A família da dona Helena

Ontem, para ir ao teatro foi preciso fazer-me à estrada, rumo ao sul. Procurava o "Espaço das Aguncheiras", ali para os lados do Cabo Espichel e a cargo da "vaporosa" São José Lapa.

A ideia era ver a peça "Rancor - exercício sobre Helena", apresentada literalmente no meio do campo: um palco e alguns elementos cénicos no meio dos arbustos, dentro de uma quinta propriedade da actriz. À nossa volta, a natureza e a brisa nocturna. E, por causa desta, era feito o aviso: levem agasalhos! Distraído como sou, esqueci-me logo disso e lá me apresentei de manga curta mas, ao chegar ao "anfiteatro" feito de cadeiras de plástico dei logo com três caixas de grossas mantas à disposição dos espectadores. A coisa melhorava. Não só estava no campo, prestes a ver um texto sobre a Grécia clássica, como ainda o ia fazer embrulhado numa manta.

Já sentado, fiquei junto a uma fogueira acesa em frente ao palco e que era periodicamente renovada e melhorada com folhas de eucalipto. O campo, a fogueira, ó Deuses! Mandem vir o chocolate quente, por favor! (foi a única coisa que faltou).

A peça foi óptima. Agradavelmente longa, bem representada, assumindo descaradamente a mistura de elementos estranhos à epoca dos eventos (São José Lapa não dispensa os cigarros e a cigarreira, nem a fazer de escrava grega...) e até recorrendo a um ponto (no caso, "uma ponta") sem qualquer constrangimento, quando era necessário (o que só aconteceu duas vezes).

A família da dona Helena (a de Tróia) é lixada e, tal como acontece com todas as histórias gregas, é cheia de nomes que puxam outros nomes até chegar a um ponto onde nos podemos sentir um bocado perdidos. Não tivessem os Gregos chegado antes dos Russos e diria que lhes tinham copiado o gosto por enfiar metade da população mundial nos eventos. Mas, "Rancor" é uma peça portuguesa, da autoria de Hélia Correia. Percebi-o no fim e soube-me muito bem a notícia. Parece que tudo aquilo conseguia sempre melhorar um bocadinho mais.

Resultado final, após 100 kms de viagem e turismo: gostei muito e fico à espera do próximo espectáculo!

Ah!... e para quem diz que a cultura é cara, digo que o bilhete para este quase serão em família custou a "fortuna" de cinco euros.

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