O povo, mas só às vezes...

Se há país com o qual sempre simpatizei foi a Suíça. Talvez tenha sido daquelas grandes tabletes de chocolate que antigamente se vendiam, embrulhadas em papel com pequenas fotografias do país e que ainda hoje associo a uma idade de conforto familiar.

Quando pude, lá me fiz ao caminho para ir conhecer o país das montanhas e dos comboios. Foram duas semanas caras mas que me encheram a alma com "bilhetes postais" dos mais belos que já vi (e vi muito!).

Uma das coisas que me chamaram a atenção em território helvético foi a quantidade de cartazes que vi relativos a referendos. Aparentemente, aquela gente passa a vida a ser chamada a dar a sua opinião em consultas de iniciativa popular. Na altura, estava em curso a campanha relativa à abertura dos supermercados ao Domingo. Nunca me esqueci do cartaz do "não", com uma criança em frente a uma TV onde aparecia escrito "shit happens!". Se eu já apreciava a ideia que tinha da Suíça enquanto país organizado e respeitador das diferenças internas, a forma como o Estado entrega o poder aos seus cidadãos permitindo-lhes influenciar diretamente as leis deixou-me "apaixonado" pela democracia alpina. Ali, sim, o povo é, efetivamente, quem mais ordena!

Ora, agora mesmo, o povo suíço foi chamado às urnas para dizer sim (ou não) à proibição da construção de minaretes em território da Confederação. E o povo, democraticamente, votou pela proibição, passando a mesma a constar da Constituição nacional.

Repare-se que o referendo não foi sobre a permanência de muçulmanos na Suíça, nem para proibir a sua liberdade religiosa, nem para limitar os seus direitos cívicos ou qualquer outra coisa que os diminuisse enquanto cidadãos. Não, o referendo limitou-se a uma questão estética: a existência de torres (autênticos "foguetões" na maior parte dos casos - eu já viajei pela Turquia), espalhados pela absolutamente magnífica paisagem suíça, desvirtuando-a esteticamente e assumindo-se como pontas de lança de uma cultura que, sendo tolerada, não é a natural do país.

É escusado dizer que a decisão soberana do povo de um país que não tem de receber lições de democracia de ninguém imediatamente foi atacada pelo tipo de gente "bem pensante" que de há décadas a esta parte se tem encarregado de semear pelo velho continente essa coisa a que vulgarmente se chama de "multiculturalismo", que nunca foi pedido pelas populações nativas e que lhes é imposto ativamente pelas forças políticas de extrema-esquerda perante a passividade envergonhada da direita e o laxismo da esquerda democrática.

Uma das formas mais correntes de assegurar o silêncio do "contra" é a colagem aos radicalismos de direita, nomeadamente com a invocação do Holocausto perpetrado pelos nazis (ao mesmo tempo que se continua a ignorar os hediondos crimes comunistas, nomeadamente os de cariz xenófobo). Alcançando-se uma espécie de auto-censura que leva os cidadãos a terem vergonha de expressarem as suas opiniões publicamente (com exceção das mesas de café), assegura-se a predominância das ideias "libertárias" e, consequentemente, o estatuto indiscutível do multiculturalismo e de tudo o que o segue.


No caso do referendo suíço sobre os minaretes, a habitual tática de lançar gritos de xenofobia e racismo (o parzinho do costume) vai de encontro a uma maciça parede feita da prática democrática suíça e do absoluto respeito que aquela gente tem pelas diferenças culturais, linguísticas e religiosas dos seus habitantes, respeito esse na génese da própria confederação, feita de cantões livres que voluntariamente se associaram. É por isso que a Confederação Helvética tem quatro línguas oficiais (embora apenas três sejam correntes), que os cantões têm leis próprias e isso não converte a Suíça num caldeirão sempre pronto a explodir à menor tensão. A Suíça é um paradoxo que só se explica pelo verdadeiro direito à democracia.

