Agitações num copo de tinto...

Os noticiários têm andado ocupados com a façanha de um grupo de rapazes pertencente a um blogue que resolveu substituir a bandeira do concelho de Lisboa pela da Monarquia constitucional no que consideraram ser um gesto simbólico de reposição da legalidade no local onde foi proclamada a República, em 1910.

Como de costume com todos os assuntos que geram polémica (natural ou artificialmente), a ignorância e a estupidez vieram a campo para assegurar que durante e depois de qualquer discussão, tudo ficasse baralhado de modo a ficar na mesma e o cidadão comum, apanhado desprevenido pelo assunto, se remetesse à sua habitual placidez intelectual de quem não quer saber de nada e a única coisa que sabe é que "eles são todos uns malandros!".

Quando li pela primeira vez uma notícia sobre a acção dos elementos do "31 da Armada", não pude deixar de me rir perante os pormenores que eram descritos: três indivíduos, mascarados de Darth Vader vieram desde a Av. da Liberdade até à Praça do Município, transportando um escadote consigo. Finalmente, chegados ao local, subiram à varanda e trocaram as bandeiras. A imagem de três clones de Lord Vader, vestidos a rigor (máscara e capa, pelo menos!), atravessando durante a noite a baixa pombalina, em passo lento, ao som da "marcha imperial" e dividindo o peso de um escadote de três metros é digna do melhor humor absurdo. Quanto à mudança das bandeiras, ela satisfez nos primeiros momentos os resquícios das tendências monárquicas que tive há quinze anos.

O problema é quando o riso se cala e somos obrigados a olhar friamente para as coisas. O problema é quando as reacções ao caso nos obrigam a, também nós, reagirmos.


A coisa não foi inocente...

Aquilo que poderia ter sido uma engraçada brincadeira acabou por tornar-se um acto de desrespeito pelas instituições, de provocação política e, reduzido à sua essência, um caso de polícia. Finalmente, sabidos e vistos os pormenores do enredo, nem sequer teve a piada inicialmente imaginada: de Darth Vader só havia a máscara colocada no momento e por apenas um dos "assaltantes" o que fez desaparecer, imediatamente, todo o cenário cómico da caminhada triunfal desde a Av. da Liberdade. Afinal de contas, os descarados "heróis" tinham tentado ser discretos...

A acção foi um acto de desrespeito porque a varanda que foi assaltada não é uma qualquer varanda anónima (o que, mesmo assim, implicaria um desrespeito pelo "anónimo" seu proprietário) mas um local simbólico do regime actual e do mais importante município nacional e cidade capital do país. A varanda da Câmara Municipal de Lisboa ostenta uma bandeira que está lá porque o sistema político assim o concede e exige. O pavilhão municipal representa a edilidade mas também o seu povo e o seu passado. É assim com os símbolos: são-no porque os reconhecemos enquanto tal e por isso se constituem elementos a proteger. Dizer que foi "apenas" a bandeira de Lisboa pode satisfazer a crença numa hierarquia de símbolos (a CML vale menos do que o País mas mais do que a Freguesia de Alvalade) mas omite o facto de que, mesmo nessa hierarquia, um município é algo com bastante importância.

Houve um acto de provocação política porque os autores da "operação" sabiam perfeitamente o que faziam, jogando com o imaginário republicano que, erradamente, associa a proclamação da República ao hastear da bandeira verde-rubro nos Paços do Concelho (nessa altura, ainda não havia uma bandeira escolhida, sequer), tentando aproveitar o sempre presente espírito anarquista do cidadão-comum que espera que qualquer coisa aconteça para por a "malandragem" na ordem e, finalmente, gerar desta forma a discussão pública sobre as virtudes do regime monárquico, sintomaticamente apresentado como a salvação para a bagunça da República, no que segue a linha de acção republicana durante o reinado de D. Carlos.

Por último, a troca de bandeiras foi um acto de polícia. Por mais que a irresponsabilidade de alguns ou o cinismo de outros possa repetir que não houve danos causados nem intenção de os causar, que nenhum furto foi efectuado e que a bandeira seria devolvida a quem de direito (publicamente, já se vê, para prolongar o efeito da coisa), tudo não pode deixar de ser visto como uma intolerável chacota para com as instituições e para com a lei, vinda de pessoas que, supostamente, se apresentam como defensoras de um regime capaz de acabar, precisamente, com a bandalheira da qual elas agora se pretendem valer para escaparem impunes.


Responsáveis e cúmplices

Mas como acontece quase sempre, consegue-se olhar as coisas de forma a levantar novos problemas. No caso, mais importante do que qualquer simbolismo político que só diz algo a quem faça questão de por os óculos, este caso de polícia deve tornar-se, precisamente, um caso "para" a Polícia. Porque há que explicar como é que é possível que, a apenas cinquenta metros de uma esquadra, no centro da cidade, perto de uma zona "sensível" (bares do Cais do Sodré), defronte de instalações da Armada e junto a bancos (como o Banco de Portugal, por exemplo), é possível que três indivíduos subam a uma enorme varanda na fachada principal da Câmara Municipal da capital do país sem que ninguém os note! Omite-se aqui a passagem daquele cidadão que se vê no vídeo e que se esteve lixando para o caso. Afinal de contas, é natural estar alguém a subir à varanda da CML, escondendo-se na sombra, a meio da noite, com um tipo a filmar do outro lado da praça. A máscara do Darth Vader também não o incomodou porque a sogra costuma usar uma quando lá vai a casa...

E como se não fosse suficiente a ausência de vigilância (ou denúncia), a bonita bandeira azul e branca ainda teve o direito de flutuar livremente até perto das 13:00, ou seja, esteve visível durante quatro ou cinco horas no período de serviço da CML! E aqui, pergunta-se: anda toda a gente de olhos no chão ou os funcionários camarários acharam graça à coisa e não fizeram nada? Se é este o caso, então, estamos perante gente que não pode ser considerada de confiança e que merece ser chamada à tábua, gente que desrespeita os símbolos da própria instituição que lhes paga o ordenado e lhes concede não poucas regalias.

Mas, por estranho que pareça, nem a ausência policial, nem a cumplicidade dos funcionários (porque só pode ter existido!, activa ou passiva) parece ter sido capaz de gerar verdadeira estranheza na opinião pública. Umas meras "bocas" respeitantes à enorme insegurança que se sente na zona (o Português só se sente seguro dentro de um cofre), foram tudo o que se ouviu cair no habitual saco roto da responsabilização.

As cumplicidades não acabam aqui. Quando percorremos esse inferno de neuróticos que são os comentários às notícias na internet, vemos que a opinião geral varia entre o nada fazer e o aplauso aos bloguistas. Os autores dos comentários da primeira espécie pertencem a essa casta tão nacional dos indivíduos que vociferam contra tudo e todos apelando constantemente às maiores penas mas imediatamente desculpabilizando as vítimas iniciais dos seus impropérios caso elas sejam efectivamente responsabilizadas por quem exale o mínimo odor a poder e a autoridade. Porque esta quer-se, obviamente; porque aquele precisa-se, claro; mas os dois juntos é que não dão jeito. Ter poder para exercer a autoridade e fazê-lo é pecado que nem a Nossa Senhora de Fátima com as suas lágrimas pode perdoar. Já basta que deixe escapar os políticos e os pedófilos que são, como todos sabemos, uma cambada de assassinos... Quanto ao segundo tipo de comentadores, substituem a irresponsabilidade cívica, pelo cinismo oportunista e por uma quase enternecedora fantasia...


O reino do faz-de-conta

... porque, se há coisa que parece marcar a chamada "causa monárquica" no nosso país é uma espécie de suave alheamento da realidade que se abate sobre os seus defensores. Não estou aqui a dizer que defender a monarquia é, em si mesmo, coisa de aluados mas é um facto que, quando confrontados com muitos textos que circulam na internet (ou que nos são impingidos via email), é impossível não deixar de pensar que qualquer coisa funciona de maneira diferente na percepção da realidade que os monárquicos parecem ter.

Qualquer ideal político que não colida com os princípios básicos da dignidade humana tem direito a ser defendido e o respeito por esse direito - o da livre expressão de pensamento (juntamente com o da livre associação) -, constitui uma das marcas definidoras do Estado de Direito.

Parece claro que nenhuma monarquia ocidental (ou a japonesa) possam ser apontadas como não sendo estados de direito, isto apesar de os seus regimes políticos assumirem, na essência, uma desigualdade social nas pessoas dos membros das famílias reais e da nobreza. É uma concessão que, hoje, os cidadãos livres desses países aceitam em nome da tradição mas também da estabilidade política.

Portanto, negar aos monárquicos portugueses o seu "direito de antena" é algo que não se pode aceitar sob pena de se entrar em contradição com os próprios princípios republicanos de igualdade e liberdade. Mas coisa muito diferente é fechar os olhos à utilização de meios menos próprios para promover uma causa que, nas mais das vezes, vive na mais profunda sombra sem que se entenda o que fazem os seus defensores para a tirar de lá.

Desde há muitos anos que sou apenas um Monárquico não praticante. O principal motivo reside no facto que [SIC] o movimento monárquico estar tomado por vaidosos que vivem numa redoma de vidro, imaginando que estão num país faz-de-conta de viscondes, baronetes e escudeiros, que se pelam por falsas honrarias e distinções estapafúrdias.




Ser-se monárquico parece ser uma actividade de salão, tão própria de um contexto elitista quanto as elites que se pretende defender. Se há "povo monárquico", ele vive calado: não pinta as paredes, não cola cartazes, não faz comícios, não subscreve petições, não se faz notar. E é aqui que entra a fantasia: na ideia que alguns irredentistas pretendem fazer passar de que não só existe uma maioria monárquica mas silenciosa (porquê?, pergunto), como também existe um forte movimento pró-monárquico cheio de vigor e acção criando uma onda de adesões constantes aos seguidores da Casa de Bragança.

Se existe uma "maioria silenciosa" de monárquicos, o mínimo que se exige é que se manifestem, em nome dos seus ideiais e da democracia, porque esta é feita para todos e nada mas, absolutamente nada, os impede de falar (ainda que os impeça de verem o seu "líder" entronizado). A verdade é que sendo sobejamente conhecidas várias figuras públicas que se assumem como monárquicas, a sua actividade enquanto tal parece resumir-se a "bocas" em público (muito ao jeito dos irmãos Câmara Pereira) ou à produção de textos de cariz quase iniciático que, fatalmente, escapam à maioria da população. Talvez a razão de ser da falta de empenho em promover os seus ideais tenha a ver, precisamente, com a tal fantasia da maioria silenciosa. Não vale a pena conquistar adeptos se já se é maioria. Se assim não é, o caso é mesmo bizarro...

Quando pensamos que o líder do CDS/PP - Paulo Portas -, é apontado como sendo monárquico (mas nem uma palavra lhe ouvimos publicamente sobre isso); que o até há pouco presidente do maior banco privado português (e antigo Secretário de Estado) - Paulo Teixeira Pinto -, é assumidamente monárquico; que artistas como João Braga e toda a família Câmara Pereira o são (gente com "acesso" à comunicação social); que o muito considerado Gonçalo Ribeiro Telles é; que o popular escritor João Aguiar, é; que o tristemente célebre Sousa-Lara, é [certo... :|]; que há ou houve generais, empresários, políticos que são ou foram e que não usaram qualquer da sua influência para, publicamente, defenderem a sua causa, então, é legítimo perguntar: o que querem os monárquicos, afinal?


O que querem eles, não sei. Suponho que tudo se resuma a uma maneira de estar, uma espécie de "somos melhores porque somos diferentes porque somos poucos". Há uma atracção que as franjas da acção política exercem que não é equiparável ao "carneirismo" dos movimentos maiores. Ser-se social-democrata ou socialista não produz qualquer aura de prestígio. Ser-se comunista já conta alguma coisa (pelo lado quase folclórico). A filiação bloquista é sinónimo de rebeldia política e social e o CDS/PP é coisa para gente que sabe estar... Quanto menor a representatividade, maior a auto-consideração que os "partidários" têm por si mesmos, mais forte é a sensação de se pertencer a uma casta iluminada. No limite, o prestígio absoluto é conseguido pela pertença a um grupo tão pequeno, tão exclusivista quanto uma família. A real serve como exemplo máximo.

