Da abjeção aos críticos

A crítica escrita - entendendo-se como etiqueta aglomeradora das críticas a todas as formas de arte -, já há muito tempo que se converteu num subgénero literário onde aquilo que menos interessa é transmitir a opinião do crítico sobre o objeto criticado e mais exercer uma espécie de desfile de todos os recursos estilísticos do autor, sempre fortemente apoiados num fundo cultural convenientemente elitista por forma a que as referências semiobscuras encantem sem por isso virem trazer qualquer luz ao texto que permita ao acidental leitor vislumbrar a resposta à mais importante das perguntas: "Isto é bom, ou não?"

Aliás, a crítica cinematográfica (aquela por onde mais passo os olhos), parece ser como os filmes prediletos dos próprios críticos: coisa feita por uns para gáudio de poucos. Daí terem inventado aquela coisa das estrelinhas, forma concisa de meter 1500 palavras em quatro ou cinco bonequinhos que os críticos pintam ao sabor dos seus, agora desvendados, gostos.

Os críticos não gostam das estrelinhas. O público, adora-as.

Mas as próprias críticas mereciam um sistema de estrelinhas que pusesse de sobreaviso o leitor: uma escala de hermetismo semântico-lexical só possível na internet pelas características interativas desta. Quem ainda se dá ao trabalho de ler jornais, está lixado. Mas, se pagou pelo prazer de sujar as mãos, então, merece-o.

Tudo isto (toda esta verborreia, dirão alguns), vem a propósito de uma crítica deixada no Cinecartaz do Público, a propósito do filme "The box" (Presente de morte), recentemente estreado nas salas nacionais. Ao contrário do que se possa pensar, o texto que me maravilhou (de uma forma perversa, entenda-se) não é o de um crítico mas sim o de um leitor respondendo ao crítico. Mais papista do que o papa, mais crítico do que o crítico, houve alguém capaz de arrasar com toda a concorrência e, acredito, por uma vez meter na ordem os profissionais do setor. Não que o tenha feito como ironia mas sim como autêntica prova da existência de muito talento por aí, gente com a qual nos cruzamos e por quem não damos nada para, no fim, serem capazes de escreverem coisas como esta...

"(...) Talvez haja resquícios de um contágio binário em alguns pareceres cinéfilos; somos herdeiros [homens do século XXI] de uma trama económica que reinventou medidas e reprime contingências, inclusive no campo artístico. As facções que protelam o direito à subjectividade bifurcam (com imperativa lógica) o caminho binário trilhado. No entanto, o que antes era “surreal” e “esquinado”, ou uma facção anti-lógica binária com face própria (estética surrealista), tornou-se apenas o reverso da moeda, a cara oposta à coroa economicista: isto é dizer que, da mescla democrática formada por direitos de expressão e direito ao erro [todo o objecto sem propósitos lucrativos] nasceu a nova facção – a do direito à implementação científica da subjectividade. É a ciência do eufemismo, que ao invés de dizer, por uma, outra coisa, diz por outra coisa, coisa nenhuma – esquema niilista da cultura vigente. Chamemos-lhe a ciência do adjectivo [37, se contei bem]; gramaticalmente é formidável, diga-se, e digno de realce – há aqui um jogo complexo entre dois elementos de criação semântica e sintáctica –, pois do uso aleatório do adjectivo nasce o eufemismo, ou melhor, transforma-se o nada (aquilo que há a dizer inicialmente) noutro nada (resultado da adjectivação); ou seja, o adjectivo funciona enquanto consumação da ciência da subjectividade, ou o seu devir-ciência, que dá ao nada uma forma de nada visível – as matérias criadas são de particular eloquência quando se usa dupla adjectivação ou se reforça, habitualmente no final do texto (quando o eufemismo começa a perder força, desgastado pela transformação operada ao nada), o desgastado adjectivo com um advérbio – ah, que objectos se roubam ao nada quando têm este suporte! Passar-me-ia despercebida – ou catalogada enquanto opinião controversa – esta tentativa de “acordar” estados inorgânicos, não fosse cruzar-se com eufemismos de outra estirpe, no caso corpórea [neste caso, a adjectivação reduz a nada objectos inicialmente corpóreos (...)"


Querem mais? Vão ver aqui !

Sem comentários: