
Se você é daqueles que gosta de cerveja e cuja alminha rejubila ao ouvir falar da "lendária" Oktoberfest, em Munique, então, deve ter ficado perto do êxtase ao saber que Lisboa iria ser a mais recente cidade a ter uma versão da copiosa festa alemã. Sim, eu também fiquei entusiasmado.
Ora, como em tudo, não basta ficar "em pulgas", há que ir atrás delas e lá rumei mais umas pessoas até ao Campo de Santana onde, junto à estátua do santinho doutor milagreiro foi montado um palco rodeado de mesas compridas para os convivas e, a uma certa distância, mais uma zona de comes e bebes. Pelo meio, nada.
À chegada (a horas), a desorganização era evidente. Coisas a serem montadas, informação que não era muito certa. Estes alemães do sul devem ser diferentes, pensei eu.
Numa mesinha em jeito de recepção, várias canecas de tamanho respeitável abriam o "apetite". Olhámos para os menus (sim, aquilo vai por menus) e vimos que o mais caro (EUR 18) dava direito a uma caneca. O pessoal gostou da ideia. Olhou-se para os menus e procurou-se mesa. Informaram-nos de que a zona rodeando o palco era só para convidados. Pena.
Volta para aqui, volta para ali, chega mais alguém e vai sentar-se na zona para convidados. Em boa hora o fez porque acabámos todos por lá ficar. Afinal, parece que eram só algumas mesas. Ou não...
Dirigimo-nos à barraquinha das senhas para pagar os menus. Tudo estava a ser ainda preparado. Esperámos, esperámos... e a espera só não foi uma enorme seca porque a morenaça que ia vender as senhas era deslumbrante. Tão deslumbrante que nem me chateei quando, a meio da venda das senhas, ela descobriu que não tinha as do menu que eu queria e teve de ir não sei onde buscar as senhas. Tão deslumbrante que quando ela chegou com as novas senhas e descobriu que ainda não tinha trazido as que ia originalmente buscar, eu não consegui ficar irritado. Por mim, ficava a noite toda a vê-la passar...
Bom, vinte e sete euros depois (um menu de EUR 15 e outro de EUR 12) e já toda a gente sentada à mesa, foi altura de mais uma espera. Quase uma hora até termos uma cerveja na mesa. Pelo meio, os "convidados" a comerem e beberem, a banda a tocar e umas quantas personagens a fazerem discursos que ninguém ouvia porque nem um microfone havia. Honra seja feita ao nosso António Costa (o presidente da câmara) que, com a sua voz forte, se fez ouvir. Só é pena que à voz forte não corresponda um braço igualmente vigoroso e tenha sido uma dificuldade para espetar o sifão no barril cerimonial. À décima marretada, a cerveja lá escorreu...
Mais umas palavrinhas da praxe, os convidados a comerem e beberem e nós a vermos.
Finalmente chegam as cervejas. As canecas que tínhamos visto inicialmente eram para os VIP's e à gente comum estavam reservadas vulgaríssimas canecas de 0,5l com um autocolante (!) com o símbolo do evento. Como eu já me tinha apercebido disso aquando da compra do menu, não caí no erro de pagar três euros por aquilo. Como agravante,
a cerveja servida em copos de plástico vinha gelada enquanto que a das canecas vinha morna. E foi assim toda a noite.
Mas, as primeiras cervejas a chegarem (três copos) foram oferta da empregada, em jeito de desculpa pelo atraso. Agradecemos e bebemos. Na mesa estavam mais dois convivas nossos desconhecidos e rapidamente se gerou ali um ambiente descontraído "alimentado" pelas críticas à desorganização. Chegam mais cervejas (as que faziam parte dos menus) e algumas das pessoas ficaram com uma caneca e um copo à frente, esperando pela comida. Como para mim, deixar morrer a cerveja é crime de lesa-pátria, fui bebendo.

