Arquitetura portuguesa (ou o enfado como fado)

O que se passa em Portugal que quase nenhuma estrela da arquitetura mundial consegue ver cá construída uma obra sua? Frank Gehry projetou a remodelação/recuperação do Parque Mayer (ainda no tempo do Santana Lopes) e... nada! Renzo Piano projetou a urbanização "Jardins de Braço de Prata" (precisamente nessa zona) e... nada! Norman Foster projetou a recuperação do aterro da Boavista, em Santos (Lisboa) e... nada! Zaha Hadid, provavelmente o grande nome da atualidade, concorreu ao terminal de cruzeiros de Santa Apolónia e... ficou em quinto lugar! Oscar Niemeyer tem um projeto parado na zona de Chelas desde 1999 (e o do Algarve nunca arrancou)...

Resumindo: enquanto o mundo lá fora se enche de obras de nomes consagrados, ciente de que um edifício não vale só pelas suas funções mas, também, pelo aspeto e, consequentemente, deve ser encarado como arte no espaço público e algo de enriquecedor para o património, nós, aqui no retângulo, continuamos entregues ao "cinzentismo" dos arquitetos nacionais e da sua total falta de creatividade. Há lobbies? Há cunhas? Como é que se compreende que apenas existam no território nacional três obras concluídas assinadas por mestres internacionais (Casa da Música, Porto - Rem Koolhaas; Estação do Oriente, Lisboa - Santiago Calatrava; Hotel-Casino da Madeira, Funchal - Oscar Niemeyer)? Não se compreende. Sobretudo se pensarmos que os três exemplos mencionados são absolutamente marcantes nas cidades onde estão e, até, ex-libris das mesmas. Porquê, então, esta espécie de alergia?

Dirão alguns que temos em Portugal bons arquitetos. Dirão, até, que temos dois nomes "sonantes" (Siza Vieira e Souto de Moura). Não contesto a classificação embora possa contestar algumas das obras (aqueles edifícios de Siza Vieira na Rua do Alecrim...) mas isso - a prata da casa -, não pode de forma alguma justificar que o nosso país esteja ficando para trás numa autêntica correria ao "landmark". Há, inclusivamente, destinos que não só utilizam a arquitetura contemporânea como forma de incrementar o turismo mas vão até buscar a ela uma espécie de razão de ser. Portugal não parece estar interessado nisso e hoje, como sempre, remete-se ao orgulhosamente sós e à pútrida mentalidade do "pobres mas honrados".

Que nos oferece a arquitetura portuguesa da atualidade? Refiro-me à arquitetura "grande" e não aquela dos condomínios e pequenos arranjos urbanos. Que nos mostram os artistas do croquis que seja capaz de nos entusiasmar? Pouco, muito pouco e, sobretudo, muito do mesmo. Olhar para uma casa ou um edifício de conceção nacional é um exercício no campo da monotonia. Ele é o betão à mostra, ele é as paredes brancas, ele é os ângulos retos, ele é a negação da curva, ele é os paralelepípedos... O popular termo "caixote" parece ter-se entranhado na mente dos nossos autores à força de tanta repetição de modelos estabelecidos (escola do Porto?). É a velha questão do que se quer fazer e do que querem que façamos. Espera-se o quê de um arquiteto luso? Que faça uma coisinha discreta, simples, que seja luminosa, que mantenha uma escala humana, que tenha muito branco, enfim, que seja chata! Creatividade, se a há, deve estar escondida num poço fundo, com medo de que alguém a roube.

O projeto de Zaha Hadid para o terminal de cruzeiros em Lisboa foi considerado "arrojado" para a cidade de Lisboa. O país que permite a construção de um monumental monstro de mau gosto como a igreja que Troufa Real defecou na prancheta e que reinará no alto do Restelo ou - ainda da mesma criatura -, outra igreja, desta feita em Miraflores, e que parece nascida de um pesadelo de ficção científica, esse país, dizia, permite-se o luxo de tornar em defeito algo que é, normalmente, considerado uma qualidade. Para as brilhantes mentes nacionais, adjetivar de "arrojado" um projeto é uma forma de diplomaticamente mandar alguém às urtigas por não se enquadrar nos monos padrões nacionais. Achar que as belas e definidoras obras da arquiteta iraquiana merecem ser postas de lado por serem diferentes (quando em todo o mundo essa diferença lhe é reconhecida como a maior das qualidades) demonstra à saciedade a força do espartilho que nos impede de caminhar ao lado dos outros.

As monstruosidades de Troufa Real (que, honra lhe seja feita, não é alguém que alinhe no minimalismo vigente), a frieza de Siza Vieira e do sem número de imitadores que o seguem, a chateza quadradona de um Carrilho da Graça, e a massa de autores mais ou menos anónimos que vão enchendo o país de enormes sólidos, tudo isto compõe o muro no qual esbarra o mundo.

Com tanta coisa em que o protecionismo era tão bem aplicado, logo nos havia de calhar a arquitetura!

1 comentário:

Tiago Pereira disse...

Depois de ler o seu texto... percebo a sua perceptiva e concordo plenamente com a sua opinião! Um pais como portugal, europeu devia dar sinais de evolução, mas nem isso se consegue.... Se querem turismo, a arquitectura futurista dos grandes nomes que enunciou, também eles seriam uma razão de turismo. Mas é o pais em que vivemos.