Mas a esquerda radical tem um problema com a democracia, i.e., a esquerda a sério acha que a democracia é bonita desde que seja bem controlada, desde que só possa ser exercida ocasionalmente e sempre sob a tutela partidária. "O povo é quem mais ordena" é uma expressão bonita que tem o apelo de todos os motes panfletários e revolucionários mas que vai pouco mais além dos assuntos que os comités centrais decidam atirar para a rua. Quando o povo decide que quer mesmo ordenar sobre tudo, a esquerda, qual gato assustado, fica com os pelos todos eriçados e grita: intolerância!

Sim, porque o mesmo povo para quem a esquerda exige o direito ao referendo em matérias tão complexas quanto os tratados diplomáticos internacionais, alianças militares, organização interna do aparelho de Estado, etc. (coisas que exigem um grau de conhecimento e esclarecimento que escapa à esmagadora maioria da população), esse mesmo povo - dizia -, quando pretende ser consultado sobre coisas tão mais simples quanto a política de imigração, o multiculturalismo ou - como se viu na Suíça -, a proibição da invasão de elementos estéticos alienígenas, já é visto pela esquerda como uma perigosa massa radical à qual não se pode dar a voz, sob peso de fazer a civilização recuar séculos. O povo é quem mais ordena, mas só nos assuntos em que a esquerda quiser.

Felizmente, na democracia Suíça o povo pode ordenar sobre aquilo que muito bem entender e só tem medo disso quem tiver medo da própria democracia. Sabemos que a esquerda radical, onde quer que tenha tido o poder, imediatamente se encarregou de acabar com a democracia e fê-lo recorrendo ao genocídio, à deslocação de populações, à perseguição religiosa e étnica... Enfim, recorrendo a todos os expedientes que gosta de imaginar nos seus adversários.

A esquerda radical tem medo do povo, enquanto não o puder controlar. A esquerda democrática, tem medo de perder votos. A direita tem medo de ficar mal-vista e a direita radical, quando tem tempo de antena, passa mais tempo a defender-se do que a explicar as suas ideias. O mundo em que vivemos é este e é apenas uma amostra do que nos espera: um mundo de gente amordaçada pelo preconceito, auto-censurada, vítima de minorias, impedida de exigir respeito pelas suas tradições, história... até paisagem!

Os muçulmanos suíços continuam livres. Mais livres do que nos seus países de origem (mais ou menos remota), com a liberdade que lhes assegura uma sociedade democrática, livre e próspera. Podem ir à mesquita quando quiserem, podem comemorar o Ramadão, podem educar os seus filhos na fé do Islão, podem usar lenço, podem usar túnica mas não podem plantar minaretes. E então, qual é o mal?

Todos somos iguais mas alguns são mais iguais...

O título deste post é uma ironia tirada do livro "Triunfo dos porcos", de George Orwell, agora reeditado sob o nome mais correcto de "Quinta dos animais" ("Animal farm") e vem a propósito de um conjunto de intervenções que hoje foram feitas, na Assembleia da República, relativas à violência contra as mulheres (ver notícia no Público).

O tema é melindroso, como parecem ser cada vez mais assuntos que toquem setores da sociedade que se digam discriminados. Desde sempre que as mulheres foram alvo de machismo agressivo, nomeadamente na forma física e isso ainda é uma constante em todas as sociedades (por mais que os estúpidos do costume queiram achar que é característica nossa, o habitual poço de pecados do mundo). Mas, se é verdade que os problemas devem ser discutidos, também não o é menos que nunca se deve perder o norte nas discussões e é essencial manter a linha dos princípios bem presente. Discuta-se a prática mas não se omitam os princípios gerais. Ora, no caso da violência contra as mulheres (que não se limita a violência "doméstica") o que parece estar a acontecer é a criação de uma espécie de condição de exceção (sim, o acordo ortográfico...) que visa garantir que as agressões a mulheres estejam sujeitas a algum tipo de agravamento penal e a solução dos casos seja tida como prioritária perante outros tipos de agressão.

