Igualdade q.b.

O Conselho de Segurança da ONU emitiu uma resolução referente à igualdade de géneros em zonas de combate. O nosso governo, na sequência, aprovou um "plano nacional de acção" para a igualdade de géneros. Acho bem!

A verdade é que se há coisa que me toca é a igualdade. Igualdade entre classes, sexos, raças, culturas, tudo!

Mas... o que é que se entende por igualdade? E até que ponto é que a procura desta não favorece novas desigualdades?

Aquilo a que assistimos inicialmente com as sufragistas foi a reinvindicação de um nível mínimo de igualdade perante o Estado, seguido de outros avanços tendentes a assegurar que mulheres e homens tinham acesso igual à participação cívica, por se entender que não existe verdadeira democracia quando não há igualdade de tratamento perante a lei. Faz sentido e é nobre.

O problema é que, ao mesmo tempo que as mulheres foram conquistando os seus direitos legítimos, o seu leque de obrigações não aumentou na devida proporção e mantiveram-se mesmo (quando não se encorajaram) situações discriminatórias para com os homens. Os exemplos são fáceis de trazer à discussão:

1) Forças Armadas: as mulheres fizeram questão de poderem ingressar nas fileiras do Exército e demais armas mas nunca demonstraram qualquer interesse em apoiar o fim do serviço militar obrigatório (que era "castigo" exclusivo dos homens) e muito menos de exigirem que também elas fossem forçadas a entrar nos quartéis. Também não se notou grande combatividade feminina no sentido de acabar com a regra quase universalmente aceite de não enviar "militares-fêmea" para zonas de combate. Ou seja, o feminismo lutou por alcançar um direito mas ignorou as obrigações.

2) Custódia paternal: as mulheres exigiram à sociedade não serem vistas como meras "mães" mas como cidadãs participativas que poderiam, ou não, querer a maternidade. E lutaram para que os homens se tornassem mais participativos nas tarefas caseiras e, de um modo geral, mais envolvidos nas questões familiares. No entanto, continua a vigorar (e a ser por elas alimentado) um preconceito baseado numa suposta predisposição das mulheres para cuidarem das crianças, preconceito esse que lhes assegura posição largamente privilegiada nos tribunais, sempre que se dá uma disputa pelo poder paternal. Não se vê qualquer movimentação feminina tendente a corrigir semelhante injustiça.

3) Trabalho: as mulheres empenharam-se em aceder aos postos de trabalho que antigamente estavam "oficiosamente" reservados aos homens e a sua preponderência em determinadas áreas académicas indica que, no futuro, é bem possível que uma boa parte dos lugares de decisão esteja nas suas mãos. Uma das lutas femininas no local de trabalho prende-se com a igualdade nas remunerações. No entanto, nota-se uma perfeita ausência de preocupação igualitária quando toca a outras condições de trabalho, nomeadamente no facto de uma grande parte dos homens ser obrigada a vestir-se de acordo com regras estabelecidas (fato e gravata) ao mesmo tempo que às mulheres é concedida liberdade quase total na escolha da indumentária. Só não sabe o valor disto, quem não tem de viver "encafuado" numa armadura de pano...


4) Exclusividade: a existência de ambientes reservados (formal ou informalmente) a homens tem sido contestada pelas mulheres, desde as já referidas forças armadas até aos selectos e exclusivos "clubes de cavalheiros" britânicos, não hesitando algumas em recorrer à via judicial para alcançarem os seus fins. Para as feministas, é inaceitável que a condição de mulher as possa arredar de qualquer instituição, pública ou particular. No entanto, assistimos a uma profusão de ambientes e serviços unicamente reservados a mulheres, como sejam os ginásios 100% femininos, as corridas de beneficência (aparentemente, os homens não podem ser solidários no que diz respeito ao cancro da mama - mesmo que já se tenha provado que também podem sofrer dele), os canais de TV dirigidos às mulheres, acesso gratuito a estabelecimentos de diversão nocturna, noites temáticas nos mesmos estabelecimentos onde só elas podem entrar, condições preferenciais nos seguros com tipos de apólices só para condutoras, etc. Nada disto parece fazer qualquer impressão às defensoras da igualdade.

5) Quotas: em nome da igualdade de acesso ao poder, o igualitarismo empedernido gizou esquemas de modo a forçar à igualdade representativa nos órgãos de soberania (ou na tentativa de acesso a eles), inventando proporções de 1/2, 1/3, as mais das vezes perfeitamente deslocadas da realidade social e política (há efectivamente muito menos mulheres envolvidas na política) e passando por cima de critérios que deveriam ser sagrados - como o mérito -, entrando em contradição com aquilo que seriam os princípios básicos de verdadeira igualdade - natural! - entre géneros. O paternalismo masculino (que bem que fica aqui uma senhora!) aliado a um optimismo apalermado por parte de algumas "colaboradoras" tem sido, curiosamente, das poucas coisas em que se tem manifestado alguma contestação feminina, talvez por via de um certo orgulho ferido com base na rejeição de favores. Mas já não se tem assistido a qualquer desconforto quando, de forma desbragada, são feitos elogios às "mulheres na política" e a uma suposta "maneira diferente de estar" (que escapa à maioria das pessoas). A ser verdade semelhante diferença, teríamos uma Caixa de Pandora aberta...

6) Tratamento diferenciado: já por duas vezes (à entrada da Colecção Berardo) e num hipermercado (em tempos de "ameaça" terrorista), se deu a totalmente humilhante e inaceitável situação de a todos os homens ser "pedido" que deixassem as suas mochilas no bengaleiro ao mesmo tempo que as visitantes/clientes eram deixadas entrar com as suas malas, mochilas e sacos sem que qualquer reparo lhes fosse feito. Em ambos os casos, nenhuma mulher, mesmo as que acompanhavam homens, levantou qualquer objecção a semelhante discriminação, baseada em critérios que só podem ter origem numa cabeça com problemas. Situação idêntica acontece na entrada para concertos e grandes eventos, onde os homens são revistados enquanto que as mulheres são, na generalidade, deixadas passar sem qualquer incómodo. Como se isto não fosse condenável pela diferenciação de tratamento, ainda há a questão de segurança: um ataque terrorista ou um acto de vandalismo pode ser facilmente executado se for por uma mulher...

Ou seja, a natural vontade do sexo feminino de se ver equiparado ao masculino tem como limites o próprio interesse e conforto das mulheres, sendo este o único princípio a reger as suas reinvindicações. Ao contrário do que sucedeu com os direitos das mulheres - que contaram com o apoio de muitos homens (nomeadamente aqueles com poder para mudarem as coisas) -, nas situações em que os homens estejam em desvantagem, a ausência de preocupação por parte do outro sexo é total.

Como sou um firme crente na igualdade plena e até já tive de me bater por isso (para ouvir coisas do tipo "sou uma rapariga, não posso andar a acartar caixas!"), irrita-me particularmente a retórica feminista que apela a elevados princípios mas sempre condicionada ao interesse próprio, seja ele ao mais alto nível da organização social ou à porta do bar...

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