O espalhanço da artista


Uma vez, estava eu no aeroporto de Madrid esperando o avião para Lisboa, quando a atenção que dedicava a ouvir um indivíduo falar uma língua que eu pensava ser Catalão, foi desviada por alguém falando um idioma bem mais familiar. Não foi o facto de uma mulher estar a falar em Português que chamou a minha atenção (havia, logicamente, vários lusófonos por ali) mas sim o facto da criatura em questão, brasileira, se dedicar a uma espécie de prelecção a um conjunto de compatriotas seus que, com ar desconsolado, a ouviam fazer uma aparentemente infindável série de críticas a Portugal, país para onde eles pareciam ir viver e de onde ela pretendia, desesperadamente, sair.

A personagem, casada com um português (para grande infortúnio seu, suponho) e mãe de um rapaz nascido já no luso rectângulo, sofria com todo o tipo de defeitos que este inferno à beira-mar plantado reservava para a sua pessoa: as pessoas eram brutas e nunca pediam nada por favor, o arroz era comido húmido, punha-se azeite em tudo (e até o filho dela gostava do precioso óleo - o que era sinal de que era uma coisa genética - por parte do pai), os restaurantes brasileiros estavam cheios porque só ali a comida era boa, o tempo era frio, chovia imenso, os ordenados eram baixos, os patrões eram maus, era difícil arranjar produtos brasileiros, etc., etc.

A certa altura, um dos indivíduos para quem ela falava, olhando-a com ar infeliz, soltou um "É tudo tão diferente, né?...". Claro que sim, confirmou imediatamente a mulher e por isso é que ela queria ir viver para França (que deve ser uma espécie de Brasil renascido, calculo). Aí sim, as coisas eram boas.

A esta altura, a voz da assistente chamando os passageiros para embarcar salvou a mulher de levar um sermão meu à frente de toda a gente e de a desmascarar como a perfeita puta ignorante, mentirosa e estúpida que ela era. Já dentro do avião, o monstrengo desfilou pelo corredor, com ar enjoado (talvez ela julgasse que a companhia era portuguesa e que o avião tinha menos asas do que o costume) até se ir sentar lá atrás. Não a voltei a ver mas, sobretudo, fiquei alegre por não mais a ouvir.

Vem esta pequena história a propósito da recente tempestade que assolou este jardim e que teve origem numa fantochada foleirosa protagonizada por uma mulher que eu tive como ícone de beleza durante a minha adolescência: Maitê Proença.

Longe vai o tempo em que a personagem "Juliana" se passeava nos écrans na telenovela "Guerra dos Sexos" e eu "sonhava" um dia ir para o Brasil, país onde as cidades eram grandes e cheias de prédios modernos e as mulheres eram jeitosas e dadas. Longe vai, também, o tempo em que a perspectiva de ver as mamocas da rapariga me fazia estar colado a uma série "histórica" cujo interesse, a julgar pelos comentários de então, era, mesmo, unicamente a nudez da moçoila. Para o D. Pedro e as suas desventuras, todos se lixavam. E bem, porque a coisa era uma chuchadeira. Quanto aos marmelos da rapariga, eram interessantes, sim senhor.

Ora, a boa da Maitê, sendo actriz, cometeu o disparate de ser natural o que, para quem faz da arte de fingir o seu ganha-pão , nem sempre é recomendável. Por uma vez, talvez julgando que ninguém a via, esqueceu-se da lengalenga do "povo maravilhoso" que os artistas brasileiros têm ensaiada para o aeroporto e vai de cascar na Santa Terrinha. Cascou mal, sem graça, sem estilo e acrescentando à estupidez o mau gosto. Aquele pormenor de cuspir na fonte é, sobretudo, isso mesmo: mau gosto. A mim não me choca a história de "ser nos Jerónimos". Se bem me lembro já larguei gases e palavrões em sítios igualmente vetustos e não me sinto mal por isso. Também não acho que ela estivesse a cuspir nos Portugueses. A mulher, simplesmente, fez uma coisa rasca, badalhoca, sem sentido. E fez-se filmar a fazê-lo. É como coçar os tomates: todos o fazemos mas não nos andamos a filmar a fazê-lo na via pública.

Já na história do três ao contrário e a sua associação a uma espécie de desfuncionalidade (isto existe?) do país e das suas gentes é que a pequena se espalhou à grande no que diz respeito a manifestações de lusofobia. Aquilo foi um bocado para o mau (quase tão mau quanto a tentativa de sotaque português que ela fez). Não há nada de mal em desconhecer o significado da placa com o número da porta de pernas para o ar (nem eu o sei!), não há nada de errado em brincar com a coisa... mas há tudo de mal na explicação para todo o caso.

Na minha terra, nós gozamos com aqueles de quem não gostamos muito. Brincamos com os amigos mas, fazemos pouco dos "outros". Aparentemente, no hemisfério sul, talvez por força de as pessoas estarem de cabeça para o ar, a coisa é diferente: faz-se pouco de quem se gosta e, para eles, "gozar" até é coisa prazenteira...

Ora, a verdade é que, no fim disto tudo, não há grande diferença entre a Maitê Proença e a brasileira do aeroporto de Madrid. Eu sei que uma (ainda) é bonita e a outra era um camafeu mas, para o caso, isso pouco importa. Entre a Maitê e a Lucileina ou Claudileida ou Jefersina ou Ubirunalda ou lá como é que a mulher se poderia chamar, corre a mesma seiva podre de gente que tem problemas consigo mesmo, com a sua História, com a sua identidade e que é tão mais fraca quanto a sua incapacidade para enriquecer-se com o reconhecimento das suas raizes.

Na Argentina, em Mendoza, existe uma Praça de Espanha e no meio desta está um grande mural coberto de azulejos com um texto onde se apela aos Argentinos para que não se esqueçam de que são descendentes da nobre "raça ibérica". Quando estive no local senti uma enorme inveja dos Espanhóis mas, depois, lembrei-me de que, apesar da distância, eu estava num país que se assume como "europeu". E isso talvez queira dizer muito...

"Ateu" é coisa que não existe

Agora que anda muita gente com o pelo eriçado por causa do Saramago ter mandado (e muito bem) umas bocas à Bíblia e lhe chamam "ateu" para aqui e "ateu" para ali, valeria a pena pensar se faz sentido, sequer, existir um termo para designar aqueles que não têm fé religiosa. Parece-me que não: faz tanto sentido possuir uma palavra para designar os não-religiosos como inventar uma expressão para indicar quem não seja benfiquista.

O estado natural de tudo é a neutralidade. É em cima dela, da ausência de credo ou de convicções políticas que nós construímos o edifício que é a nossa personalidade. Quando nascemos, não temos fé e a única coisa a que seríamos capazes de rezar (se soubéssemos) era ao mamilo que nos mata a fome. Logo, "ateu" é coisa que não existe. Existe sim "cristão" e "muçulmano" e todas essas porcarias com que as pessoas procuram preencher o vazio que encontram quando olham para dentro de si e não se percebem nem ao mundo em que vivem.

O Saramago não é ateu, portanto. Ele é, apenas, ele mesmo. Mas é comuna! E, mesmo na União Soviética, ninguém se lembrou de inventar uma palavra para não-comunista. "Acomunista"? Não me parece...

Astérix e o Google

Esta é, desde já, a melhor versão do logotipo do Google :)

Vontade de chatear (10)

Carro estacionado na Av. dos Defensores de Chaves (Lisboa), às 08:50 de um dia útil.

Se isto não é vontade de chatear os outros, é o quê?

Para os 1500 euros...

E a pergunta para os 1500 euros é...

"O que é uma Proparoxítona Eventual" ?


