Morreu o escritor João Aguiar. Em tempos, tive-o como um dos meus autores preferidos, sempre esperando o lançamento de um novo romance seu e rezando para que fosse mais uma incursão pela História remota do que veio a ser o nosso país. Curiosamente, apesar de ser lembrado sobretudo pelos seus romances históricos, a verdade é que João Aguiar publicou muitas obras que nada tinham a ver com o género e que eram em tudo atuais, quer no tempo em que se passavam, quer pela visão desiludida e amarga da evolução da nossa sociedade, "corporizada" essencialmente na sua personagem "Adriano" (ou "Santo Adriano", como lhe chamava jocosamente). Se formos contabilizar a produção de João Aguiar, veremos que a razão pela qual o seu nome será lembrado pelos apreciadores de romances históricos não será a quantidade (absolutamente minoritária) mas sim a qualidade de algumas das obras, encabeçadas pelo livro inaugural do autor, o belo "A voz dos deuses", que tive oportunidade de conhecer quando eu ainda era adolescente, o que é o mesmo que dizer, nas suas primeiríssimas edições.
João Aguiar escreveu também romances juvenis, tratou de adaptá-los à televisão (esforço sabotado pela má produção) e, nos últimos anos, colaborava na edição mensal da revista Super-Interessante escrevendo uma crónica (quase sempre de forte crítica a qualquer coisa que ele considerava ser uma menorização da sociedade) e assinando uma rubrica intitulada "Super-Portugueses" dedicada a figuras gradas da nossa História.
O seu estilo de escrita era escorreito, sem malabarismos de estilo nem pretensões a mudar o mundo. Talvez por isso nunca tenha ascendido à condição de "escritor sério" e se tenha mantido no plano dos contadores de histórias aos quais está - assim o temo -, reservado um curto período na memória coletiva.
Anualmente, aquando das edições da Feira do Livro de Lisboa, lá ia eu com um ou dois livros (muitas vezes "antigos") para que ele mos autografasse. Consegui ter uns quantos que, agora, guardarei com mais respeito.
João Aguiar assumia-se como monárquico e patriota e esta segunda faceta salta-nos à vista, nomeadamente na forma nada entusiasmada como ele olhava para as perdas de soberania decorrentes da integração europeia, tendo mesmo "previsto" num romance seu a revolta violenta dos povos contra o federalismo no nosso continente. Foi este seu lado extremamente cético (aplicado a muita coisa) que me fez afastar um pouco do seu trajeto "novelesco" a ponto de ter passado algo ao lado das suas últimas edições (exceção feita ao livro sobre o Menino do Lajedo). Ainda assim, e por ser a vida feita de encontros e desencontros, esperava sempre poder vê-lo de novo ao virar de uma página de História, género onde ele foi maior.
Morreu aos 66 anos um escritor e um patriota. Leia-se muito o primeiro e honre-se sempre o segundo.
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