Amália no CCB

A foto ao lado podia ser o Calçadão de Copacabana ("moderna" obra nossa no Brasil) mas não é: é a alcatifa que cobre o chão da entrada da exposição "Amália", no CCB. Se este enorme tapete nos dá vontade de ser miúdos e desatar às cambalhotas, o melhor é mesmo conter os impulsos juvenis e guardar os nossos sentidos para o que se segue: uma enorme exposição dedicada à diva do Fado, assente em imagem e som, onde podemos contemplar todo o tipo de recordações ligadas a essa voz espantosa que cantou o nosso país mas que, infelizmente, também se dedicou a umas saloíces estrangeiradas às quais - a meu ver, mal - a exposição dá demasiado destaque. Podem dizer que é preconceito meu mas não me agrada caminhar por aquele espaço de homenagem a um ícone nacional e ouvir o "perompopero" (ou como é que se chama aquilo) abafar jóias da música a que se convencionou chamar "a música de Portugal". Nem o "perompopero", nem o "toro y la luna", nem uma qualquer coisa italiana que até tem direito a uma sala própria...

Pode-se alegar que as espanholices e outras "ices" de Amália fazem parte da sua carreira (e é verdade), que elas contribuiram para parte do seu êxito lá fora (igualmente verídico) mas há um sentido de prostituição artística e traição às raizes que me desagrada profundamente mesmo que as canções estrangeiras fossem adaptadas à sonoridade do fado. Afinal, se Amália era procurada inicialmente, não seria por causa das concessões aos internacionalismos mas sim pelo que de genuinamente português apresentava. Mas, sendo tão portuguesa, Amália tinha aquele gene de falta de orgulho que nos leva a querer corresponder ao interesse alheio não com um reforçar da nossa identidade mas sim com a apropriação parola dos traços de quem elogia.

Críticas à parte, vale a pena vaguearmos por ali, olhando as fotografias, ouvindo as canções - que até têm direito a uma enorme sala de audição onde apetece ficar deitado nas plataformas almofadadas contemplando um "paredão" de cortinas vermelhas onde duas pequenas colunas nos enchem com música (e, mais uma vez, estrangeirices metidas à pressão) -, passando pelo meio dos três gigantescos corações minhotos (a notável obra "Coração Independente") que rodopiam incessantemente numa sala só sua ou abrindo as gavetas com objectos pessoais e onde se descobrem simples e emocionantes cartas da cantora... enfim, sentindo, vendo e ouvindo Amália.

Numa salinha a um canto, a vocação "moderna" do Museu Berardo deixou espaço para que artistas expusessem obras cuja temática fosse Amália Rodrigues. É um espaço a evitar - felizmente pequeno -, já que a mediocridade das obras é por demais evidente num claro contraste com outras "homenagens" de qualidade como a do projecto "Amália Hoje" (que, curiosamente, também caiu na tentação da estrangeirice ao enfiar no disco com uma versão do tema "L'important c'est la rose" - para quê?!).

Como de costume no Museu Berardo, a entrada é gratuita. Não há desculpas para faltar.

1 comentário:

Miguel Carvalho disse...

Não é com purismos e preconceitos que se vai lá. Amália transcende claramente Portugal. Ao cantar noutras línguas, em nada se diminuíu,nunca imitou ninguém e acrescentou sempre algo de novo (para melhor). Não temos de ser sempre orgulhosamente sós - não é obrigatório. Ela fez muito bem: seguiu o seu instinto admirável. Até o fado - que é naturalmente desinteressante e monótono, nela brilhou, como uma ária de ópera. Só começou a ter graça com ela. Antes e depois, um tédio. Tinha o toque de Midas. Tudo nela brilhava, mesmo que, aparentemente, não tivesse qualidade. Foi sempre autêntica e genuína, mesmo a falar 'estrangeiro'Não perceber isso...é não a merecer.
Nesta exposição, apenas não teve qualquer interesse o onanismo verbal da Lauren Bacall e da Sónia Braga. De resto, cinco estrelas Cumprimentos. Miguel Carvalho