Zurrapa espanhola

Há algum tempo comprei no Continente uma garrafa de vinho espanhol. Fi-lo por duas razões: porque custava menos de um euro e porque o rótulo me chamou a atenção. Este, mostrava um mapa da Península Ibérica, com destaque para a zona de origem da marca (algures ali para o meio do deserto). Até aí, tudo bem. O problema é que a fronteira com a França estava lá mas a com Portugal, não. Estão a ver o esquema, certo?

Pesquisei pela marca na net e fiquei a saber que a "Don Simon" afirma ser a mais vendida em todo o mundo (entenda-se, a marca "espanhola" mais vendida) e, realmente, encontrei inúmeros sites (japoneses, por exemplo) onde este tinto castelhano estava à venda. Em todos eles, se mantinha o rótulo: Espanha é a península toda.

Anteontem, passei no Continente e reparei que os rótulos estão diferentes. Calculo que a zurrapa no interior se mantenha de igual "desqualidade" mas, pelo menos, alguém deve ter chamado à atenção os cabrões responsáveis pelos rótulos. Em boa hora o fez porque eu já estava a preparar-me para perguntar ao Continente se também era partidário da união ibérica...

Resta saber se, por esse mundo fora, os rótulos também foram alterados ou se se trata de alguma edição especial aqui para o retângulo, para apaziguar os "rebeldes".

Ainda assim, independentemente do final, e como não sou propriamente ingénuo, não acredito que estas coisas aconteçam por distração. Estamos a falar de empresas, de cadeias de trabalho e responsabilidade, de muita gente envolvida e de um grau de ignorância extrema que é difícil de crer verdadeira (mesmo num espanhol habituado a consumir as zurrapas que lá se produzem). Portanto, distrações com coisas como fronteiras não me convencem. O problema é que nós, na nossa habitual bonomia, lidamos com estas canalhices com um certo desportivismo quando, na realidade, estes insultos (porque o são) mereciam mão pesada.

Como é que se admite que o Continente aceite ter à venda material onde Portugal é, pura e simplesmente, obliterado do mapa enquanto nação? Como é que se aceita que o Continente continue tendo à venda coisas de uma marca que, notoriamente, desrespeita os consumidores portugueses? Como é que se entende, finalmente, que o nosso Estado não tenha um qualquer departamento jurídico para rebentar em tribunal com os responsáveis por estas brincadeiras de mau gosto? É que não é só esta marca de vinho... ainda há algum tempo, uma loja de chocolates no CC das Amoreiras (junto ao MacDonalds) tinha à venda "moedas" de euro onde, também aí, a península aparecia como um só país (todos os outros tinham as fronteiras indicadas).

Depois, queixem-se...

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