Mais um tempão à espera e chega a comida. Mas ainda não foi a nossa vez porque, apesar de estar a haver uma ordem no serviço à mesa, a que estava depois de nós tinha rapazes bem-vestidos que não podiam esperar e a empregada saltou o nosso sítio. Reclamações, reclamações, os outros a comerem e nós a vermos. Ficou no entanto um prato na mesa, abandonado no meio porque os talheres, nem vê-los.
Ao olhar-se para o prato, a desilusão apoderou-se de toda a gente. Um pequeno-almoço no MacDonalds seria mais nutritivo do que aquilo... Um pedacinho de carne, triste, no meio de uma coisa de esferovite, com um niquinho de chucrute ao lado. Se o prato fosse de louça boa e estivéssemos num restaurante, ainda poderia consolar-me pensando que era uma dose à restaurante "fino", mas eu estava numa festa e, aí, espera-se ser bem servido ou, pelo menos, matar a fome. No entanto, parece haver uma ligação inevitável entre cerveja e má alimentação, ligação essa que se comprova pelos sistemáticos barretes que apanho nas cervejarias (Portugália, Trindade, Lusitana...).
Vem a empregada mais uma vez, trazendo comida para todos. O mau aspecto da amostra que tinha ficado na mesa era replicado em todas as doses e a minha, então, era um perfeito escândalo! Quando pedi um menu de salsichas (e paguei doze euros por ele), esperava que me servissem uma boa salsicha alemã, daquelas "dos filmes", acompanhada por chucrute (como comi em França, na Alsácia). Ora,
o meu "prato" trazia duas salsichas de lata (!!!), das mais banais que se podem meter num cachorro-quente, acompanhadas por uma dúzia de batatas fritas de pacote e um pingo de ketchup!!! Roubo, logro, barrete... é só pensar nas palavras e deixá-las aqui em fila para dar uma ideia do que senti ao olhar para o prato.
O sentimento era geral mas, com um pouco de esforço e uns goles de cerveja (de sabor banal, já agora), a coisa passou. Piada aqui, piada ali, o convívio e a música (que não é exclusiva para pagantes, diga-se) fizeram esquecer o roubo e a desorganização.
Uma empregada diferente passou pela mesa e achou que tinha de trazer mais cerveja (mais tarde, ficámos a saber que tínhamos direito a duas cervejas). Lá se bebeu. Depois, um dos convivas "estranhos" pediu "biscoito" (coisa que ele tinha visto ser servida aos convidados). A empregada disse que já tinha acabado e propos compensar-nos com cerveja. Bebeu-se... A esta altura, já havia canecas a mais na mesa. Esconderam-se debaixo da dita e voltámos todos a parecer que estávamos em seco. Trouxeram-nos umas roscas (pretzls) para matar a fome e alguém se queixou de que não tínhamos cerveja. Veio mais para todos. Bebeu-se...
Chegam mais duas pessoas e mandam vir os seus menus. Como a empregada era, novamente, outra (bem gira, por sinal) trouxe cerveja para os recém-chegados, negou-me outra porque o meu menu não dava direito a mais (sabia lá ela o que eu já tinha bebido) e trouxe a "segunda" canecada a que os outros tinham direito (se não tivessem, também, já passado da sua conta). Uma das pessoas à mesa sacou das suas senhas de refeição (que a empregada julgava serem novas) e pediu para que aquilo fosse convertido em cerveja. E lá veio cerveja para toda a gente! Por esta altura, o "artista" em questão já ostentava à cintura uma espécie de cartucheira de canecas :)
Mas... a coisa não ficou por aqui porque, daí a pouco, escondidas novamente as canecas, passou outra empregada e... já adivinham, não? O processo não acabou aqui e ainda se conseguiu mais uma rodada, só para acabar a noite aconselhados pela última das empregadas que conhecemos a escondermos as canecas que "a alemã vem aí!" :)
Veredito: a Oktoberfest de Lisboa, a "Munique em Lisboa" não vale, sequer, a perda de tempo na deslocação. A menos que consigamos enganar as empregadas!