A tourada e o mundo

Sentado à mesa na casa de jantar do albergue onde estávamos hospedados - em Nápoles -, o rapaz finlandês perguntou-me: "A sério?! Também têm touradas em Portugal?". O tom entusiasmado do moço fez-me dar-lhe mais alguns pormenores sobre a nossa forma de corrida de touros. Notei um crescente interesse no meu companheiro de mesa e, pouco depois, apercebi-me de que ele já estava procurando imagens na internet, acompanhando o que via com um sorriso.

Vem isto a propósito de uma sondagem (vale o que todas valem) segundo a qual os Portugueses (ah, essa palavra repetida até à exaustão) acham que a tourada favorece a imagem do país lá fora.

Por mim - e apesar de ter tido antepassados toureiros -, nunca me senti particularmente entusiasmado pela Festa Brava. Acho as corridas demasiadamente longas. Tirando isto - o tempo que traz o tédio -, nada me move contra esta tradição. Admiro os cavalos, as roupas, os touros, as praças, toda a ideia de um tipo de sociedade agrária que está por trás da festa e que vai beber fundo à nossa cultura rural, tão ou mais válida, certamente, do que qualquer ideal urbano.

Ora, um dos argumentos geralmente usados por quem é "contra" é o da má imagem que a "festa" dá do nosso povo, de como ela é uma chaga aberta na nossa civilização e de como nós nos colocamos num patamar indigno perante os olhos do mundo. De vistas estreitadas por só se darem com certo tipo de pessoas, as criaturinhas complexadas que tanto se preocupam com a opinião dos outros, passam ao lado da realidade: a verdade é que o mundo está-se cagando para os direitos dos touros (aliás, está-se cagando para nós, de uma forma geral) e a perspetiva de entrar numa praça e assistir a uma manifestação cultural tão "exótica" e apelativa é coisa à qual uma boa parte dos turistas não foge. A provar isso, os pacotes turísticos feitos a pensar em estrangeiros e as praças esgotadas. Aqui ao lado, sabem bem disso e não perdem uma oportunidade para passar a ideia de bravura inerente à profissão de toureiro, tentando capitalizar o drama do confronto perante a morte como uma fortaleza do povo e, por conseguinte, da nação.

Depois? Depois, há os xoninhas do costume...

Veja a notícia aqui

Sem comentários: