"Demo" - São Luiz

Quanto mais espectáculos se vêm, maior é a possibilidade de apanharmos com barretes. Numa semana em que fui quatro ou cinco vezes ao teatro, apanhei com dois. Este, "Demo", pelo Teatro Praga, no São Luiz (Lisboa) foi o segundo e, concerteza, o maior.

"Demo" pretende ser um musical. No fim da introdução em Alemão (a peça é falada em várias línguas, até Estónio!), quando começa a parte musical, percebemos logo que ali, "musical" não é entendido da mesma forma que nos teatros de La Féria. Os textos sucedem-se com um sentido difícil de perceber e as mudanças de língua são frequentes. Há um écran com tradução lá em cima, o que nos obriga a estar constantemente a olhar quase para o tecto da sala para sabermos que disparates é que as personagens vão dizendo.

Como peça, "Demo" limita-se a um conjunto de gente em cima de um palco, debitando alarvidades. Haverá muito ensaio e coordenação, certamente, mas isso não assegura sentido às coisas. Como musical, o mínimo que se pode dizer é que é um perfeito aborto sonoro. Quando não há, sequer, a tentativa de construir linhas melódicas e de "musical" se entende apenas a produção de peças sonoras servidas por letras absurdas, então, algo está mal. Na cacofonia, qualquer um é um mestre.

Todos nós que já tivemos contacto com um instrumento musical sabemos que há momentos de desânimo ou fastio em que nos entregamos meramente a fazer sons para matar o tempo. Esta peça parece um desses momentos mas, ao contrário do que sucede com o músico anónimo, aqui há um público que merece ser bem servido e dinheiro aplicado que merece ser rentabilizado com qualquer coisa melhor do que esta estupidez que mais parece uma diversão embriagada por parte do elenco do que uma coisa feita com tino.

A meio do espectáculo, caído do céu, aparece Rão Kyao para aquele que foi o único momento verdadeiramente musical da peça. Ainda assim, há que compreender que Kyao e as suas flautas indianas perderam logo o interesse um mês depois do lançamento de "Estrada da Luz", quando se percebeu que ele já não conseguia fazer mais do que aquilo. E até isto já foi numa outra vida...

Provavelmente, o pior espectáculo que já vi...

Sem comentários: