Guns n'Roses em Lisboa (2010/10/06)

Uma, uma hora e meia mais tarde do que o agendado mas, certamente, dentro do horário esperado, a versão 2010 dos Guns n'Roses entrou em palco no Atlântico.

Posso dizer que, embora não tenha propriamente gostado do concerto, saí do pavilhão com algum respeito pelo animal do Axl. Quase três horas de concerto são coisa que merece respeito. Não tanto pela atuação do bicho mas pela vontade e capacidade de impor à banda um espetáculo tão longo e tecnicamente competentíssimo.

No entanto, a duração do "show" não esconde que o alinhamento é medíocre, com a inclusão de alguns temas perfeitamente desinteressantes e a matemática alternância de temas pesados com baladas ou solos. O Axl talvez já não possa com uma gata pelo rabo (parece um gordo boneco de cera) e necessite de descanso a cada música mais puxada... É pena, porque isso nunca permite ao concerto assumir-se verdadeiramente como uma festa de grande Hard Rock.

Algumas músicas sofreram arranjos assassinos (sendo o melhor exemplo a "eletrização" de parte do Patience, um tema que tem na sua simplicidade um valor precioso) e outras parecem ter perdido incompreensivelmente força, como foi o caso de "Welcome to the jungle" que em nada beneficiou do novo-riquismo de ter três guitarristas em palco. Aliás, à semelhança do que acontece com os Iron Maiden, fica-se sem perceber bem onde estará a vantagem de um terceiro homem na guitarra elétrica. Talvez para ajudar a encher palcos demasiadamente grandes...

Do ponto de vista positivo, salta à vista a manutenção da capacidade vocal do Axl Rose e a enorme competência e entrosamento dos músicos. Pode-se contestar os três guitarristas e dois teclistas (sim...) mas a verdade é que aquela gente toca bem e houve alguns momentos a raiar o sublime, como foi toda a introdução instrumental ao Patience, com um lindo duo de violas acústicas (cujo trabalho foi traído mais tarde pela já mencionada inserção de uma herética guitarra elétrica).

A colagem visual de um dos guitarristas à personagem do Slash é tal que não pode ser coincidência e esta ideia ganha força quando reparamos que há outro elemento na guitarra que nos lembra, ocasionalmente, do Izzy Stradlin. Quanto ao terceiro guitarrista (que, individualmente, fez o solo mais fraco, com uma versão da Pantera Cor-de-Rosa mas que, em tudo o resto, se mostrou mais do que à altura), destoava completamente da banda, com o seu ar "informal", guitarra dupla e aspeto de quem vinha de uma banda de Doom Metal britânica. À sua maneira, com a sua simplicidade, acabou por ser um fresco contraponto ao tom "fashion" do resto do grupo.

Resumindo: foi o concerto possível (a sobredose de baladas chegou a causar-me literalmente sono) e, a espaços, foi um concerto muito bom, justificando totalmente o preço do bilhete. Faltaram alguns temas antigos que teriam lugar em qualquer alinhamento mas que, logicamente, tiveram de ser arredados para dar lugar aos "descansos" do vocalista. Falo de canções como, por exemplo, "Think about you", "Outta get me" ou "My Michelle".



Quanto à primeira parte, assegurada pelo ex-Skid Row Sebastian Bach, deu um espetáculo que considero desnecessário. Visto de longe parece uma rapariga de enormíssimas pernas com andar de cowboy e, ouvido, nota-se as muitas falhas que a sua voz já tem. Ao contrário de Axl, o Sebastian Bach - que, como sempre, se refugia demasiado em gritos (onde, aí sim, se mantém a 100%) -, já não consegue estar à altura de alguns temas. E isto acontece não só pelas falhas de voz mas também pela displiscência e tom de "toca a despachar" que se sente em temas tão marcantes como "18 and life" ou "I'll remember you", tocados num ritmo frio e acelerado, desrespeitador da memória que muita gente terá destas duas belas canções. Outras falhas houve que acentuaram a ideia de alguém que talvez só estivesse ali porque, em questiúnculas entre vedetas, se manteve do lado da barricada que organizava o concerto...

Um pormenor curioso associado ao concerto do ex-vocalista dos Skid Row mas que também já se notou noutros eventos foi a pressão de espetadores estrangeiros para que as bandeiras dos seus países marcassem presença em palco. Não há nada de mal nisso e todo o assunto não deixa nunca de ser um "fait diver" quiçá fútil mas há qualquer coisa de irritante em ver forasteiros tentando que as estrelas em palco dediquem "atenção" a outro público que não o da "casa". Sebastian Bach caiu na esparrela uma vez, com uma bandeira brasileira, mas já evitou a segunda gaffe ao ignorar outra que lhe foi atirada mais tarde. Faltou-lhe, ao início, a sensibilidade que, por exemplo, os Metallica mostraram na sua última passagem por cá ao ignorarem sistematicamente os apelos de muitos espetadores espanhóis para tomarem em mãos a bandeira do seu país. Um concerto também se faz destas pequenas "atenções"...

Finalmente, uma nota muito negativa para o sistema de transportes públicos da capital. Compreende-se que este espetáculo acabou estupidamente tarde (01:50) e que a Carris e o Metro têm horários mas, ao mesmo tempo, não se compreende que serviços públicos não sirvam quem deles precisa. E ontem houve certamente muita gente que necessitou de ir para casa a uma hora tardia e se viu confrontada com um metro fechado e uma Carris funcionando à custa de esporádicos autocarros noturnos que, naquele local, pouco mais fazem do que levar as pessoas até ao Cais do Sodré onde eu, por exemplo, apenas pude apanhar novo transporte às 03:30!!! Pecado capital que não se volta a repetir: ir ao Pavilhão Atlântico e não levar o carro.


PS - a foto foi roubada ao Blitz e à sensual Rita Carmo

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