Depois vêm com coisas!



Publicidade do serviço ZON, exibida pelo Google Adsense

Curtas (22)

Será a isto que se refere o pessoal quando fala de "excesso de sinalização"?

(Lisboa, perto do Fonte Nova)

Lixarada digital (ou os ladrões de endereços)

Hoje, ia eu todo lampeiro para registar no Blogger (blogspot) um belo de um endereço, daqueles mesmo "giros" e, zás!, já estava ocupado.

Por si só, a ausência de disponibilidade do endereço não seria motivo de grande desânimo. O que me revoltou foi ver que o endereço estava ocupado por um único post, composto de uma curtíssima frase com pouco sentido, lá colocada há mais de um ano. Ou seja, um sacana guloso, toca de guardar o endereço, meter lá uma porcaria qualquer e aquilo ficou para ele.

É preciso que o Blogger comece a fazer uma "limpeza" de blogs-fantasma. Afinal de contas, trata-se de um serviço gratuito e não é justo que uns egoístas (ou espertalhões esperando fazer negócio) se apropriem dos URL.

Querem exemplos? (acrescentem-lhes o ".blogspot.com"): gajas, cu, cona, pirilau, sexo, merda, porra, mulheres, fantasia, swing, foda (sim, isto não está com grande nível...), portugal, europa, aventura, digital, morte, heavymetal, trabalho, ferias, nomada, dinheiro, violencia, anarquia...

Enfim, acho que conseguia ficar um dia inteiro a catar endereços destes. Experimentei apenas alguns, em Português.

Cambada de ladrões!


P.S. - cambadadeladroes.blogspot.com está livre :)

Livros à borla

Imaginem um sítio onde é possível procurar obras e descarregá-las gratuitamente. Não falo só de romances mas também de livros técnicos. Imaginem um sítio onde é possível ir buscar a obra completa de Machado de Assis ou uma mão-cheia de livros de Fernando Pessoa ou Alexandre Herculano (entre muitos outros). É uma ideia agradável, certo?

Pois bem, recebi hoje um email apelando à divulgação do endereço www.dominiopublico.gov.br, site que eu desconhecia mas do qual já puxei hoje larguíssimas dezenas de ficheiros com obras que boa companhia hão-de me fazer no futuro. Nem me dei ao trabalho de explorar todo o acervo da "biblioteca" porque me fixei, logo, nalguns destaques mas deu para perceber que há ali muito que ver.

Como terão percebido pelo URL, trata-se de obras que já cairam no domínio público, i.e., já não estão sujeitas a direitos de autor e podem ser livremente distribuidas. Porque não aproveitam para visitar o site? Puxem, descarreguem, baixem, saquem... tudo à borla!

O pior mesmo é saber que, segundo a mensagem que recebi, esta óptima iniciativa do Governo Brasileiro está em vias de encerrar por falta de acessos. É estúpido, digo eu. Não vejo que despesa insustentável possa semelhante projecto representar para o governo de um país de 180 milhões de pessoas. Afinal de contas, é um "mero" repositório de ficheiros que podia estar em qualquer servidor. Talvez a história esteja mal contada...

De qualquer forma, aproveitem o quanto antes, não vá a ameaça de encerramento ser mesmo real.

Fosse um arquivo de Axê e já não fechava...

Agitações num copo de tinto...

Os noticiários têm andado ocupados com a façanha de um grupo de rapazes pertencente a um blogue que resolveu substituir a bandeira do concelho de Lisboa pela da Monarquia constitucional no que consideraram ser um gesto simbólico de reposição da legalidade no local onde foi proclamada a República, em 1910.

Como de costume com todos os assuntos que geram polémica (natural ou artificialmente), a ignorância e a estupidez vieram a campo para assegurar que durante e depois de qualquer discussão, tudo ficasse baralhado de modo a ficar na mesma e o cidadão comum, apanhado desprevenido pelo assunto, se remetesse à sua habitual placidez intelectual de quem não quer saber de nada e a única coisa que sabe é que "eles são todos uns malandros!".

Quando li pela primeira vez uma notícia sobre a acção dos elementos do "31 da Armada", não pude deixar de me rir perante os pormenores que eram descritos: três indivíduos, mascarados de Darth Vader vieram desde a Av. da Liberdade até à Praça do Município, transportando um escadote consigo. Finalmente, chegados ao local, subiram à varanda e trocaram as bandeiras. A imagem de três clones de Lord Vader, vestidos a rigor (máscara e capa, pelo menos!), atravessando durante a noite a baixa pombalina, em passo lento, ao som da "marcha imperial" e dividindo o peso de um escadote de três metros é digna do melhor humor absurdo. Quanto à mudança das bandeiras, ela satisfez nos primeiros momentos os resquícios das tendências monárquicas que tive há quinze anos.

O problema é quando o riso se cala e somos obrigados a olhar friamente para as coisas. O problema é quando as reacções ao caso nos obrigam a, também nós, reagirmos.


A coisa não foi inocente...

Aquilo que poderia ter sido uma engraçada brincadeira acabou por tornar-se um acto de desrespeito pelas instituições, de provocação política e, reduzido à sua essência, um caso de polícia. Finalmente, sabidos e vistos os pormenores do enredo, nem sequer teve a piada inicialmente imaginada: de Darth Vader só havia a máscara colocada no momento e por apenas um dos "assaltantes" o que fez desaparecer, imediatamente, todo o cenário cómico da caminhada triunfal desde a Av. da Liberdade. Afinal de contas, os descarados "heróis" tinham tentado ser discretos...

A acção foi um acto de desrespeito porque a varanda que foi assaltada não é uma qualquer varanda anónima (o que, mesmo assim, implicaria um desrespeito pelo "anónimo" seu proprietário) mas um local simbólico do regime actual e do mais importante município nacional e cidade capital do país. A varanda da Câmara Municipal de Lisboa ostenta uma bandeira que está lá porque o sistema político assim o concede e exige. O pavilhão municipal representa a edilidade mas também o seu povo e o seu passado. É assim com os símbolos: são-no porque os reconhecemos enquanto tal e por isso se constituem elementos a proteger. Dizer que foi "apenas" a bandeira de Lisboa pode satisfazer a crença numa hierarquia de símbolos (a CML vale menos do que o País mas mais do que a Freguesia de Alvalade) mas omite o facto de que, mesmo nessa hierarquia, um município é algo com bastante importância.

Houve um acto de provocação política porque os autores da "operação" sabiam perfeitamente o que faziam, jogando com o imaginário republicano que, erradamente, associa a proclamação da República ao hastear da bandeira verde-rubro nos Paços do Concelho (nessa altura, ainda não havia uma bandeira escolhida, sequer), tentando aproveitar o sempre presente espírito anarquista do cidadão-comum que espera que qualquer coisa aconteça para por a "malandragem" na ordem e, finalmente, gerar desta forma a discussão pública sobre as virtudes do regime monárquico, sintomaticamente apresentado como a salvação para a bagunça da República, no que segue a linha de acção republicana durante o reinado de D. Carlos.

