3 x Porto

Esta semana a rádio tem andado a anunciar o lançamento de mais uma daquelas coleções que acompanham os jornais e que têm como fim ocupar o espaço vago nas nossas estantes, cumprindo assim um dos mais "nobres" destinos que um (mau) livro pode ter: servir de decoração. A referida coleção versa a História do Porto e a sua importância no contexto mais vasto da História pátria e é composta por nada mais, nada menos do que quinze volumes. Semelhante proficuidade pode-se explicar de diversas formas, ficando ao cuidado dos preconceitos de cada um a escolha da mais apropriada: 1) os livros são muito pequeninos; 2) da História do Porto consta o registo pormenorizado de todas as lavadeiras, trolhas e trabalhadoras de alterne que alguma vez pulularam pela Invicta; 3) a História do Porto resume-se a dois livrinhos e o resto é o rol extensivo e pormenorizado de todas as queixas relativas ao centralismo lisboeta.

Independentemente da explicação que melhor se adeque ao nosso gosto, a verdade é que a edição de quinze livros sobre a História da segunda cidade do país parece coisa de quem está desesperadamente carente de atenção e isso não deixa de ser triste.

Ainda o Porto: foi julgado e condenado o célebre Pidá. Não foi o único condenado no processo a que se chamou de "Noite Branca" mas foi o mais mediático, quanto mais não fosse pelo facto de ser o responsável por fornecer ao Porto uma imitação da Chicago do tempo dos gangsters, com direito a rajadas de metralhadora e tudo. No Norte, os homens são a sério e, parece, os criminosos também.

Se a justiça da pena aplicada ao homem da alcunha ridícula me parece perfeitamente acertada (dentro da brandura do nosso quadro penal) já a cobertura que lhe foi dedicada pela nossa sempre irresponsável comunicação social faz-me crer que qualquer coisa se funde no cérebro dos jornalistas e editores quando entram num jornal. Comparar o destaque dado a uma simples operação de polícia onde foram presos dois (supostos) etarras que nunca atentaram contra o Estado Português e a forma displiscente como foi coberto um caso que envolveu tráfico de droga e assassinatos - todos tendo como vítimas cidadãos nacionais -, é um exercício no campo do absurdo.

Fossem Pidá e os seus comparsas elementos da ETA e ter-lhes-ia sido concedido o destaque que, como assassinos e gangsters lusos, não merecem. A propaganda espanhola e a subserviência nacional ter-se-iam encarregado de tal.

Para que o processo "Noite Branca" andasse para a frente quando convinha, foi enviada para a capital do Norte (área geopolítica que varia consoante a cidade onde se esteja) uma equipa de magistrados da capital (a do país). Criticada, então, semelhante escolha e apontada como exemplo humilhante, veio a revelar-se uma decisão acertada sobretudo quando temos em conta a terceira razão para se falar no Porto esta semana: a acusação proferida contra três juizes portuenses por ajudarem um acusado num mediático processo de corrupção. Os responsáveis da Justiça lá sabiam das suas razões ao enviarem uma task-force sulista e elitista lá para cima. E nem entramos na questão do futebol...

A fazer-se ainda mais justiça e por forma a completar o 16º volume da História do Porto (em futura atualização), haverá de constar desta o nome do Pidá. Ao menos isso!

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