Um processo de má qualidade

Gosto de descobrir teatros onde nunca pensaria que eles existissem. São caves, garagens, galerias aproveitadas por grupos independentes para montarem os seus espectáculos. Gosto da sensação de entrar numa espécie de mundo paralelo, invisível da rua, sem cartazes, sem néons, numa ausência de sinais que só aumenta a surpresa de quem chega pela primeira vez. E gosto de um bom espectáculo, seja ele no teatro nacional ou num vão de escada.

O prato desta Sexta-Feira foi a peça "O processo" baseada no texto homónimo de Franz Kafka, trazida a cena pelo grupo Gota - Teatro Oficina. O local foi um rés-do-chão na Calçada do Correio Velho (Lisboa), local que eu desconhecia até de nome, quanto mais saber que havia ali uma sala de teatro...

À chegada, fico a saber que o grupo responsável pela peça é o mesmo que levou à cena no Institute Franco-Portugais uma xaropada sobre a vida do Marquês de Sade da qual só se aproveitava a nudez de uma atraente actriz (macho é macho, vão desculpar-me...). O benefício da dúvida foi invocado e predispus-me a não alinhar em preconceitos. Mas, quando a peça começou...

Tentemos ver a coisa por comparação: na noite anterior, no Teatro Meridional (que é um armazém arranjado), por dez euros, eu vi uma bela peça, com actores competentes, bem sentado, com café à descrição, casas de banho impecáveis... Hoje, pelos mesmos dez euros, eu vi um grupo amador, numa sala onde nem ventilação havia, onde os assentos não tinham costas e a casa de banho era (como dizia o letreiro) unissexo e... porca! (nem havia com que limpar as mãos). Assim, não vale a pena!
Para compensar há a piada de estar a urinar e a ouvir os actores a prepararem-se e a mandarem bocas aos colegas...

Mas, tudo poderia ser desculpável se a peça fosse boa. Ora, o principal problema do espectáculo é que a personagem principal é representada por um não-actor. Chamo-lhe assim porque, se dissesse que ele era actor, teria de gastar três parágrafos a explicar o quão mau alguém pode ser, o quão inexpressivo, incompetente a transmitir emoções e - até -, ridículo pode parecer um indivíduo sem a mínima capacidade para representar que vá além de decorar um texto (nisso invejo-o, ainda assim). Para poupar trabalho a mim mesmo, invento esta coisa do não-actor para catalogar alguém cuja única ideia de representação é crispar as mãos sempre que a cena exige mais entrega. Ao fim de vinte minutos percebe-se que ou o não-actor tem um problema de artrite ou, pura e simplesmente, devia escolher outra qualquer actividade.

De todo o grupo, apenas se salva a intérprete feminina, senhora de formas apetecíveis mas, sobretudo, demonstradora de capacidade técnica para subir a um palco. O resto, é paisagem. E, como se não bastasse a falta de talento do intérprete principal, o encenador ainda resolveu que a peça devia ter uma banda sonora. Se esta em si já seria dispensável (tal como era na peça sobre Sade), adiciona-se ao erro a má escolha dos temas (em nada servindo para realçar a "mensagem") e o facto de, por vezes, a música quase abafar a voz do não-actor (e eu estava na primeira fila!).

Em suma, este espectáculo é perfeitamente evitável.

P.S. - por necessidades "cénicas", para que em dado momento uma personagem pudesse apontar para um casal e dizer qualquer coisa do tipo "temos convidados", duas pessoas foram obrigadas a ver a peça toda sentadas ao fundo do palco, ou seja, viram-na de lado e por trás. Incrível!

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