Por último, a troca de bandeiras foi um acto de polícia. Por mais que a irresponsabilidade de alguns ou o cinismo de outros possa repetir que não houve danos causados nem intenção de os causar, que nenhum furto foi efectuado e que a bandeira seria devolvida a quem de direito (publicamente, já se vê, para prolongar o efeito da coisa), tudo não pode deixar de ser visto como uma intolerável chacota para com as instituições e para com a lei, vinda de pessoas que, supostamente, se apresentam como defensoras de um regime capaz de acabar, precisamente, com a bandalheira da qual elas agora se pretendem valer para escaparem impunes.


Responsáveis e cúmplices

Mas como acontece quase sempre, consegue-se olhar as coisas de forma a levantar novos problemas. No caso, mais importante do que qualquer simbolismo político que só diz algo a quem faça questão de por os óculos, este caso de polícia deve tornar-se, precisamente, um caso "para" a Polícia. Porque há que explicar como é que é possível que, a apenas cinquenta metros de uma esquadra, no centro da cidade, perto de uma zona "sensível" (bares do Cais do Sodré), defronte de instalações da Armada e junto a bancos (como o Banco de Portugal, por exemplo), é possível que três indivíduos subam a uma enorme varanda na fachada principal da Câmara Municipal da capital do país sem que ninguém os note! Omite-se aqui a passagem daquele cidadão que se vê no vídeo e que se esteve lixando para o caso. Afinal de contas, é natural estar alguém a subir à varanda da CML, escondendo-se na sombra, a meio da noite, com um tipo a filmar do outro lado da praça. A máscara do Darth Vader também não o incomodou porque a sogra costuma usar uma quando lá vai a casa...

E como se não fosse suficiente a ausência de vigilância (ou denúncia), a bonita bandeira azul e branca ainda teve o direito de flutuar livremente até perto das 13:00, ou seja, esteve visível durante quatro ou cinco horas no período de serviço da CML! E aqui, pergunta-se: anda toda a gente de olhos no chão ou os funcionários camarários acharam graça à coisa e não fizeram nada? Se é este o caso, então, estamos perante gente que não pode ser considerada de confiança e que merece ser chamada à tábua, gente que desrespeita os símbolos da própria instituição que lhes paga o ordenado e lhes concede não poucas regalias.

Mas, por estranho que pareça, nem a ausência policial, nem a cumplicidade dos funcionários (porque só pode ter existido!, activa ou passiva) parece ter sido capaz de gerar verdadeira estranheza na opinião pública. Umas meras "bocas" respeitantes à enorme insegurança que se sente na zona (o Português só se sente seguro dentro de um cofre), foram tudo o que se ouviu cair no habitual saco roto da responsabilização.

As cumplicidades não acabam aqui. Quando percorremos esse inferno de neuróticos que são os comentários às notícias na internet, vemos que a opinião geral varia entre o nada fazer e o aplauso aos bloguistas. Os autores dos comentários da primeira espécie pertencem a essa casta tão nacional dos indivíduos que vociferam contra tudo e todos apelando constantemente às maiores penas mas imediatamente desculpabilizando as vítimas iniciais dos seus impropérios caso elas sejam efectivamente responsabilizadas por quem exale o mínimo odor a poder e a autoridade. Porque esta quer-se, obviamente; porque aquele precisa-se, claro; mas os dois juntos é que não dão jeito. Ter poder para exercer a autoridade e fazê-lo é pecado que nem a Nossa Senhora de Fátima com as suas lágrimas pode perdoar. Já basta que deixe escapar os políticos e os pedófilos que são, como todos sabemos, uma cambada de assassinos... Quanto ao segundo tipo de comentadores, substituem a irresponsabilidade cívica, pelo cinismo oportunista e por uma quase enternecedora fantasia...


O reino do faz-de-conta

... porque, se há coisa que parece marcar a chamada "causa monárquica" no nosso país é uma espécie de suave alheamento da realidade que se abate sobre os seus defensores. Não estou aqui a dizer que defender a monarquia é, em si mesmo, coisa de aluados mas é um facto que, quando confrontados com muitos textos que circulam na internet (ou que nos são impingidos via email), é impossível não deixar de pensar que qualquer coisa funciona de maneira diferente na percepção da realidade que os monárquicos parecem ter.

Qualquer ideal político que não colida com os princípios básicos da dignidade humana tem direito a ser defendido e o respeito por esse direito - o da livre expressão de pensamento (juntamente com o da livre associação) -, constitui uma das marcas definidoras do Estado de Direito.

Parece claro que nenhuma monarquia ocidental (ou a japonesa) possam ser apontadas como não sendo estados de direito, isto apesar de os seus regimes políticos assumirem, na essência, uma desigualdade social nas pessoas dos membros das famílias reais e da nobreza. É uma concessão que, hoje, os cidadãos livres desses países aceitam em nome da tradição mas também da estabilidade política.

Portanto, negar aos monárquicos portugueses o seu "direito de antena" é algo que não se pode aceitar sob pena de se entrar em contradição com os próprios princípios republicanos de igualdade e liberdade. Mas coisa muito diferente é fechar os olhos à utilização de meios menos próprios para promover uma causa que, nas mais das vezes, vive na mais profunda sombra sem que se entenda o que fazem os seus defensores para a tirar de lá.

Desde há muitos anos que sou apenas um Monárquico não praticante. O principal motivo reside no facto que [SIC] o movimento monárquico estar tomado por vaidosos que vivem numa redoma de vidro, imaginando que estão num país faz-de-conta de viscondes, baronetes e escudeiros, que se pelam por falsas honrarias e distinções estapafúrdias.




Ser-se monárquico parece ser uma actividade de salão, tão própria de um contexto elitista quanto as elites que se pretende defender. Se há "povo monárquico", ele vive calado: não pinta as paredes, não cola cartazes, não faz comícios, não subscreve petições, não se faz notar. E é aqui que entra a fantasia: na ideia que alguns irredentistas pretendem fazer passar de que não só existe uma maioria monárquica mas silenciosa (porquê?, pergunto), como também existe um forte movimento pró-monárquico cheio de vigor e acção criando uma onda de adesões constantes aos seguidores da Casa de Bragança.

