasca!". Se fôssemos, fazia sentido partilhar a conta. Como não somos, não há cá coisas para ninguém...

... a menos que dê desconto. Se um casal tiver desconto, talvez me sujeite a fazer má figura por uns instantes. Como isto está, talvez seja uma hipótese a considerar num futuro próximo.

Mas, pronto... as raparigas devem estar a viver o despontar da sua paixão e acham importante comunicar ao mundo a sua união, ainda que a pretexto de um simples troco de 20 euros. Outras já se lhes adiantaram, aos beijos em plena Rua do Carmo ou no metro em hora de ponta. "Elas" são mais atrevidotas do que "Eles". É por isso que acabo por ter algum respeito pelas lésbicas. Preocupam-se menos com a palhaçada e mais com os actos. É assim que deve ser. Com ou sem troco em conjunto.

1 comentário:

Anónimo disse...

ahahahah
adorei o texto
mas pensando bem...com a quantidade de casais gays que andam por aí, já viste o prejuizo que a restauração teria se fizesse desconto? Fechavam em 3 tempos!
E depois quem não é gay ía onde tomar uma cervejolas e comer uns caracois?
Ein???
RC