Conforme exigiu a deputada do CDS-PP, Teresa Caeiro, pretende-se "tolerância zero" para com os maus-tratos a mulheres. Mas, aqui, cabe perguntar: e os outros? Qual o grau de tolerância que a sociedade deve ter para os maus-tratos de outro tipo? Devemos nós aceitar que uma brutal agressão a um homem seja considerada menos grave ou não-prioritária perante uma agressão a uma mulher? Devemos considerar justificável a ideia de "classes" de cidadãos, com base no sexo, na raça, na religião?... Porque, a tentação que existe nos grupos que se dizem vítimas de algo é, sempre, reivindicarem um estatuto especial para si, alegando que tal condição é necessária para desencorajar eventuais problemas. Só que isto é exigir tratamento desigual, preferencial, e é uma escandalosa violação de um princípio basilar de uma sociedade democrática, consagrado em todas as contituições modernas: o da igualdade dos cidadãos.

A vingarem estas ideias de "tolerância zero" para com agressões (de que tipo for) ao grupo A ou B, estamos a criar uma sociedade ainda mais desigual e viciosa onde estas "preferências" produzidas pelo politicamente-correto tenderão a transbordar para as pequenas coisas do dia-a-dia com as naturais consequências sociais.

Valerá aqui a pena recordar o clima de medo no emprego, conseguido nas sociedades anglo-saxónicas com regras e mais regras contra o assédio sexual, a ponto de um simples elogio a um penteado poder ser utilizado como forma de conseguir vantagens através da mera sugestão de uma queixa por assédio?

Quando elementos de um determinado grupo social sentem que a lei está do seu lado (pressupondo que não estará do lado dos outros) e que, no caso de eventuais problemas, têm o crédito de pertencerem a uma "espécie protegida", esses elementos ganham um capital de prevaricação que só uma condição moral acima da média pode evitar usar em proveito próprio. Veja-se a chantagem que constantemente é feita sobre a sociedade e o uso abusivo de acusações de racismo e xenofobia, sempre que qualquer conflito envolve estrangeiros.

Os chamados "crimes de ódio" (tradição literal do Inglês) podem hoje ser qualquer coisa desde que se queira fazer notar algum tipo de diferença entre as duas partes e quase sempre há uma delas que, à partida, só é condenável e outra que só é vitimável.

Uma sociedade paternalista ("elas" nem notam que aquilo que pretendem é, realmente, a institucionalização da ideia de "sexo fraco") é uma sociedade formalmente desigual e podre, que faz de parcelas dos seus cidadãos reféns da lei e dos seus semelhantes pelo simples facto de terem nascido com o sexo ou a raça "errados"... Dir-me-ão que qualquer vítima de preconceito sabe o que isto é. É verdade, mas a diferença está no reconhecimento legal da diferença enquanto vantagem de uns e desvantagem de outros. Um caso gritante é o da entrega da custódia em casos de divórcio. Suponho que não haja base legal para a aviltante discriminação de que os homens são alvo nos tribunais mas isso não faz deste fenómeno algo de tolerável. Da mesma maneira que a violência contra as mulheres não se torna menos grave por não existirem leis de exceção.

Agressão é agressão, violação é violação, violência é violência, independentemente de quem a pratica e de quem a sofre. A lei não pode ter em conta qual o sexo de cada uma das partes, ou a cor da pele, ou as tendências sexuais... A justiça não pode afastar um pouco a venda para ver quem está à sua frente. Exige-se que continue cega sob pena de deixar de ser justa e marcar o fim do Estado de Direito, aquele pelo qual, ironicamente, tanto lutaram os que, cada vez mais, se vêem encurralados numa espécie de gueto para gente potencialmente perigosa...

Animais no jardim

Parece que o urso levou o cão a passear ao jardim, ali para a zona do Campo Mártires da Pátria.

Eram simpáticos, os dois. Sossegados e o cão não sujou nada.

Cumprimentei-os, ficando a aguardar voltar a vê-los por ali...

Abrir os olhos de vez

Há obras que - sejam elas filmes, livros ou, até, músicas -, têm o condão mágico de nos abrir os olhos e de nos fazer ver cenários que desconhecíamos ou perante os quais gostávamos de virar a cabeça.