Se existe uma "maioria silenciosa" de monárquicos, o mínimo que se exige é que se manifestem, em nome dos seus ideiais e da democracia, porque esta é feita para todos e nada mas, absolutamente nada, os impede de falar (ainda que os impeça de verem o seu "líder" entronizado). A verdade é que sendo sobejamente conhecidas várias figuras públicas que se assumem como monárquicas, a sua actividade enquanto tal parece resumir-se a "bocas" em público (muito ao jeito dos irmãos Câmara Pereira) ou à produção de textos de cariz quase iniciático que, fatalmente, escapam à maioria da população. Talvez a razão de ser da falta de empenho em promover os seus ideais tenha a ver, precisamente, com a tal fantasia da maioria silenciosa. Não vale a pena conquistar adeptos se já se é maioria. Se assim não é, o caso é mesmo bizarro...

Quando pensamos que o líder do CDS/PP - Paulo Portas -, é apontado como sendo monárquico (mas nem uma palavra lhe ouvimos publicamente sobre isso); que o até há pouco presidente do maior banco privado português (e antigo Secretário de Estado) - Paulo Teixeira Pinto -, é assumidamente monárquico; que artistas como João Braga e toda a família Câmara Pereira o são (gente com "acesso" à comunicação social); que o muito considerado Gonçalo Ribeiro Telles é; que o popular escritor João Aguiar, é; que o tristemente célebre Sousa-Lara, é [certo... :|]; que há ou houve generais, empresários, políticos que são ou foram e que não usaram qualquer da sua influência para, publicamente, defenderem a sua causa, então, é legítimo perguntar: o que querem os monárquicos, afinal?


O que querem eles, não sei. Suponho que tudo se resuma a uma maneira de estar, uma espécie de "somos melhores porque somos diferentes porque somos poucos". Há uma atracção que as franjas da acção política exercem que não é equiparável ao "carneirismo" dos movimentos maiores. Ser-se social-democrata ou socialista não produz qualquer aura de prestígio. Ser-se comunista já conta alguma coisa (pelo lado quase folclórico). A filiação bloquista é sinónimo de rebeldia política e social e o CDS/PP é coisa para gente que sabe estar... Quanto menor a representatividade, maior a auto-consideração que os "partidários" têm por si mesmos, mais forte é a sensação de se pertencer a uma casta iluminada. No limite, o prestígio absoluto é conseguido pela pertença a um grupo tão pequeno, tão exclusivista quanto uma família. A real serve como exemplo máximo.

O único local onde a presença monárquica se faz sentir é a internet. Quando começamos a procurar, encontramos não uma mas duas mãos-cheias de sites e blogues de tendência monárquica, repletos de longos textos sobre tudo aquilo que os monárquicos considerem fazer parte da sua "ideologia". Coisas que vão do social à gastronomia, passando pela defesa do património e até mesmo a... política. O estilo de escrita é, demasiadas vezes, assumidamente caceteiro, achincalhador, ofensivo mesmo, em tudo recorrente do que era o estilo republicano durante o estertor da Monarquia. Tal como acontecia com os republicanos de antanho, para os monárquicos "activos" a utilização da palavra em forma severa e acusatória faz parte da cartilha activista. A ostensiva adjectivação perjorativa dos "adversários", a generalização de atribuição de comportamentos reprováveis, a responsabilização sistemática do regime pelos problemas comuns a todas as sociedades actuais, a defesa de uma espécie de pureza ética assente em critérios próprios da ideologia defendida, tudo isso são coisas banais e próprias dos arrabaldes do espectro político, ontem e hoje, chame-se aos partidários dos movimentos fascistas, comunistas, monárquicos, republicanos ou fiéis de Deus.

Os monárquicos, pretendendo ser diferentes, acabam por sofrer dos mesmos vícios que quaisquer outras das "forças políticas" que eles tanto acusam. Um dos mais irritantes é a soberba...


Mensagem errada, na altura errada

Se fizermos uma passagem pelos conteúdos disponíveis na net, sejam eles os comentários a artigos ou textos ideológicos, uma das coisas que ressalta é a ideia de superioridade ética e cultural que os monárquicos têm de si. Mais do que verem-se como portadores de uma mensagem política, eles pretendem ser vistos como uma reserva moral e cultural que só não é apreciada pelo país porque este se encontra dominado por forças malévolas (entenda-se, a Maçonaria) que tudo fazem para manter o povo na ignorância e assim impedir os supremos desígnios da nação de se concretizarem.

Para o monárquico, o conhecimento da História é essencial. Não tanto pelos ensinamentos que ela nos dá (e que deviam fazer da disciplina uma coisa essencial na formação de qualquer cidadão) mas porque permite fundamentar o sentido de vassalagem (e, consequentemente, a negação das suas alternativas) em episódios históricos mais ou menos distantes. Este conhecimento (que traz, por arrasto, a ideia de que os "outros" não o possuem), torna-se, para alguns, uma obsessão alimentadora de complexos ao permitir-lhes extrair de algo que não é exacto mas sim sujeito a interpretações, todo um conjunto de dogmas baseados num particular sentido de descontextualização histórica, como são, por exemplo, o caso da legitimidade do regime monárquico derivada da fundação oficial da Nação no remoto ano de 1143, os feitos "gloriosos" no Séc. XVI ou a (suposta) "decadência" nacional pós-implantação da República.

Mas não basta a má qualidade dos músicos, é a própria partitura que é má. Quando a população vive numa obsessão anti-autoridade alicerçada na ideia de que todo o poder é corrupto e "eterno", os monárquicos propõem um poder que nem sequer pode ser "controlado" pela população. Quando os cidadãos se queixam da existência de uma casta social e clientelista composta pelos detentores de cargos políticos, os monárquicos propõem um regime onde se acrescenta uma nova casta (a nobreza), com existência legalmente consagrada e não tendo por base qualquer noção de mérito ou esforço. Quando as igrejas se esvaziam e o desinteresse pela religião é cada vez maior (para apenas ser contrariado por fundamentalismos ou charlatanices), os monárquicos propõem um regime assente na noção de Deus e servido por católicos praticantes. Quando a liberalização de costumes conquista as pessoas e se instala como "a maneira de estar" actual, os monárquicos propõem o conservadorismo.

Em contrapartida, munem-se de argumentação demagógica tendente a aproveitar o descontentamento da população (que é essencialmente induzido pela comunicação social e pela falta de frieza intelectual do cidadão comum), enfatizando comparações como aquelas que pretendem condicionar o apoio a um regime pelas verbas necessárias à sua manutenção, argumento este que, levado ao extremo, acabaria pura e simplesmente com a democracia, já que seria mais barato sustentar unicamente um ditador do que um parlamento (situação que nem Salazar tentou).

Outro dos argumentos preferidos pelos monárquicos é a situação económica (mais uma vez, fala-se de dinheiro) das monarquias ocidentais que, segundo aqueles, apresentam níveis de desenvolvimento superiores aos das repúblicas. A coisa tresanda a demagogia, ignorando-se por completo a evolução histórica das diversas nações, as causas da sua situação actual, os diferentes contextos geopolíticos, etc., para se atirar ao público, com todo o desprezo de quem diz "para quem é, basta", uma posta de má qualidade com o carimbo de "um Rei faz bem".