O único local onde a presença monárquica se faz sentir é a internet. Quando começamos a procurar, encontramos não uma mas duas mãos-cheias de sites e blogues de tendência monárquica, repletos de longos textos sobre tudo aquilo que os monárquicos considerem fazer parte da sua "ideologia". Coisas que vão do social à gastronomia, passando pela defesa do património e até mesmo a... política. O estilo de escrita é, demasiadas vezes, assumidamente caceteiro, achincalhador, ofensivo mesmo, em tudo recorrente do que era o estilo republicano durante o estertor da Monarquia. Tal como acontecia com os republicanos de antanho, para os monárquicos "activos" a utilização da palavra em forma severa e acusatória faz parte da cartilha activista. A ostensiva adjectivação perjorativa dos "adversários", a generalização de atribuição de comportamentos reprováveis, a responsabilização sistemática do regime pelos problemas comuns a todas as sociedades actuais, a defesa de uma espécie de pureza ética assente em critérios próprios da ideologia defendida, tudo isso são coisas banais e próprias dos arrabaldes do espectro político, ontem e hoje, chame-se aos partidários dos movimentos fascistas, comunistas, monárquicos, republicanos ou fiéis de Deus.

Os monárquicos, pretendendo ser diferentes, acabam por sofrer dos mesmos vícios que quaisquer outras das "forças políticas" que eles tanto acusam. Um dos mais irritantes é a soberba...


Mensagem errada, na altura errada

Se fizermos uma passagem pelos conteúdos disponíveis na net, sejam eles os comentários a artigos ou textos ideológicos, uma das coisas que ressalta é a ideia de superioridade ética e cultural que os monárquicos têm de si. Mais do que verem-se como portadores de uma mensagem política, eles pretendem ser vistos como uma reserva moral e cultural que só não é apreciada pelo país porque este se encontra dominado por forças malévolas (entenda-se, a Maçonaria) que tudo fazem para manter o povo na ignorância e assim impedir os supremos desígnios da nação de se concretizarem.

Para o monárquico, o conhecimento da História é essencial. Não tanto pelos ensinamentos que ela nos dá (e que deviam fazer da disciplina uma coisa essencial na formação de qualquer cidadão) mas porque permite fundamentar o sentido de vassalagem (e, consequentemente, a negação das suas alternativas) em episódios históricos mais ou menos distantes. Este conhecimento (que traz, por arrasto, a ideia de que os "outros" não o possuem), torna-se, para alguns, uma obsessão alimentadora de complexos ao permitir-lhes extrair de algo que não é exacto mas sim sujeito a interpretações, todo um conjunto de dogmas baseados num particular sentido de descontextualização histórica, como são, por exemplo, o caso da legitimidade do regime monárquico derivada da fundação oficial da Nação no remoto ano de 1143, os feitos "gloriosos" no Séc. XVI ou a (suposta) "decadência" nacional pós-implantação da República.

Mas não basta a má qualidade dos músicos, é a própria partitura que é má. Quando a população vive numa obsessão anti-autoridade alicerçada na ideia de que todo o poder é corrupto e "eterno", os monárquicos propõem um poder que nem sequer pode ser "controlado" pela população. Quando os cidadãos se queixam da existência de uma casta social e clientelista composta pelos detentores de cargos políticos, os monárquicos propõem um regime onde se acrescenta uma nova casta (a nobreza), com existência legalmente consagrada e não tendo por base qualquer noção de mérito ou esforço. Quando as igrejas se esvaziam e o desinteresse pela religião é cada vez maior (para apenas ser contrariado por fundamentalismos ou charlatanices), os monárquicos propõem um regime assente na noção de Deus e servido por católicos praticantes. Quando a liberalização de costumes conquista as pessoas e se instala como "a maneira de estar" actual, os monárquicos propõem o conservadorismo.