A resposta é:

Uma proparoxítona eventual é uma palavra acentuada que, por terminar em ditongo crescente, tanto pode ser classificada de paroxítona (mais comum no Brasil) como de proparoxítona (mais comum no restante da CPLP).



:)

Hitler e a Maitê Proença

Já é a segunda vez que o Führer vem a estas paragens manifestar a sua opinião sobre os problemas do mundo. Da primeira vez eram os resultados dos atletas brasileiros nas Olimpíadas. Agora, é a prestação da Maitê Proença...

Daqui já se percebe que o homem da franja presta particular atenção à Terra de Vera Cruz (não confundir com a Vera Lynn)

A nuvem do Correio da Manhã

A imagem à esquerda representa uma "tag cloud". O termo inglês significa, de uma forma resumida, o conjunto de palavras mais procuradas num determinado site.

Observe-se quais são, então, as palavras e os temas mais populares num determinado momento, na página do fantástico Correio da Manhã... Diz muito sobre o jornal e os seus leitores, não diz?

E, repare-se que eu até tenho uma doce recordação deste pasquim. Afinal de contas, a página central do seu suplemento dominical foi, na minha infância/adolescência (tempo em que não havia esta pouca-vergonha da internet), o único meio de alimentar a minha insípida líbido com imagens de mulheres nuas. Ainda me recordo de alguns momentos bem prazenteiros...

Mas, recordações à parte, o Correio da Manhã é um jornal de... merda.

Zé Gato



Ah, o antigamente... :)

Benza-os Deus...

Miguel Veloso na Disney?


Quem for ver o fraquinho filme da Disney, G-Force, não pode deixar de ficar surpreendido com as parecenças entre uma das personagens e o futebolista Miguel Veloso. As fotos aqui até nem são das melhores (falta-me paciência para grandes procuras) mas, acreditem em mim, a cobaia dos peidos e louca por comida (as sua principais características), é a "cara" chapada da sempiterna promessa sportinguista.

Ou a Fátima Lopes tem cunha na Disney ou, então, há mesmo coincidências do caneco!

Em cena, dizem eles...


É algum tipo de obsessão minha pela genitália feminina ou este logotipo está mesmo um bocado mal apanhado?

O verdadeiro artista ou a sabedoria das putas

Fixem bem a cara ao lado porque ela é a de um verdadeiro artista. A máscara que contemplam pertence a David Pereira Bastos que, a partir de ontem, entrou para a minha galeria de heróis abnegados em nome da Arte - assim mesmo, com "a" grande -, ou, caso eu esteja num dia em que acorde mal disposto, de qualquer coisinha mais simples como, por exemplo... doidos.

O homem que aqui apresento trabalha na Casa Conveniente, um "teatro" na zona do Cais do Sodré, entalado entre bares de prostitutas. Escrevo teatro entre parêntesis porque não quero que alguém julgue que se trata de um "teatro" como os outros. Este é o que de mais parecido eu vi com um daqueles antros que se vêem nos filmes, onde psicopatas guardam as suas vítimas para seu mórbido deleite. É um local despido, escuro, velho e triste a que só se chama teatro porque tem lá uns decadentes cadeirões onde meia-dúzia de espectadores se sentam para ver... teatro. Para acentuar o ambiente, descobri ontem que também há uma cave. Que bela deve ser uma cave num edifício pombalino a duzentos metros do rio. Que fantasias devem assaltar quem tenha o prazer de a visitar. Só posso imaginar...

Por tudo isto (e não só), eu gosto muito de ir à Casa Conveniente. Sinto-me lá bem.

Agora, a boa da Mónica Calle (que ainda ocupa o meu imaginário envergando um camisolão de lã branca enquanto diz, com pronúncia afectada, "Ó Zé Eduardo!..." - resquícios de uma telenovela), a boa da Mónica Calle, repito, trouxe a cena uma peça em duas partes (uma por dia) em que o "dentro" e o "fora" do teatro alternam, fazendo com que, numa noite o actor esteja representando na rua, virado para o público que está no escuro do teatro e, na outra noite, a situação se inverta. Manias de artista, dirão alguns e, até certo ponto, concordo.