A França republicana tem um nível de desenvolvimento superior ao da Espanha monárquica (com a maior taxa de desemprego da Europa) que foi fruto de uma brutal guerra civil e do governo de um ditador sanguinário e que sabe que, no dia em que o Rei cair, o Estado desmorona-se. A também republicana Alemanha tem qualidade de vida superior à do Reino Unido, país com tensões sociais e políticas e uma família real cujo descrédito não pára de aumentar e que vale mais como cartaz turístico do que como interveniente na vida social e política do país. A Bélgica é um Estado colado com cuspo, onde o Rei já nem do país pode dizer que é mas tão-só dos cidadãos, vivendo o país sujeito às constantes tensões entre as suas comunidades étnico-linguísticas. O Luxemburgo e o Liechtenstein são micro-estados que, naturalmente, beneficiam da sua situação geográfica e do facto de não deverem satisfações a mais nada do que ao seu bem-estar material. O Mónaco é uma estância balnear para milionários cujo destino enquanto estado independente está entregue às capacidades reprodutoras do príncipe herdeiro que, se falhar nessa tarefa, será responsável pela entrega das chaves do principado à França. A Holanda foi ao longo da sua História um país retalhado e colado, sujeito às marés da política continental mas que sempre apostou na iniciativa privada e mercantil e que soube aproveitar a sua situação geográfica privilegiada sendo hoje um exemplo de liberalismo social dificilmente aceitável pelos conservadores monárquicos portugueses.

E restam-nos as três monarquias nórdicas (porque a monarquia no Canadá, Austrália e Nova Zelândia conta quase como "aberração"). Que dizer destas? Que dizer do desenvolvimento que ostentam? Que não tiveram colónias e, logo, foram obrigadas a aprender a viver do que tinham? Que não passaram por processos revolucionários? Que se encontram numa zona tradicionalmente "movimentada" da Europa? Que a social-democracia não foi certamente inventada no gabinete dos reis? Que o petróleo e os mares noruegueses não estão lá por iniciativa real?

Na verdade, pouco interessa porque, se há coisa que se percebe na argumentação monárquica é que ela é falha de sentido, ora preferindo apoiar-se em lugares comuns que apelam à cupidez e à revolta, ora enrolando-se em intrincadas teorias messiânicas que nada dizem aos não-iniciados.

O marketing monárquico, em suma, é quase nulo e, quando damos por ele, é para o acharmos mau. Mesmo o momento de maior exposição mediática e simpatia popular que a Monarquia teve desde 1910 (o casamento de Duarte Pio com Isabel Herédia) foi completamente desperdiçado pelos sempre etéreos monárquicos que terão gritado muitos "Viva o Rei!" (eu também lá estava e fi-lo pela piada) para, no dia seguinte, voltarem à sua habitual inércia. Deus há-de ajudar!

Mas, diz o ditado, que "Deus ajuda quem se ajuda a si mesmo" e o que se vê é que a atrapalhação é tanta nas hostes azuis e brancas que não só os monárquicos não se ajudam como se prejudicam. Exemplo disso são os recentes comentários de Duarte Pio acerca de José Saramago e do seu famoso "O evangelho segundo Jesus Cristo". Não é que Saramago tenha de ser consensual, longe disso. Não fica é bem a alguém que se quer assumir como representante máximo de uma alternativa de regime pretensamente patriótico envolver-se em polémicas estéreis baseadas em conservadorismo religioso com aquele que é a maior expressão da nossa literatura actual (e o único Prémio Nobel de Língua Portuguesa). No mínimo, representa alguma falta de sentido de oportunidade (para estar calado). Por vezes, valemos mais pelo que não dizemos do que pelas opiniões que expressamos...

E já que a conversa nos traz até Duarte Pio, aproveito a oportunidade para perguntar: já está resolvida a questão sobre quem é o legítimo herdeiro do trono português? É que, como se não bastasse a monarquia não ser "apetecível" para o público em geral, ser vítima de imensos preconceitos (quase todos ligados a uma enorme ignorância sobre o que é o papel de um rei constitucional), Duarte Pio não ter uma figura "interessante" e passar a ideia de ser alguém pouco dotado intelectualmente (ideia completamente rebatida por todos os que o conhecem) (*), ainda há a questão de os próprios monárquicos estarem divididos entre si, quase 100 anos depois do fim da Monarquia!

Nuno da Câmara Pereira publicou a expensas próprias (julgo), um livro onde constrói uma teoria que visa provar que o verdadeiro herdeiro da coroa é alguém cujo título nobiliárquico é Duque de Loulé (por oposição ao de Duarte Pio, que é Duque de Bragança). Este Câmara Pereira - que canta o fado mas não finge tocar um instrumento -, é o presidente do PPM, o partido cuja insignificante expressão e teimosia em se manter no activo constitui um dos mais fáceis argumentos usados pelos republicanos empedernidos (e pouco inteligentes) para demonstrar a falta de apoio popular à causa monárquica.

Mas, se por acaso alguém achar que Duarte Pio e o tal "Duque de Loulé" não servem para reinar, ainda há a hipótese de contarem com Jacob Xavier ou mesmo com Rosário Poidimani. E não falamos no Rei da Fuzeta!

Se isto não é prova da incapacidade da ideia monárquica para se afirmar como alternativa viável à República, dir-me-ão o que é...


E os rapazes?

Pois é, e os rapazes do "31 da Armada"? Bom, que sirvam de exemplo para que novas palhaçadas não aconteçam. A liberdade está aí mas não é para subir às varandas dos outros e o argumento boçal de que gente pior anda à solta só colhe em espíritos embrutecidos. Não bastava aos rapazes fazerem a brincadeira, ainda sentiram necessidade de se exibirem perante o mundo. Agora, arcam com as consequências de terem produzido prova contra si mesmos...

Quanto à causa monárquica, as ruas estão abertas às manifestações da sua "imensa" massa de adeptos, as avenidas pedem para se encherem com paradas, as praças gritam por comícios. Alguém os impede? Talvez a falta de quorum...

De tudo isto só se aproveita uma coisa, a constatação de que a bandeira era muitíssimo mais bonita...


(*) - o que não é o mesmo que dizer que não seja uma pessoa "desajeitada". A título de exemplo, a oferta de um calendário com uma fotografia da "família real" a um oficial superior do exército, em Timor...

Igualdade q.b.

O Conselho de Segurança da ONU emitiu uma resolução referente à igualdade de géneros em zonas de combate. O nosso governo, na sequência, aprovou um "plano nacional de acção" para a igualdade de géneros. Acho bem!

A verdade é que se há coisa que me toca é a igualdade. Igualdade entre classes, sexos, raças, culturas, tudo!

Mas... o que é que se entende por igualdade? E até que ponto é que a procura desta não favorece novas desigualdades?

Aquilo a que assistimos inicialmente com as sufragistas foi a reinvindicação de um nível mínimo de igualdade perante o Estado, seguido de outros avanços tendentes a assegurar que mulheres e homens tinham acesso igual à participação cívica, por se entender que não existe verdadeira democracia quando não há igualdade de tratamento perante a lei. Faz sentido e é nobre.

O problema é que, ao mesmo tempo que as mulheres foram conquistando os seus direitos legítimos, o seu leque de obrigações não aumentou na devida proporção e mantiveram-se mesmo (quando não se encorajaram) situações discriminatórias para com os homens. Os exemplos são fáceis de trazer à discussão:

1) Forças Armadas: as mulheres fizeram questão de poderem ingressar nas fileiras do Exército e demais armas mas nunca demonstraram qualquer interesse em apoiar o fim do serviço militar obrigatório (que era "castigo" exclusivo dos homens) e muito menos de exigirem que também elas fossem forçadas a entrar nos quartéis. Também não se notou grande combatividade feminina no sentido de acabar com a regra quase universalmente aceite de não enviar "militares-fêmea" para zonas de combate. Ou seja, o feminismo lutou por alcançar um direito mas ignorou as obrigações.

2) Custódia paternal: as mulheres exigiram à sociedade não serem vistas como meras "mães" mas como cidadãs participativas que poderiam, ou não, querer a maternidade. E lutaram para que os homens se tornassem mais participativos nas tarefas caseiras e, de um modo geral, mais envolvidos nas questões familiares. No entanto, continua a vigorar (e a ser por elas alimentado) um preconceito baseado numa suposta predisposição das mulheres para cuidarem das crianças, preconceito esse que lhes assegura posição largamente privilegiada nos tribunais, sempre que se dá uma disputa pelo poder paternal. Não se vê qualquer movimentação feminina tendente a corrigir semelhante injustiça.

3) Trabalho: as mulheres empenharam-se em aceder aos postos de trabalho que antigamente estavam "oficiosamente" reservados aos homens e a sua preponderência em determinadas áreas académicas indica que, no futuro, é bem possível que uma boa parte dos lugares de decisão esteja nas suas mãos. Uma das lutas femininas no local de trabalho prende-se com a igualdade nas remunerações. No entanto, nota-se uma perfeita ausência de preocupação igualitária quando toca a outras condições de trabalho, nomeadamente no facto de uma grande parte dos homens ser obrigada a vestir-se de acordo com regras estabelecidas (fato e gravata) ao mesmo tempo que às mulheres é concedida liberdade quase total na escolha da indumentária. Só não sabe o valor disto, quem não tem de viver "encafuado" numa armadura de pano...


4) Exclusividade: a existência de ambientes reservados (formal ou informalmente) a homens tem sido contestada pelas mulheres, desde as já referidas forças armadas até aos selectos e exclusivos "clubes de cavalheiros" britânicos, não hesitando algumas em recorrer à via judicial para alcançarem os seus fins. Para as feministas, é inaceitável que a condição de mulher as possa arredar de qualquer instituição, pública ou particular. No entanto, assistimos a uma profusão de ambientes e serviços unicamente reservados a mulheres, como sejam os ginásios 100% femininos, as corridas de beneficência (aparentemente, os homens não podem ser solidários no que diz respeito ao cancro da mama - mesmo que já se tenha provado que também podem sofrer dele), os canais de TV dirigidos às mulheres, acesso gratuito a estabelecimentos de diversão nocturna, noites temáticas nos mesmos estabelecimentos onde só elas podem entrar, condições preferenciais nos seguros com tipos de apólices só para condutoras, etc. Nada disto parece fazer qualquer impressão às defensoras da igualdade.

5) Quotas: em nome da igualdade de acesso ao poder, o igualitarismo empedernido gizou esquemas de modo a forçar à igualdade representativa nos órgãos de soberania (ou na tentativa de acesso a eles), inventando proporções de 1/2, 1/3, as mais das vezes perfeitamente deslocadas da realidade social e política (há efectivamente muito menos mulheres envolvidas na política) e passando por cima de critérios que deveriam ser sagrados - como o mérito -, entrando em contradição com aquilo que seriam os princípios básicos de verdadeira igualdade - natural! - entre géneros. O paternalismo masculino (que bem que fica aqui uma senhora!) aliado a um optimismo apalermado por parte de algumas "colaboradoras" tem sido, curiosamente, das poucas coisas em que se tem manifestado alguma contestação feminina, talvez por via de um certo orgulho ferido com base na rejeição de favores. Mas já não se tem assistido a qualquer desconforto quando, de forma desbragada, são feitos elogios às "mulheres na política" e a uma suposta "maneira diferente de estar" (que escapa à maioria das pessoas). A ser verdade semelhante diferença, teríamos uma Caixa de Pandora aberta...

6) Tratamento diferenciado: já por duas vezes (à entrada da Colecção Berardo) e num hipermercado (em tempos de "ameaça" terrorista), se deu a totalmente humilhante e inaceitável situação de a todos os homens ser "pedido" que deixassem as suas mochilas no bengaleiro ao mesmo tempo que as visitantes/clientes eram deixadas entrar com as suas malas, mochilas e sacos sem que qualquer reparo lhes fosse feito. Em ambos os casos, nenhuma mulher, mesmo as que acompanhavam homens, levantou qualquer objecção a semelhante discriminação, baseada em critérios que só podem ter origem numa cabeça com problemas. Situação idêntica acontece na entrada para concertos e grandes eventos, onde os homens são revistados enquanto que as mulheres são, na generalidade, deixadas passar sem qualquer incómodo. Como se isto não fosse condenável pela diferenciação de tratamento, ainda há a questão de segurança: um ataque terrorista ou um acto de vandalismo pode ser facilmente executado se for por uma mulher...

Ou seja, a natural vontade do sexo feminino de se ver equiparado ao masculino tem como limites o próprio interesse e conforto das mulheres, sendo este o único princípio a reger as suas reinvindicações. Ao contrário do que sucedeu com os direitos das mulheres - que contaram com o apoio de muitos homens (nomeadamente aqueles com poder para mudarem as coisas) -, nas situações em que os homens estejam em desvantagem, a ausência de preocupação por parte do outro sexo é total.

Como sou um firme crente na igualdade plena e até já tive de me bater por isso (para ouvir coisas do tipo "sou uma rapariga, não posso andar a acartar caixas!"), irrita-me particularmente a retórica feminista que apela a elevados princípios mas sempre condicionada ao interesse próprio, seja ele ao mais alto nível da organização social ou à porta do bar...

