A aldeia dos macacos

A sociedade portuguesa está, decididamente, convertida numa aldeia dos macacos onde todos guincham e se atiram uns contra os outros. A mais recente polémica-ridícula relativa ao "apelo" do presidente da República para que os cidadãos portugueses façam férias em Portugal só pode ser compreendida à luz de um cocktail baseado na mais profunda estupidez aliada ao fanatismo político. Pelo meio, a comunicação social, a nossa pobre, podre e decadente comunicação social faz a festa, lança os foguetes e apanhará as canas, como de costume.

O que Cavaco Silva fez - um apelo informal à localização das férias -, foi alvo de um "desabafo" por parte do Ministro da Economia, provocado pelos jornalistas: que esperava que os outros chefes de estado não fizessem apelos semelhantes porque isso seria mau para nós. Este "desabafo", para além de estúpido e politicamente inconveniente, tem ainda a agravante de ter sido sucedido pela confissão de que o Governo, o próprio Governo, tem feito diversas campanhas no mesmo sentido. Temos portanto, que a mesma criatura consegue, numa mesma frase, dar ideia de que o PR está errado ao pedir que as pessoas passem férias em Portugal mas que o Governo estava certo ao fazer campanhas à volta da mesma ideia. Notável! E mais notável ainda é como esta última parte da espantosa intervenção do nosso ministro foi imediatamente abafada por forma a destacar o pedaço de "crítica". Aqui, já estamos no domínio do maquiavelismo jornalístico.

As declarações do ministro (largamente secundadas por muitos macacos da aldeia) são de uma confrangedora pobreza intelectual que se declara, em toda a sua triste glória, na quantidade de contradições que se conseguem vislumbrar quando se pensa um pouco no assunto. Basta pensar na recente campanha a favor da Madeira. O mesmo país que se cobriu de espetáculos, cartazes, anúncios, etc, onde figuras públicas declaravam que, não só não iam de férias para o estrangeiro como só iriam a uma parte do território nacional (a Madeira) vem agora criticar o PR porque pediu para que as pessoas, de uma maneira geral, fizessem o mesmo (sem especificar em que zona do país). Ou seja, os macacos acham bem que se diga às pessoas para ficarem pela Madeira mas não acham bem que se diga às mesmas pessoas para ficarem por Portugal em geral. Aqui, já não há preocupação com comportamento equivalente por parte de entidades estrangeiras.

Os macacos concordam com que se faça campanhas de promoção e divulgação dos produtos nacionais, que se diga às pessoas que o que é nacional é bom, que se apele à compra e consumo de bens e serviços portugueses. Isso está bem e parte-se do princípio de que todos os países o fazem. Os macacos acham é mal que o PR faça o mesmo!

Num país onde desde sempre existe um mote como "Vá para fora cá dentro", os macacos não suportam que o PR resolva lembrar as pessoas da atualidade do mesmo. Vá-se lá saber porquê...

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