O documentário cuja capa aqui se mostra é, precisamente, um trabalho que se enquadra na categoria de coisas que deveriam ser de estudo obrigatório por todos os cidadãos. Tal como as vacinas que tomamos a contragosto, também determinadas obras nos deviam ser impostas como forma de nos vacinar contra muitas ideias feitas que por aí andam e cujos defensores e promotores alegremente se passeiam por entre nós, quantas vezes com estatuto de vedetas fashion. De que falo eu? Falo de "The Soviet Story", um documentário da autoria do lituano Edvīns Šnore e patrocinado pelo Parlamento Europeu, que versa sobre a União Soviética e a sua colaboração activa com a Alemanha Nazi.

"The Soviet Story" é mais do que um murro no estômago, é um grito desesperado de apelo à verdade histórica e ao rasgar desse véu romântico com que a nossa sociedade gosta de cobrir os "feitos" do Comunismo. A história que Šnore nos conta, constantemente assente em imagens reais das décadas de 30 e 40 é a da cooperação entre nazis e comunistas para a invasão da Polónia, da forma como as antenas russas guiaram os bombardeiros alemães; do empréstimo de uma base naval no Báltico para que os nazis lançassem a invasão da Noruega; da entrega de judeus às SS por parte do NKVD; dos encontros prazenteiros e jantares de gala entre oficiais alemães e soviéticos; da ocupação e reutilização dos campos de concentração nazis por parte da máquina repressiva comunista; das bárbaras experiências médicas feitas em prisioneiros políticos; das semelhanças ideológicas entre nazis (nacional-socialistas) e comunistas (socialistas); dos paralelismos gráficos, artísticos e políticos entre as duas ditaduras; da formação que os assassinos nazis tiveram junto de assassinos soviéticos; dos massacres perpretrados pelo NKVD; do genocídio da população ucraniana a mando de Estaline e de tantos outros factos monstruosos que continuam a serem ignorados ou apelidados de merros "erros".

"The Soviet Story" não é uma coisa fácil de ver: exige vontade de nos confrontarmos com a realidade cruel e de nos prepararmos para mudar a nossa maneira de estar relativamente a muita coisa, nomeadamente à constante política de dois pesos e duas medidas no tratamento dos dois extremos do espectro político. É o conhecimento da História enquanto acto de libertação e de derrube de preconceitos, é o ganhar da sabedoria que nos distancia e permite ser frios na análise do mundo em que vivemos.

Repito: um trabalho como este devia ser transmitido nas televisões públicas de todos os países democráticos; devia ser mostrado a toda a população estudantil e, finalmente, devia servir de base a uma definitiva discussão sobre o lachismo com que a Democracia encara a existência de formações políticas baseadas em teorias que produziram as alucinantes espirais de violência e desumanidade que foram (e são) os regimes comunistas um pouco por todo o mundo. Voltarei a este assunto mais tarde mas é absolutamente notável como é que se gasta tanto tempo com pequenos furúnculos incompetentes como o PNR e se passa completamente ao lado do facto de 8% dos eleitores portugueses votarem num partido (PCP) cujos dirigentes apelidavam a União Soviética de "Sol na Terra", o mesmo sol que queimou cerca de vinte milhões de vidas (só na URSS)...

Vejam o documentário e assumam as suas consequências.

P.S. - dizem que o filme está aqui

Por falar em jornalistas e tugas...

Por falar em jornalistas e tugas: esta é a página de internet do Jornal "A Bola", na manhã seguinte a Portugal se apurar para o Mundial 2010.

Onde está a Selecção?

Dia triste para a tugalhada

Dia triste, triste... para a tugalhada, o de ontem. Afinal, a "poderosíssima" Bósnia não nos pôs de joelhos lá no cu-de-judas da Europa onde ela está; afinal, o estádio não foi um inferno onde nós nos queimássemos; afinal, não houve ataque avassalador por parte dos terríveis avançados adversários; afinal, não fomos massacrados por nenhuma avalanche de futebol....

Ganhámos. Ganhámos bem e só não impusemos à Bósnia uma derrota humilhante em sua casa porque os nossos jogadores continuam com gravíssimos problemas de vista quando lhes aparece a baliza pela frente. Isto, certamente, não é culpa do treinador. Aliás, o que sucedeu ontem foi uma repetição de tantos outros jogos: oportunidades, oportunidades e, golos, poucos.

