Acordo Ortográfico

Os argumentos contra o Acordo Ortográfico são como aquele queijo suíço: cheios de buracos. A diferença está em que o queijo sabe bem e os anti-acordo são, geralmente, uns tipos intragáveis.

A imagem ao lado mostra, pela enésima vez, como a ortografia evolui - adaptando-se à fonética -, e, ao mesmo tempo, como em alturas de grande exaltação patriótica e regimes nacionalistas, foi possível alterar a ortografia sem quaisquer dramatismos.

"ViaduCto", "cAmara". Duas palavras escritas de forma diferente numa placa de 1900. Ora, em 1976 (quando comecei a aprender a escrever), de certeza que "viaduto" já não levava "C" e "câmara" se escrevia com um acento circunflexo e, pelo que me é dado ver em livros mais antigos, a consoantezinha muda deve ter sido perdida antes da década de 50. Ou seja, ou foi à vida durante a patriota 1ª República ou durante o nacionalista Estado Novo. Não houve, portanto, uma qualquer "submissão aos Brasileiros" nem ocorreu uma "traição à nossa bela língua".

Um dos problemas com o AO é, precisamente, a falta de jeito para "vender a ideia". Aparentemente, o conceito de "uma língua, uma ortografia" faria todo o sentido. Mas os Portugueses não são gente que preze a lógica e o bom senso, preferindo entregar-se a disparates desconexos consoante a direção do vento: uns dias são nacionalistas (contra os Brasileiros), noutro dia são iberistas ou internacionalistas; nuns dias são progressistas, noutros são conservadores... Mas quase sempre são infantilmente palermas e manipuláveis. E a manipulação foi bem feita, introduzinho inapelavelmente as ideias de que "vamos FALAR como os Brasileiros" e "os Brasileiros é que nos impuseram o Acordo". Pura estupidez, como imediatamente se entende. Pensar que ainda hoje anda aí gente dizendo que se vai passar a escrever "contato" e "fato" é de fazer perder a esperança neste povo a quem seja menos do que santo.

Resumindo: em 1900, "viaduto" levava um "C". Há dezenas de anos que não leva. Por qualquer razão que escapa a Deus Nosso Senhor, numas palavras deixou-se de escrever as consoantes mudas e noutras continuou-se... até chegar o Acordo Ortográfico e impor ordem na casa. Se, por acaso, tivessem sido os Brasileiros a obrigar-nos a arrumar a escrita, então, até seria de lhes agradecer o favor. Era uma espécie de "troika" para a Língua...

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