Em contrapartida, munem-se de argumentação demagógica tendente a aproveitar o descontentamento da população (que é essencialmente induzido pela comunicação social e pela falta de frieza intelectual do cidadão comum), enfatizando comparações como aquelas que pretendem condicionar o apoio a um regime pelas verbas necessárias à sua manutenção, argumento este que, levado ao extremo, acabaria pura e simplesmente com a democracia, já que seria mais barato sustentar unicamente um ditador do que um parlamento (situação que nem Salazar tentou).

Outro dos argumentos preferidos pelos monárquicos é a situação económica (mais uma vez, fala-se de dinheiro) das monarquias ocidentais que, segundo aqueles, apresentam níveis de desenvolvimento superiores aos das repúblicas. A coisa tresanda a demagogia, ignorando-se por completo a evolução histórica das diversas nações, as causas da sua situação actual, os diferentes contextos geopolíticos, etc., para se atirar ao público, com todo o desprezo de quem diz "para quem é, basta", uma posta de má qualidade com o carimbo de "um Rei faz bem".

A França republicana tem um nível de desenvolvimento superior ao da Espanha monárquica (com a maior taxa de desemprego da Europa) que foi fruto de uma brutal guerra civil e do governo de um ditador sanguinário e que sabe que, no dia em que o Rei cair, o Estado desmorona-se. A também republicana Alemanha tem qualidade de vida superior à do Reino Unido, país com tensões sociais e políticas e uma família real cujo descrédito não pára de aumentar e que vale mais como cartaz turístico do que como interveniente na vida social e política do país. A Bélgica é um Estado colado com cuspo, onde o Rei já nem do país pode dizer que é mas tão-só dos cidadãos, vivendo o país sujeito às constantes tensões entre as suas comunidades étnico-linguísticas. O Luxemburgo e o Liechtenstein são micro-estados que, naturalmente, beneficiam da sua situação geográfica e do facto de não deverem satisfações a mais nada do que ao seu bem-estar material. O Mónaco é uma estância balnear para milionários cujo destino enquanto estado independente está entregue às capacidades reprodutoras do príncipe herdeiro que, se falhar nessa tarefa, será responsável pela entrega das chaves do principado à França. A Holanda foi ao longo da sua História um país retalhado e colado, sujeito às marés da política continental mas que sempre apostou na iniciativa privada e mercantil e que soube aproveitar a sua situação geográfica privilegiada sendo hoje um exemplo de liberalismo social dificilmente aceitável pelos conservadores monárquicos portugueses.

E restam-nos as três monarquias nórdicas (porque a monarquia no Canadá, Austrália e Nova Zelândia conta quase como "aberração"). Que dizer destas? Que dizer do desenvolvimento que ostentam? Que não tiveram colónias e, logo, foram obrigadas a aprender a viver do que tinham? Que não passaram por processos revolucionários? Que se encontram numa zona tradicionalmente "movimentada" da Europa? Que a social-democracia não foi certamente inventada no gabinete dos reis? Que o petróleo e os mares noruegueses não estão lá por iniciativa real?

Na verdade, pouco interessa porque, se há coisa que se percebe na argumentação monárquica é que ela é falha de sentido, ora preferindo apoiar-se em lugares comuns que apelam à cupidez e à revolta, ora enrolando-se em intrincadas teorias messiânicas que nada dizem aos não-iniciados.

O marketing monárquico, em suma, é quase nulo e, quando damos por ele, é para o acharmos mau. Mesmo o momento de maior exposição mediática e simpatia popular que a Monarquia teve desde 1910 (o casamento de Duarte Pio com Isabel Herédia) foi completamente desperdiçado pelos sempre etéreos monárquicos que terão gritado muitos "Viva o Rei!" (eu também lá estava e fi-lo pela piada) para, no dia seguinte, voltarem à sua habitual inércia. Deus há-de ajudar!