Os anos passam, as gerações mudam e continuamos a ser vítimas da merda que abunda neste país, dos jornalistas sebosos que publicam e publicitam sempre as visões mais negras e pessimistas de tudo, do "cidadão" ranhoso e incapaz que vive submerso em complexos de inferioridade, dos responsáveis ausentes, dos parolos que querem aparecer a fingir que percebem de alguma coisa...

Morte, morte social e física a esta gentalha para que a nossa sociedade se possa regenerar e o país possa, finalmente, livrar-se da súcia de Velhos do Restelo que o impedem de brilhar. Mande-se esta escumalha para o deserto, para a Lua, para a puta que os pariu mas livre-se Portugal do tuga!

Quanto aos jornalistas, ainda nas bancadas os poucos portugueses comemoravam a vitória e já eles estavam a querer influenciar a equipa técnica para que a nossa equipa vá estagiar para Moçambique. Esta corja não aprende nada e a lição de Macau (onde estagiámos por razões "políticas") já foi esquecida. É certo que Moçambique e a RAS são vizinhos e isso não acontecia (nem de longe) com Macau e a Coreia do Sul mas é o princípio que vale e esta gente, de princípios parece perceber pouco...

Uma última palavra para a enormíssima diferença de civismo existente entre os jogadores bósnios e o seu público. Portaram-se bem no campo e mesmo quando se viram numa situação desesperada, não entraram no confronto físico, não foram agressivos, lutaram o que sabiam e até tentaram acalmar os selvagens que, das bancadas, atiravam objectos para o campo. Selvagens que, ao que parece, atiraram pedras à camioneta da Selecção Nacional no final do jogo, selvagens que cuspiram nos nossos jogadores à chegada ao país e que revistaram minuciosamente as malas da nossa comitiva na alfândega do aeroporto, selvagens brutos e estúpidos que acham que um jogo de futebol se pode ganhar com expedientes tão ridículos. Gostei mais dos bósnios como "cavalheiros" em campo do que como jogadores. Já fora de campo, parecem ser uns animais. Talvez pudéssemos mandar para lá os tugas, não?

P.S. - A canalha já corrigiu o seu discurso. Agora que já estamos no Mundial 2010, a ideia é que vamos lá só para fazer má figura...

CR12 - substituição, já!

O recente jogo da Selecção Nacional contra os seguidores de mafoma vindos lá da Bósnia mostrou-nos várias coisas. A primeira, que eles andam com a fé trocada e aquilo de se porem de rabo para o ar não sei quantas vezes ao dia, não só deve ser incomodativo como parece ser improdutivo - aquelas duas bolas seguidas ao ferro são sinal de que Alá não existe e que Deus (o nosso e o dos sacanas dos marranos), para além de continuar a fazer milagres também é português. A segunda ilação que se tira da partida é que, afinal, não é só o CR7 que não faz falta nenhuma, é também o CR12 ou Cambada de Ronhonhós 12 ou, ainda - na versão diplomática da FPF -, o "fantástico público". O nosso 12º jogador esforça-se tanto no seu papel de apoiar a equipa que até foi preciso à organização contratar um tipo para tocar corneta durante a partida de modo a fazer a carneirada segui-lo. É uma versão moderna do flautista com a diferença de que este tentava tirar os ratos da cidade enquanto o nosso cornetista os traz para o jogo. O adepto tuga acha que a sua simples presença nas bancadas é suficiente para fazer os jogadores correrem o dobro. Se eles não vêem os barretes dizendo "Vila Pouca do Fim-do-mundo apoia a seleção", lá para os lados do terceiro anel, o problema é deles que são uns arrogantes.

O nosso nº 12 precisa de ser substituído por ser mau no que faz. E, como é típico do tuga, a sua incompetência leva-o a detestar os que se portam melhor do que ele. Como os muitos adeptos bósnios faziam o que lhes competia (quase lembrando os ingleses), os tugas calavam-nos, não apoiando mais alto mas assobiando os turistas. No fim do jogo e com uma derrota no bolso, os bósnios continuaram dentro do estádio, cantando, enquanto o CR12 abandonava a Luz, cabisbaixo por ter vencido. Pela sua boa exibição, merecem jogar na segunda-mão onde farão concerteza melhor figura que o CR7 cujo regresso se ameaça e que o CR12 que, a bem da alegria na bola, ficará em casa.

