Deng

Pus-lhe chapéus e bonés, lenços de velha, óculos escuros e capas que fingia serem de super-herói. Fomos para a praia e para o jardim, corremos e lutámos e juntos comemorámos as vitórias da Seleção no Euro 2004. Ele gostava da festa, da passeota e do golo - a bola no fundo da baliza que o fazia correr para a varanda ladrando ao mundo que o Benfica marcara. Adorava o carro que o levava até qualquer sítio - não importa qual que a graça está na viagem e no ar sempre novo que se cheira. No Natal, de barrete periclitante na cabeça, era ele quem distribuia as prendas, sempre mantendo um olho num qualquer pacote onde adivinhava estar a sua e que era, invariavelmente, um grande osso para roer durante semanas. Ao chegar a casa da família, era ele quem fazia as primeiras honras, com uma volta ritual aos visitantes - "faz-me uma festa e és bem-vindo" e, à saída, lá ficava olhando como quem perguntava "se estavam bem, porque se vão?".

Era belo, de um brilhante negro embalado pelas fofas ondas do pelo. Sentenciado ao anonimato por não cumprir a 100% as normas da raça (tinha falta de "stop" disseram-lhe bem na cara), passeava despreocupadamente a sua falta de estatuto pela rua, arrancando elogios a gente que, obviamente, não percebia nada de testas caninas mas gostava do que via.

O pedigree dizia ser ele filho de um Lord e de uma Lady mas destas pomposidades nada herdou, que bem melhor acharam dar-lhe um simples Deng como nome, em jeito de homenagem a um tal de Xao Ping, igualmente chinês mas de cor amarela e com o stop exigível pelos padrões locais. Dos pais herdou o nariz apurado mas enquanto eles o punham ao serviço da lei e da ordem de Macau, ele optou por o manter alerta para proveito próprio. Era um esperançado e um desesperado: a comida era o seu grande vício. Esperava ansiosamente pela migalha que cai, pela gota que se derrama, pela simpatia que se tem. Desesperava pelo suculento naco que sempre lhe negaram. Vingava-se, de vez em quando, com golpes de mão habilmente executados contra algum embrulho descuidadamente deixado no balcão da cozinha. E, em tempos de grande revolta, optava pelo terrorismo dirigido ao caixote do lixo.

Dizem que era esperto mas, provavelmente, como muitos de nós, guardava as suas capacidades para as coisas verdadeiramente importantes da vida, ou seja, sacar uma bucha.

O vocabulário era pouco desenvolvido mas era firme na ciência de alguns termos: "biscoito", "rua", "carro", "praia" não ofereciam dúvidas na sua sonoridade que anunciava prazeres puros e simples, como são os melhores que há.

Partiu esta Segunda, após uma longa vida.

2 comentários:

LUIS MIGUEL CORREIA disse...

São amigos especiais estes que nos enchem o espírito mesmo depois de se irem embora.

Fada do bosque disse...

Bem sei o que é perder um amigo assim... sem palavras...
Fica um vazio tremendo. Gostei muito das palavras que dedicou ao seu amigo; demonstram muita humanidade e bondade.