Mas... porque razão passei eu a considerar o homem da foto um herói? Reparem no seu ar triste, sofredor... Se julgam que aquilo é pose, não é. É mesmo antecipação pelo que lhe sucede na peça "Ouves? A tempestade". Imaginem que este artista, este verdadeiro artista, é obrigado a representar na rua, por entre comentários de putas e de passantes, sob um constante jacto de água fétida. Como se isso não fosse bastante, quando já não resta uma areazinha seca no seu corpo, o homem despe-se, entra no teatro e passa a representar nu.

É que não é só a personagem representada que sofre, é o próprio actor! E sofre na carne (porque aquilo não deve dar gosto nem no verão) e psicologicamente. Se a mim me custou estar a ouvir as bocas que lhe mandavam e a cheirar a água e o seu aroma a ovos podres, imagine-se o pobre do artista. David, como eu compreendo esse teu ar sempre pesaroso.

Imaginem o que é estar na rua aos gritos de "Socorro, ninguém me ajuda!" e ser obrigado - pela encenação -, a dizê-lo olhando para as mesmas pessoas que nos gozam pelo que estamos a fazer. Imaginem o que é estar a representar e ter uma puta gorda atrás de nós a dizer coisas como "Isto é normal?! Digam ao homem que vai ficar doente. Essa água está podre!!!". Imaginem o que é um actor ter de se humilhar para representar o seu papel. É assim o trabalho deste homem. Vocês eram capazes de sorrir no seu lugar?

No fim do espectáculo, uma das putas no local fazia questão de ser ouvida por quem saía: "Um homem nu, foda-se! Arte do caralho!". Compreende-se a indignação da puta: habituada que está a ser paga para ver homens nus, custa-lhe entender que alguém possa fazer o contrário. Quanto à consideração sobre a arte, há que aceitar que ela é uma especialista no que toca a caralhos. A puta devia ser crítica teatral, digo eu.

Esta peça acaba por ser perturbante. Não pelo texto em sim mas, precisamente, pelo sofrimento do actor. "Sou actor", diz a personagem três ou quatro vezes ao longo da representação. É, nós sabemos que ele é. Pergunto-me é se, para se ser actor, é mesmo necessário sofer.

Hoje, é a minha vez de ficar na rua. Espero que não chova mas, se chover, talvez as putas se calem... Do mal, o menos.

Parabéns ao Rio

O Rio de Janeiro vai ser a sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Parabéns aos cariocas e, por extensão, a todos os brasileiros - que esta coisa de Olimpíadas, por maior que seja o país, não é só para a cidade que dá a cara (e poucas vezes o dinheiro).

Confesso que, pela primeira vez, acompanhei o momento da votação. Foi por acaso, é certo mas, a partir do momento em que soube que era entre brasileiros e espanhóis, a escolha estava logo feita e imediatamente se instalou um nervoso irritante na barriga. Por muito que goste de Madrid, não gosto do país onde ela está e para "orgulhos" dos nossos vizinhos, já bastou o Euro 2008. Que se acalmem, por agora.

Agora, como no melhor pano cai a nódoa, o presidente do Comité Olímpico Internacional, ao anunciar a candidatura vencedora, chamou à "cidade maravilhosa" Rio de Raneiro (!). A pergunta que faço é: como é que é possível que num momento solene como aqueles, numa competição envolvendo milhares de milhões de euros, com apenas quatro concorrentes, o "chefão" do COI não seja capaz de dizer correctamente o nome do vencedor? É que até podia ser em língua marciana! O homem tinha obrigação de saber dizer as coisas. Aliás, em toda a emissão da CNN, a única vez que ouvi "Janeiro" ser dito como se fosse Castelhano, foi por aquela animalária. Enfim...