A doença das palmas

Sabem aquele aviso que aparece no cinema pedindo para que as pessoas desliguem os telemóveis? Não é só nas fitas que semelhante pedido nos é feito. No teatro e nos espectáculos que não sejam eléctricos há sempre uma voz que aparece vinda do alto lembrando-nos, por formais palavras, da necessidade de não lixar o concerto aos outros. Mas isto não é suficiente. É que a tugalhada sofre de uma doença a que eu, na falta de termo científico adequado, chamaria de "palmite" ou seja, "o mal das palmas". O tuga adora bater palmas! Se há mais do que dois segundos de silêncio numa música, lá está a saloiada, toda contente, a bater palmas... É pop, é clássica? O que interessa isso? Importante mesmo é bater palminhas. Não há registo ao vivo de um artista nacional que não esteja todo fodido pelas palmas. A Amália abria a boca e lá vinham as palmas; o Veloso faz um trejeito à voz e o maralhal rebenta em palmaria; O Sérgio Godinho diz uma piada e o tuga, em vez de rir, bate palmas; Nos discos ao vivo ouvem-se mais as palmas do que as músicas. Mais do que irritante, é criminoso, porque nos rouba (aos apreciadores civilizados) momentos dos espectáculos e nos impede de saborear tantos pormenores delicados.

Ontem, mais uma vez, a palmite fez-se notar em força. O Coliseu dos Recreios recebeu mais uma companhia em digressão com "os" Carmina Burana (ficou-me a lição dos concertos no Largo de São Carlos). Desta vez, não só tínhamos a esplêndida obra de Carl Orff como também havia bailarinos e encenação a condizer com as letras das músicas. A coisa prometia, portanto, sobretudo para quem já havia visto algo semelhante há uns bons anos atrás no Pavilhão Atlântico (entretanto, desapareceram uns milhares de espectadores...). Ora, como já adivinha quem tem a paciência para me ler, o tuga e a sua mania das palmas resolveu espatifar vários dos temas. Como se não bastasse a canalhada achar que deve bater palmas no fim de cada música, ainda acha que sempre que há um pequeno silêncio, é para começar a aplaudir. Isto demonstra desconhecimento das "regras" da música clássica (o maestro vira-se quando é altura de aplausos) e da obra. Ambas as ignorâncias se perdoam com a boa vontade que se deve ter para com os "iniciados". Já não se perdoa é a insistência daquela maltosa lá da plateia (os lugares mais caros) em repetir o erro música após música sem perceber que, ao contrário do que seria de esperar, o resto da sala não a acompanha. Nhurros como devem ser, nem acham estranho o silêncio alheio. Provavelmente, muitos pensarão que os outros - os que não batem palmas -, são uma cambada de brutos incapazes de apreciar boa música.

Morra, portanto, a palmite. E que os organizadores dos espectáculos de música clássica (pelo menos estes) comecem a pedir contenção aos espectadores para que estes não arruinem as peças que, supostamente, deveriam estar ouvindo. Entre um telemóvel e cinquenta bimbos batendo palmas, qual incomoda mais?

Quanto à qualidade do espectáculo: valeu pela encenação e nada mais (os cantores - um dos quais repetente no Coliseu, não brilharam). O coro tinha pouca força (e foi completamente "esquecido" no momento dos aplausos finais, devido à posição que ocupava no palco) e o "O fortuna" (o grande tema da obra) foi a pior versão que já ouvi (e foram várias): sem fulgor, sem a capacidade de nos arrepiar e com um horrível oboé insistindo em demarcar-se do grupo. Também notei diversas variações nas vozes masculinas por forma a se "adequarem" à encenação, sem que isso tenha significado qualquer mais-valia para o espectáculo e, consequentemente, para o público.