Copiar <> Roubar

Uma das notícias do dia é o "pedido" que foi feito à Portugal Telecom para bloquear o acesso a umas dezenas de sites hospedados nos seus servidores e que promoviam a descarga ilegal de conteúdos, nomeadamente filmes e música.

A iniciativa, que envolve a ANACOM, o IGAP e uma tal MAPiNET, enquadra-se no guerra contra o que se convencionou chamar "pirataria informática", guerra essa que, periodicamente, conhece novas batalhas que, fatalmente, acabam por fazer umas baixas involuntárias para tudo voltar, pouco depois, ao mesmo.

Aliás, hoje mesmo, um dos sites bloqueados saltou, pouco depois, para novo servidor e lá continua alegremente fornecendo ligações para discos e filmes.

Um dos argumentos utilizados pelos autores dos sites, e à semelhança do que aconteceu com o Pirate Bay, na Suécia, que as páginas de internet a seu cargo não guardam os conteúdos pirateados, limitando-se a indicar onde eles estão. Trata-se de um preciosismo desesperado e, até, desesperante, para quem tenta ver estes assuntos com seriedade.

Basto recorrer ao senso comum para perceber que não é preciso roubar para se ser punido. Dizer aos ladrões onde é que o vizinho guarda as jóias, também é crime.

Mas... não serei eu o primeiro a atirar uma pedra aos donos destes sites até porque eu, tal como toda a gente (não acredito em santos) já beneficiou (e muito) com a pirataria. Aliás, se ela não existisse, a informática não tinha conhecido, sequer, um décimo do seu desenvolvimento.

Aquilo que eu gostaria de rebater aqui é um dos argumentos mais comummente usados para justificar a pirataria: os preços.

Ora, quando me lembro do que eram as minhas despesas com música quando não tinha acesso à internet (e esta não estava vulgarizada), vejo que eu era um cliente regular dos vendedores de discos, estivessem eles na Feira da Ladra ou em lojas, fossem os discos novos ou usados.

Nessa altura (meados dos anos 90), um CD novo custava-me 2800$00 (€ 14) na Feira da Ladra e 3600$00 (€ 18) numa loja. Em segunda mão, a coisa andava pelos 1000$00 (€ 5). Era raríssimo comprar um disco novo numa loja. Defendia-me procurando os sítios mais baratos mas fazia despesa. E, tal como eu, muitos outros iam às compras ao fim-de-semana, para voltarem para casa carregados.

Desde que a internet passou a fornecer-me música de borla, praticamente nunca mais comprei um disco. E porquê? Porque a ocasião faz o ladrão. O problema com a pirataria não são os preços mas sim a oportunidade! Quem consegue obter algo graciosamente, não quer pagar. É tão simples quanto isto. Dinheiro gastamos nós - e muito -, nas coisas mais insignificantes porque ninguém no-las dá. Mas os conteúdos na internet são-nos dados, logo...

A indústria do audiovisual, para além de apostar na repressão, insiste igualmente na "educação", obrigando-nos a contragosto a ter de aturar aqueles vídeos no início dos DVD's, cuja moral é "se você não rouba um disco, porque razão faz um download"? A resposta é simples, ainda que a maior parte das pessoas não se aperceba dela: porque copiar não é o mesmo que furtar. Quem copia não sente que está a retirar algo a outrém (quando muito, impede-o de obter algo). Esse é o travão moral e ético que nos impede de sermos ladrões: a noção de estar a roubar, de estar a privar um terceiro de um bem. Isso é roubo! Copiar, não o é. Quando muito, é um aproveitamento...

Mais um para o monstro



O monstro da construção civil fez mais uma vítima em Lisboa. Desta vez, foi uma adorável casinha na Rua D. Luís de Noronha, um vestígio em estado impecável de outros tempos em que aquela zona estava cheia de pequenas moradias.

Habituado desde sempre a passar por aquela zona, sempre me suscitou curiosidade aquela pérola entalada entre dois desinteressantes prédios de habitação. O local tinha qualquer coisa de misterioso. O aspecto era quase o de uma casa de bonecas que alguém tivesse plantado ali: por trás de duas bonitas palmeiras, uma fachada elegante, com azulejos bonitos e janelas cheias de vidrinhos conferiam ao imóvel um quase ar de casa de veraneio, daquelas casas antigas que esperamos ver nas zonas balneares históricas.

Quem vivia lá? A verdade é que em todos estes anos, só uma vez vi a porta aberta e nunca, mas absolutamente nunca, vi uma alma no local. Mas a casa era habitada.

Agora, as máquinas escavadoras comem o terreno, preparando-o para mais um edifício de "prestige" que, com um pomposo nome em Inglês, irá ser vendido a "sotores" para que possam ter o privilégio de viver no centro da cidade. Esta, viu o seu património morrer mais um pouco.

Toca a fechar o bico!

Os fuzileiros americanos (os Marines, estão a ver?), foram proibidos de usarem as chamadas "redes sociais", como o mySpace, Hi5, Twitter e demais sites do tipo. Parece que as chefias têm medo de que possa haver um ataque informático que use como porta de entrada esses serviços.

Por outro lado, também há a questão da fuga de informações (que não se limitará a este tipo de utilização da internet).

Imaginemos o que seria um herói americano a twittar, lá para os lados do Iraque, onde está empenhadíssimo em libertar o povo local das garras assassinas de um qualquer tipo que ele viu na televisão...



10:15 não se passa nada, aqui
10:20 vou dar um tiro, só para descontrair
10:22 dei um tiro, ouvi um guincho
10:25 pensei que tinha acertado num árabe mas afinal era um cão
10:30 coitado do cão...
10:35 que merda!, apetece-me dar um tiro num árabe qualquer
10:40 acabei de ver um bem porreiro – é gordo
10:45 o sargento diz que é batota atirar a gordos
10:47 o sargento que se lixe, vou mesmo atirar
10:49 pum! o gordo está no chão
10:52 está um montão de árabes à volta do gordo, tudo aos gritos
10:55 deu-me a sede e estes tipos não vendem cerveja
10:59 porra de país onde não se vende cerveja
11:03 vem lá mais um gordo…

As vantagens da gripe

Ocorreu-me agora mais um tipo de empresa (entenda-se, parasita) que vai lucrar com esta coisa da "Gripe A": as empresas de telecomunicações. É que, quanto mais espirros houver durante uma conversa telefónica, mais tempo ela dura!

Música boa

Esta foi uma daqueles descobertas que fiz quando andava a saltar de link em link no myspace: Norberto Lobo.

Senhor de uma técnica apreciável, não se deixa deslumbrar por ela e contrói temas que sabe bem ouvir, intrincadas redes de acordes, por vezes, tecidos suaves de outras.

Quem tiver o bom gosto de gostar de Tó Trips, certamente que gostará, pelo menos, tanto de Norberto Lobo. Não há aqui o "exotismo de fim de tarde" do último disco de Trips mas há música muito, muito boa!


Ouvir música: aqui

Como ficar rico

Acabei de ver, no site do MilenniumBCP que, se pegar em €500 (quinhentos euros) e os colocar num depósito à ordem durante quinze dias, ganho treze cêntimos de juro! Depois, ainda há o imposto e mais não sei o quê, o que me deixa mais ou menos dez cêntimos de nova fortuna.

Ora, pergunto eu: vale a pena andar a por publicidade neste blog (onde poucos carregam), jogar em casinos (onde só se perde), etc., quando o bom do MillenniumBCP põe à nossa disposição meios tão simples e fáceis de meter dinheiro aos bolsos? Não, não vale.

A única coisa que me lixa é não ter um milhão de euros para aplicar com os mirabulantes 0,5% anuais (taxa bruta)...

Esquemas...

Antigamente, quando existiam os hipermercados Carrefour, quem comprasse um óleo para o motor do carro tinha direito à sua mudança gratuitamente, qualquer que fosse a marca do óleo. Comprava-se o dito, ia-se à garagem no estacionamento e faziam-nos a mudança sem qualquer problema. Este tipo de serviço, gratuito ou bastante barato, aplicava-se a outros materiais para o carro como, por exemplo, os pneus.

Entretanto, o Carrefour foi vendido ao Continente (cá em Portugal) e, entre várias mudanças, as garagem deixaram de pertencer ao hipermercado e passaram a ser exploradas pelo grupo Midas. Resultado, os serviços gratuitos tornaram-se pagos.

No fim-de-semana passado fui a Telheiras para mudar o óleo, contando aproveitar uma promoção de preço igual a vinte euros. Chegado lá, perguntam-me que óleo costumava por. Respondo e dizem-me logo que esse ele não podia levar (para quê a pergunta se eles é que sabem?). Digo que sempre levou aquele óleo e o empregado começa a procurar informação no computador. Chama-me para ver uma página da Galp. Diz-me que só usam óleos da Galp e que o "aconselhado" para o meu carro (pela Galp) é que tem de ser usado e não podem por outro porque não podem responsabilizar-se por futuros problemas que o carro possa ter. Acrescenta ainda que sou livre para por no meu carro o que quiser (obrigado pela informação).

Percebi logo o esquema: o Continente cede a garagem à Midas, a Midas tem acordo com a Galp e o consumidor que se lixe. Neste rodriguinho já estava a perder duas vezes: tinha de pagar o serviço e não podia, sequer, escolher o óleo para o meu carro. Valerá mesmo a pena dizer que a mudança de óleo com o "aconselhado" pela Galp custava quase três vezes o valor da mudança mais barata? É que, de €19 passava logo para €59!!!

Esquemas da treta! Lá tenho eu de ir ao mecânico "amigo"...

Playboy Portugal - nº 4

Pleno verão... o povo quer praia, farra, descanso, mais farra e, se possível, um parzinho. As hormonas não têm descanso: como se não bastasse a providencial beleza das nossas pequenas, parece que, finalmente, as estrangeiras bonitas descobriram a nossa cidade capital. É vê-las por aí, saltitantes, frescas e de corpinho à mostra.

Que tem isto a ver com a Playboy? Tem tudo, vê-se logo. O mais recente número da icónica (atenção às piadas porcas) revista mostra-nos Débora Montenegro e uma tal Sunsette Verde (só pode ser nome artístico) e, no essencial, não acrescenta nada aos números anteriores. Ao fim de quatro edições, as dúvidas estão desfeitas e nota-se que existe uma "linha editorial" no que toca ao tipo de fotografia de nu a ser apresentado. Não há ousadia, as meninas rapam os pelos públicos e o nu integral, em vez de uma "obrigação", parece ser mais um capricho ocasional das "modelos". Fraude!, grito eu e muitos outros.

Débora Montenegro não se despe totalmente a não ser numa foto "mascarada" pelos tons de luz e as fotos acabam por ficar naquela da provocação ("querias ver, não querias? - ná!"); quanto à "Sunsette", é dona de formas bonitas mas é feia. Ora, como eu não sou camionista e não alinho nos partidários do CCM, gosto de mulheres bonitas e esta, concerteza que não é.


O ensaio da Verde moça também é péssimo em termos de gosto. As fotos parecem saídas de uma revista de baixo nível. Não porque sejam atrevidas (há uma, enfim) mas porque a cara da pequena aliada aos tons e ao arranjo parece coisa de baixo orçamento e pouco talento.

A Playboy PT é uma treta! Na sua não-importância, ainda assim, acaba por ser um símbolo parolo da nossa mentalidade ainda mais parola e é aqui que entram as estrangeiras saltitantes. Pergunto eu, com tantas que por aí andam à noite parecendo que a roupa lhes é um fardo, não seria de começarem a contratá-las para a revista? Fariam, certamente, melhor figura do que estas "tugas" complexadas!

Catinga dixit! (é Latim...)

"Demo" - São Luiz

Quanto mais espectáculos se vêm, maior é a possibilidade de apanharmos com barretes. Numa semana em que fui quatro ou cinco vezes ao teatro, apanhei com dois. Este, "Demo", pelo Teatro Praga, no São Luiz (Lisboa) foi o segundo e, concerteza, o maior.

"Demo" pretende ser um musical. No fim da introdução em Alemão (a peça é falada em várias línguas, até Estónio!), quando começa a parte musical, percebemos logo que ali, "musical" não é entendido da mesma forma que nos teatros de La Féria. Os textos sucedem-se com um sentido difícil de perceber e as mudanças de língua são frequentes. Há um écran com tradução lá em cima, o que nos obriga a estar constantemente a olhar quase para o tecto da sala para sabermos que disparates é que as personagens vão dizendo.

Como peça, "Demo" limita-se a um conjunto de gente em cima de um palco, debitando alarvidades. Haverá muito ensaio e coordenação, certamente, mas isso não assegura sentido às coisas. Como musical, o mínimo que se pode dizer é que é um perfeito aborto sonoro. Quando não há, sequer, a tentativa de construir linhas melódicas e de "musical" se entende apenas a produção de peças sonoras servidas por letras absurdas, então, algo está mal. Na cacofonia, qualquer um é um mestre.

Todos nós que já tivemos contacto com um instrumento musical sabemos que há momentos de desânimo ou fastio em que nos entregamos meramente a fazer sons para matar o tempo. Esta peça parece um desses momentos mas, ao contrário do que sucede com o músico anónimo, aqui há um público que merece ser bem servido e dinheiro aplicado que merece ser rentabilizado com qualquer coisa melhor do que esta estupidez que mais parece uma diversão embriagada por parte do elenco do que uma coisa feita com tino.

