9 contra 8: quem ganha? Ninguém!

O Teatro Ibérico (mais um espaço a descobrir, ali em Xabregas) estreou a peça "Salomé", de Oscar Wilde. O texto conta-nos a famosa história bíblica da princesa que exigiu a cabeça de João Batista numa salva de prata, em troca de uma dança lasciva perante o rei. Foi a segunda vez que fui ao teatro em questão e fi-lo muito pela vontade de voltar a tão agradável local.

Mas, se é verdade que a mesma água não corre duas vezes sob a mesma ponte, também as sensações que temos dificilmente se repetem de forma exatamente igual. O teatro que eu antes tinha visto cheio de gente para assistir a uma tragédia grega estava, ontem, um Sábado, tão despido de público que se verificou a curiosa situação de serem mais os atores do que os espetadores! Na prática, eram nove no palco para oito nas cadeiras. A razão de tão baixa afluência escapa-me mas não me deixa indiferente: ser ator de teatro é, decididamente, uma constante e exigente prova ao profissionalismo e à capacidade de alienação perante a envolvente. Há que dar valor a quem está num palco olhando para uma bancada (a do Teatro Ibérico é considerável) e apenas vê a cor das cadeiras, não deixando, por isso, de se aplicar. Em quantas outras profissões poderemos reconhecer semelhante comportamento? Um músico pode tocar para as paredes e ainda assim ter um considerável gozo porque a música é, antes de mais, um prazer íntimo; um futebolista pode estar rodeado de cimento nu mas ainda se sentir motivado pela disputa e pela competição... mas, um ator de teatro? A representação "ao vivo" só existe porque há um público defronte. Sem este, tudo não passa de ensaios, de exercícios. Ser-se capaz de "esquecer" a ausência de espetadores e fazer viver as personagens como se a casa estivesse cheia é algo que devia ser exemplo para todas as profissões. Tidos por muitos como boémios, provocadores, dispensáveis até, a verdade é que os atores de teatro demonstram um brio que, mais do que respeito, merece autêntica admiração.

No entanto - pegando novamente na relação entre o número de atores e de espetadores -, não deixei de reparar na aparente falta de necessidade de três dos seus elementos: uma rapariga cuja única função era, durante breves momentos, bater numa espécie de pandeireta e servir de referência para que os seus colegas apontassem para a Lua; uma outra moça que acompanhava o público até à sala e, a dado momento, dizia umas frases e, finalmente, uma terceira rapariga que fazia de escrava, literalmente entrava e saía muda e passava a peça toda em pé a um canto do palco para, apenas em duas ou três ocasiões, se movimentar. Num mundo ideal todos estes elementos fariam sentido mas, numa situação de tão gritante falta de público, parece-me tratar-se de um luxo injustificável.

Quanto à peça propriamente dita, é um drama, uma tragédia, o que, não sendo o meu género preferido, é tão necessário de ser visto como é variar a ementa à mesa. Dos atores em palco destacou-se, para mim, o que representava o rei Herodes, a personagem mais "colorida" da peça, a que tinha mais para ver. Apenas me desagradaram (e não foi pecado único do ator em questão) alguns problemas de dicção e volume que, por vezes, me dificultaram - e muito -, a compreensão do texto. Não sei dizer se realmente gostei da peça: certamente que não me desagradou mas, daí a sentir-me entusiasmado vai um passo considerável. Digamos que uma respeitosa indiferença é mais o que eu senti.

O espetáculo acabou por volta das 23h de uma forma um pouco atabalhoada já que houve um pequeno compasso de espera entre o fim da peça e o momento em que o público (nós, os oito privilegiados) percebeu que era altura de aplaudir. O ligar da iluminação da fria sala ajudou a esclarecer a situação e, pela primeira vez em muitas peças que já vi, apenas houve uma salva de palmas no que terá sido o único e desconsolado reconhecimento de que o teatro não se faz para casas vazias.

À saída, reparei que, daí a meia-hora, haveria um outro espetáculo - que me pareceu ser do tipo cabaret -, interpretado por duas atrizes. Suponho que tenham acabado a jogar às cartas...

1 comentário:

M. disse...

Obrigada pela sua opinião.
O meu nome é Márcia Cardoso, sou a encenadora da peça, e uma das raparigas que estava na plateia.
Efectivamente apresentar um espectáculo para uma casa cheia tem um impacto totalmente diferente, daí a estreia ter corrido tão bem, mas é minha/nossa política apresentá-lo para todos os que venham para assistir.
Ontem tivemos inesperadameente menos uma actriz o que também dificultou as coisas.
De qualquer forma fica o meu respeito pela sua opinião, que terei em conta para o futuro desta peça que é um trabalho aberto, onde ainda podem ser limadas muitas arestas e trabalhados alguns promenores.