A fechar a noite, a surpresa da ausência de encore (nunca visto por mim!). Mas, talvez tenha sido melhor assim. Teria sido frustrante para a companhia actuar perante uma casa onde tanta gente se apressava em sair. É que a tugalhada lá da plateia, depois de explodir em palmas (finalmente, na altura certa) nem sequer se dignou esperar pelo habitual "brinde", levantando imediatamente os pomposos rabiosques das cadeirinhas pagas com várias dezenas de euros e correndo para as portas de saída.

Se tiver sido esta a razão da inexistência de encore, então, é caso para dizer que me lixaram duplamente o concerto. Mas eu sou dos pindéricos que vão para o galinheiro...

A beleza do paradoxo

Num momento em que o trabalho se me afigurava particularmente enfadonho, ocorreu-me um pensamento cuja beleza se revela na profundidade do seu paradoxo: a utilização do rato permite trabalhar e coçar os tomates ao mesmíssimo tempo.

Morreu o António Sérgio

Uma vez o homem passou por mim, ali perto da Av. da República. Franzino... em tudo contrastando com aquela voz poderosa que se lhe ouvia na rádio. Levava um brinquinho na orelha e isso também não condizia com a roupa que vestia, feita de uma camisa aos quadradinhos e uns calções azuis. Ficou-me a imagem porque, na minha cabeça, o António Sérgio seria sempre alguém vestido de preto e com ar de velho rebelde. Se o era, naquele dia estava de férias...

Do trabalho do agora falecido sou um quase ignorante. Conheço-lhe o "Lança-Chamas" e alguns minutos dispersos de outros programas radiofónicos que não me prenderam minimamente a atenção. Mas isso não é importante para mim. Não pretendo fazer elogios ao radialista nem escrever análises da sua carreira. Apenas me lembro de que, numa outra vida, havia um programa, aos Sábados à tarde, cujo genérico era um fantástico solo de guitarra de Eddie Van Halen e que, durante duas horas, rebentava as ondas hertzianas com nomes como Slayer, Overkill, Obituary e outros do mesmo calibre (que era grosso). O "Lança-Chamas" não era um programa de Heavy Metal - para isso estava lá (na Comercial) o "Rock em Stock" do Luís Filipe Barros. Não, o programa do Sérgio era para quem já estava mais "dentro" do Metal, i.e., para quem a simples distorção não bastava e era preciso qualquer coisinha mais pesada. Por isto mesmo, nunca fui fan do programa. Nessa altura, esse monumento que é o o Battery (Metallica), para mim, não passava da introdução acústica e até nomes como os Megadeth já eram "barulho". Dá vontade de rir, hoje em dia, mas era assim mesmo. Ainda assim, ouvia espaçadamente as propostas do António Sérgio e do seu ajudante. Porque eram propostas já que, no meio do Metal não se aplicam (muito menos, então), as lógicas comerciais do massacre publicitário. O radialista passava aquilo de que gostava, e pronto!

Uma vez, concorri a um concurso onde se pedia que redesenhássemos o logotipo do U.D.O - lá ganhei o terceiro prémio e um vinil mas sem que todos deixássemos de ouvir em directo o António Sérgio manifestar o pouco apreço pela qualidade dos trabalhos. Paciência, o talento não nasce para todos. O vinil, ainda o tenho.

O Lança-Chamas morreu há muitos anos e, agora, foi a vez do António Sérgio. Quem o elogia, aponta-lhe a obra e os caminhos que deu a conhecer aos fans de música. Fazem listas das bandas que ele passava (sempre esquecendo as metálicas), dos seus programas emblemáticos (sempre esquecendo o Lança-Chamas) e dizem dele que era um grande divulgador. Por mim, era aquela voz forte e colocada que me abria os infernais portões do metal mais pesado. Se eu queria, ou não, entrar, isso era lá comigo. O convite estava feito e a Comercial era uma casa aberta. Hoje, quem quer ouvir Metal na rádio tem de ter hábitos de morcego.

Só por isso, só pela lembrança dos tempos em que havia quem passasse Metal na principal rádio portuguesa, em horários decentes, fazendo mais do que a simples enunciação dos nomes das bandas, só por isso - dizia -, vale a pena lembrar o António Sérgio.


P.S. - mais uma vez, roubo uma foto à giraça da Rita Carmo. Vão ao site dela porque vale a pena.