A meio do espectáculo, caído do céu, aparece Rão Kyao para aquele que foi o único momento verdadeiramente musical da peça. Ainda assim, há que compreender que Kyao e as suas flautas indianas perderam logo o interesse um mês depois do lançamento de "Estrada da Luz", quando se percebeu que ele já não conseguia fazer mais do que aquilo. E até isto já foi numa outra vida...

Provavelmente, o pior espectáculo que já vi...

Eles "andem" aí...

Carro-câmara do Google parado à porta da Universidade Nova, na Av. de Berna (Lisboa).

Será que também filmaram as estudantes? :)

Curtas (21)

O repórter da RTP no Brasil visita uma obra social em Duque de Caxias. Pede a uma criança que lhe aponte no mapa onde é Portugal. A criancinha dá um grande salto e bate com os dedos onde é Portugal. O repórter apressa-se a perguntar-lhe: "é ao lado de quê?". "Da Espanha", responde obviamente o pequeno...

Palavras para quê? É um repórter português...

A família da dona Helena

Ontem, para ir ao teatro foi preciso fazer-me à estrada, rumo ao sul. Procurava o "Espaço das Aguncheiras", ali para os lados do Cabo Espichel e a cargo da "vaporosa" São José Lapa.

A ideia era ver a peça "Rancor - exercício sobre Helena", apresentada literalmente no meio do campo: um palco e alguns elementos cénicos no meio dos arbustos, dentro de uma quinta propriedade da actriz. À nossa volta, a natureza e a brisa nocturna. E, por causa desta, era feito o aviso: levem agasalhos! Distraído como sou, esqueci-me logo disso e lá me apresentei de manga curta mas, ao chegar ao "anfiteatro" feito de cadeiras de plástico dei logo com três caixas de grossas mantas à disposição dos espectadores. A coisa melhorava. Não só estava no campo, prestes a ver um texto sobre a Grécia clássica, como ainda o ia fazer embrulhado numa manta.

Já sentado, fiquei junto a uma fogueira acesa em frente ao palco e que era periodicamente renovada e melhorada com folhas de eucalipto. O campo, a fogueira, ó Deuses! Mandem vir o chocolate quente, por favor! (foi a única coisa que faltou).

A peça foi óptima. Agradavelmente longa, bem representada, assumindo descaradamente a mistura de elementos estranhos à epoca dos eventos (São José Lapa não dispensa os cigarros e a cigarreira, nem a fazer de escrava grega...) e até recorrendo a um ponto (no caso, "uma ponta") sem qualquer constrangimento, quando era necessário (o que só aconteceu duas vezes).

A família da dona Helena (a de Tróia) é lixada e, tal como acontece com todas as histórias gregas, é cheia de nomes que puxam outros nomes até chegar a um ponto onde nos podemos sentir um bocado perdidos. Não tivessem os Gregos chegado antes dos Russos e diria que lhes tinham copiado o gosto por enfiar metade da população mundial nos eventos. Mas, "Rancor" é uma peça portuguesa, da autoria de Hélia Correia. Percebi-o no fim e soube-me muito bem a notícia. Parece que tudo aquilo conseguia sempre melhorar um bocadinho mais.

Resultado final, após 100 kms de viagem e turismo: gostei muito e fico à espera do próximo espectáculo!

Ah!... e para quem diz que a cultura é cara, digo que o bilhete para este quase serão em família custou a "fortuna" de cinco euros.

Um processo de má qualidade

Gosto de descobrir teatros onde nunca pensaria que eles existissem. São caves, garagens, galerias aproveitadas por grupos independentes para montarem os seus espectáculos. Gosto da sensação de entrar numa espécie de mundo paralelo, invisível da rua, sem cartazes, sem néons, numa ausência de sinais que só aumenta a surpresa de quem chega pela primeira vez. E gosto de um bom espectáculo, seja ele no teatro nacional ou num vão de escada.

O prato desta Sexta-Feira foi a peça "O processo" baseada no texto homónimo de Franz Kafka, trazida a cena pelo grupo Gota - Teatro Oficina. O local foi um rés-do-chão na Calçada do Correio Velho (Lisboa), local que eu desconhecia até de nome, quanto mais saber que havia ali uma sala de teatro...

À chegada, fico a saber que o grupo responsável pela peça é o mesmo que levou à cena no Institute Franco-Portugais uma xaropada sobre a vida do Marquês de Sade da qual só se aproveitava a nudez de uma atraente actriz (macho é macho, vão desculpar-me...). O benefício da dúvida foi invocado e predispus-me a não alinhar em preconceitos. Mas, quando a peça começou...

Tentemos ver a coisa por comparação: na noite anterior, no Teatro Meridional (que é um armazém arranjado), por dez euros, eu vi uma bela peça, com actores competentes, bem sentado, com café à descrição, casas de banho impecáveis... Hoje, pelos mesmos dez euros, eu vi um grupo amador, numa sala onde nem ventilação havia, onde os assentos não tinham costas e a casa de banho era (como dizia o letreiro) unissexo e... porca! (nem havia com que limpar as mãos). Assim, não vale a pena!
Para compensar há a piada de estar a urinar e a ouvir os actores a prepararem-se e a mandarem bocas aos colegas...

Mas, tudo poderia ser desculpável se a peça fosse boa. Ora, o principal problema do espectáculo é que a personagem principal é representada por um não-actor. Chamo-lhe assim porque, se dissesse que ele era actor, teria de gastar três parágrafos a explicar o quão mau alguém pode ser, o quão inexpressivo, incompetente a transmitir emoções e - até -, ridículo pode parecer um indivíduo sem a mínima capacidade para representar que vá além de decorar um texto (nisso invejo-o, ainda assim). Para poupar trabalho a mim mesmo, invento esta coisa do não-actor para catalogar alguém cuja única ideia de representação é crispar as mãos sempre que a cena exige mais entrega. Ao fim de vinte minutos percebe-se que ou o não-actor tem um problema de artrite ou, pura e simplesmente, devia escolher outra qualquer actividade.

De todo o grupo, apenas se salva a intérprete feminina, senhora de formas apetecíveis mas, sobretudo, demonstradora de capacidade técnica para subir a um palco. O resto, é paisagem. E, como se não bastasse a falta de talento do intérprete principal, o encenador ainda resolveu que a peça devia ter uma banda sonora. Se esta em si já seria dispensável (tal como era na peça sobre Sade), adiciona-se ao erro a má escolha dos temas (em nada servindo para realçar a "mensagem") e o facto de, por vezes, a música quase abafar a voz do não-actor (e eu estava na primeira fila!).

Em suma, este espectáculo é perfeitamente evitável.

P.S. - por necessidades "cénicas", para que em dado momento uma personagem pudesse apontar para um casal e dizer qualquer coisa do tipo "temos convidados", duas pessoas foram obrigadas a ver a peça toda sentadas ao fundo do palco, ou seja, viram-na de lado e por trás. Incrível!