Mas, diz o ditado, que "Deus ajuda quem se ajuda a si mesmo" e o que se vê é que a atrapalhação é tanta nas hostes azuis e brancas que não só os monárquicos não se ajudam como se prejudicam. Exemplo disso são os recentes comentários de Duarte Pio acerca de José Saramago e do seu famoso "O evangelho segundo Jesus Cristo". Não é que Saramago tenha de ser consensual, longe disso. Não fica é bem a alguém que se quer assumir como representante máximo de uma alternativa de regime pretensamente patriótico envolver-se em polémicas estéreis baseadas em conservadorismo religioso com aquele que é a maior expressão da nossa literatura actual (e o único Prémio Nobel de Língua Portuguesa). No mínimo, representa alguma falta de sentido de oportunidade (para estar calado). Por vezes, valemos mais pelo que não dizemos do que pelas opiniões que expressamos...

E já que a conversa nos traz até Duarte Pio, aproveito a oportunidade para perguntar: já está resolvida a questão sobre quem é o legítimo herdeiro do trono português? É que, como se não bastasse a monarquia não ser "apetecível" para o público em geral, ser vítima de imensos preconceitos (quase todos ligados a uma enorme ignorância sobre o que é o papel de um rei constitucional), Duarte Pio não ter uma figura "interessante" e passar a ideia de ser alguém pouco dotado intelectualmente (ideia completamente rebatida por todos os que o conhecem) (*), ainda há a questão de os próprios monárquicos estarem divididos entre si, quase 100 anos depois do fim da Monarquia!

Nuno da Câmara Pereira publicou a expensas próprias (julgo), um livro onde constrói uma teoria que visa provar que o verdadeiro herdeiro da coroa é alguém cujo título nobiliárquico é Duque de Loulé (por oposição ao de Duarte Pio, que é Duque de Bragança). Este Câmara Pereira - que canta o fado mas não finge tocar um instrumento -, é o presidente do PPM, o partido cuja insignificante expressão e teimosia em se manter no activo constitui um dos mais fáceis argumentos usados pelos republicanos empedernidos (e pouco inteligentes) para demonstrar a falta de apoio popular à causa monárquica.

Mas, se por acaso alguém achar que Duarte Pio e o tal "Duque de Loulé" não servem para reinar, ainda há a hipótese de contarem com Jacob Xavier ou mesmo com Rosário Poidimani. E não falamos no Rei da Fuzeta!

Se isto não é prova da incapacidade da ideia monárquica para se afirmar como alternativa viável à República, dir-me-ão o que é...


E os rapazes?

Pois é, e os rapazes do "31 da Armada"? Bom, que sirvam de exemplo para que novas palhaçadas não aconteçam. A liberdade está aí mas não é para subir às varandas dos outros e o argumento boçal de que gente pior anda à solta só colhe em espíritos embrutecidos. Não bastava aos rapazes fazerem a brincadeira, ainda sentiram necessidade de se exibirem perante o mundo. Agora, arcam com as consequências de terem produzido prova contra si mesmos...

Quanto à causa monárquica, as ruas estão abertas às manifestações da sua "imensa" massa de adeptos, as avenidas pedem para se encherem com paradas, as praças gritam por comícios. Alguém os impede? Talvez a falta de quorum...

De tudo isto só se aproveita uma coisa, a constatação de que a bandeira era muitíssimo mais bonita...


(*) - o que não é o mesmo que dizer que não seja uma pessoa "desajeitada". A título de exemplo, a oferta de um calendário com uma fotografia da "família real" a um oficial superior do exército, em Timor...

1 comentário:

Daniel Nunes Mateus disse...

A sua critica está muito boa, só que têm um problema: Não exprime totalmente a realidade da causa monárquica e isto porque sou monárquico interventivo na causa real. Como Rodrigo Moita de Deus diz: Não há monárquicos, não há repúblicanos, há gente que está a marimbar-se para tudo e qualquer coisa e só querem aproveitar as oportunidades de terem um "tacho". O republicanismo e o monarquismo não existem, só o marimbismo.
Mas a causa monárquica está a organizar-se bem só que lhe falta uma coisa: dinheiro e tempo de antena. Ser-se monárquico é ser-se absolutista, salazarista e perante as "elites" que dominam e controlam o poder isso não fica bem para muitos conhecidos monárquicos. É por isso que o ataque têm de ser sorrateiramente.