Há que lhes dar troco

"Excecionalmente... Se todos fossem como o senhor, ao fim de semana era um caos." foi o que o empregado da loja de revistas do Saldanha Residence me disse quando lhe perguntei se tinha troco de dez euros para eu pagar o jornal "i". Ainda ensaiei a desculpa (verídica) de que o mínimo que as máquinas Multibanco dão é, precisamente, dez euros (e não podemos pedir que a quantia venha em notas de cinco) mas, um minuto depois, estava arrependido, sequer, de ter tido a simpatia de perguntar à criatura pela disponibilidade de troco. É o mal de fervermos em lume brando: deixamos para depois o insulto que devia ser imediatamente disparado perante a puta da arrogância de um empregado que nos faz a nós, clientes, sentir como que uns necessitados que deviam sentir-se enormemente agradecidos pela suprema simpatia de ele nos vender uma merda de um jornal.

E, depois, começamos a pensar nas possíveis reações: explicar ao animal que, se ao fim de semana é um caos por causa dos trocos, então, é a ele, comerciante, que cabe munir-se de moedinhas para evitar que o tal "caos" se instale na sua loja? Dizer à criatura que, independentemente de questões de trocos, ele tem é de se sentir agradecido por eu ter gasto o meu dinheiro no seu estabelecimento e não no quiosque do outro lado da rua? Fazer-lhe notar que não lhe cabe largar comentários ou apreciações sobre o método de pagamento mas tão só servir e agradecer (o que ele também não fez)? Lembrar-lhe que, se eu pretendesse pagar com Multibanco, ele me diria que não aceitava pagamentos tão baixos?

E, depois, uma pessoa pensa que este tipo de comportamentos não é assim tão pouco comum. É, até, frequente. Porque a culpa é sempre dos outros: do Governo, do patrão, do cliente, do tipo que está ao nosso lado. A merda do tuga nunca é responsável por nada do que faz, nunca acha que lhe caiba a si prever um problema e evitar que ele surja, nunca acha que a responsabilidade seja algo que lhe diga respeito, nunca. Ao típico tuga, como o empregado da papelaria do Saldanha Residence, apenas cabe mostrar enfado perante o facto de as coisas não correrem todas exatamente como ele gostaria, ali, pertinho da perfeição da qual nós somos sempre dignos mas que os outros, por serem uns merdas, nos impedem de saborear.

O jornal "i", bem enroladinho, até dava um bom cacete...

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